06/06/2020 às 13h15min - Atualizada em 06/06/2020 às 13h15min

Por que o pico de disseminação da Covid-19 ainda não chegou?

JOÃO LUCAS O'OCONNELL
Hoje, faz 102 dias que tivemos o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus no Brasil. Foi um caso de um cidadão de São Paulo (hoje epicentro da doença) que veio da Itália carregando o vírus consigo em 26/02. Um mês depois, só o estado de São Paulo já tinha mais de 1400 casos. Hoje, já são mais de 600.000 casos e mais de 33.000 óbitos no Brasil! Estes números já seriam, por si só, extremamente alarmantes! Entretanto, visto que a maioria da população que entra em contato com o vírus não é oficialmente diagnosticado, estima-se que o número real de infectados seja ainda maior. Pesquisas recentes, realizadas na população brasileira detectaram que o número real de infectados possa ser, pelo menos, 7 vezes maior que os números oficialmente divulgados. Ainda, como muitos óbitos nos últimos três meses no Brasil foram descritos como “Síndrome Respiratória Grave” no atestado de óbito (por falta de testes para a confirmação da suposta Covid-19), o número real de óbitos pode ser, pelo menos, 2 vezes maior do que o apresentado pelas estatísticas oficiais.

Para piorar, as notícias ruins não acabam por aqui. A curva de disseminação da doença no país está se comportando de maneira diferente da ocorrida na maioria dos países! Enquanto na China, e na maioria dos países do mundo, a curva de disseminação foi muito rápida, atingiu um pico de número de novos casos e óbitos por dia dentro de dois meses e depois começou a cair, no Brasil, mais de 3 meses após os primeiros casos, o número de novos casos e de óbitos diário continua aumentando! Desta forma, infelizmente, aqui no Brasil, a epidemia do novo coronavírus ainda nem atingiu o seu chamado “pico de disseminação da doença”. Mas, se por um lado o número absoluto é grande, não há dúvidas que a curva de disseminação da doença foi realmente achatada! O lado ruim é que, ao invés de vivenciarmos um pico, estamos vivenciando uma espécie de “pico em platô”, com várias semanas seguidas de números muito elevados de casos novos e óbitos. A boa notícia é que o platô superior está cada vez mais próximo do fim e deve durar apenas mais uma ou duas semanas (que Deus me ouça).

O fato é que, infelizmente, o governo e uma boa parte da população brasileira simplesmente não quis ou não pôde fazer o isolamento rígido necessário para contermos drasticamente a evolução do vírus. E, quando o fizemos, fizemos em um momento inadequado na maioria das cidades do país. Nos isolamos mais firmemente em um momento que havia muito pouco vírus circulante. Pelo menos em nossa cidade. Na maioria dos outros países (bem menores e compactos que o Brasil), quando a situação começou a ficar crítica, os governos decretaram medidas muito severas de contenção. Todo o comércio foi fechado por várias semanas, limites de cidades e de bairros foram patrulhados, as pessoas foram proibidas de sair de casa ou circular. Enfim, o “lockdown” foi decretado em boa parte dos países do mundo! Pelo menos, por algumas semanas. Apesar de todo o válido questionamento em relação aos riscos das medidas de “lockdown” para a economia, ele funcionou. O isolamento quase total foi muito impactante, mas foi mais curto que o nosso. As medidas adotadas contiveram a curva de disseminação e a maioria dos países já está reestabelecendo a sua normalidade (com medidas de segurança para evitar que o vírus retorne).

O problema é que, no Brasil, de dimensões continentais, não houve uma política adequada de regionalização e progressão do isolamento de acordo com a real necessidade. Inúmeras cidades e regiões pararam antes mesmo que qualquer paciente da cidade tivesse adoecido. Por diversos motivos (culturais, econômicos e políticos), os governantes e a maioria da população se cansaram das medidas de distanciamento propostas e agora, quando mais precisamos dele, está todo mundo na rua e o vírus está se aproveitando da situação.

Apesar do alto número de casos e de óbitos, o objetivo do distanciamento foi parcialmente conseguido, especialmente em nossa região. Apesar de termos que ficar muito mais tempo mantendo as medidas de distanciamento do que nos outros países, não vivenciamos a obrigatoriedade do “lockdown” e também não chegamos a viver o mesmo caos na saúde pública (e privada) que atingiu países como Itália, Espanha e Estados Unidos. E, mais importante: estamos muito abaixo da média nacional de óbitos, com números, até agora, bastante reduzidos frente à maioria das grandes cidades do país. Assim, o distanciamento social orientado pelas autoridades estaduais e municipais em Minas, apesar de ter sido apenas parcialmente eficaz, certamente evitou números absolutos de casos e de óbitos ainda maiores e mais catastróficos e, certamente, vai ser menos catastrófico para a nossa economia do que teria sido vivenciado em um eventual “lockdown”.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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