22/05/2020 às 09h07min - Atualizada em 22/05/2020 às 09h07min

Vamos adiar junho!

CELSO MACHADO
Pode parecer irônico e provavelmente seja, mas se fosse possível seria bastante pertinente suspendermos o mês de junho.

Já parou para pensar como vai ser chato não poder ter festa junina em junho? Como vão ficar tantas comunidades que necessitam da renda desses eventos para custear suas despesas anuais? Principalmente as entidades assistenciais sejam elas religiosas, comunitárias, filantrópicas, etc, que também contam com as rendas de suas programações nessa época?

Como vai ser triste não vermos as praças decoradas e cercadas; as barraquinhas com múltiplas atrações, as quermesses animadas, as quadrilhas tão bem ensaiadas.

Ficarmos privados da alegria e descontração de saborear um milho assado, pamonha, amendoim torrado, paçoca, pipoca, quentão, doces, os tentadores pastéis, os maravilhosos caldos, e por aí.

Delícias da nossa típica culinária preparadas com muito carinho por fantásticas cozinheiras com que só temos contato nesse período do ano.

Quem não gosta de jogar conversa fora ao som provocativo e contagiante do nosso forró? Curtir o frio ao lado de uma fogueira, usar aquelas camisas xadrez que só vestimos nessa época?

Dedicar nosso tempo nas atividades que não nos são usuais, mas que encaramos com o maior carinho de trabalhar nas quermesses para dar nossa contribuição, para amenizar a carga dos mais necessitados.

Não vai ser fácil digerir junho sem desfrutar de tantas agradáveis tradições que ele sempre apresenta.

E dentre elas tem ainda as tradicionais feijoadas, que já deixaram de ser um programa culinário para se transformar numa festa divertida  ao som alegre do samba e pagode.

Feijoada junina é tão especial que tem muita gente que vai a elas e nem experimenta suas saborosas tentações; vai exclusivamente para compartilhar de convívios amigos estimulados pelas caipirinhas e cervejas no ponto.

Até o frio, que não é tão frequente assim aqui pelas nossas bandas, sempre vem marcar sua presença nessa época do ano. E com ele, mais provocações culinárias e etílicas.

Junho, talvez tanto quanto dezembro, é um mês de encontros e reencontros. De curtir legítimas tradições brasileiras, tão simplórias, tão autênticas. Da gente ficar juntinho e tirar do armário roupas que só servem para essa época.

Sim, pode parecer absurdo, mas para mim faz todo sentido adiar junho. Não consigo imaginar festa junina online. Se não for para encontrar pessoas queridas que muitas vezes só vemos nessa época; não poder desfrutar de um pastel compartilhando do molho de pimenta que passa de mão e mão; de tomar um caldo de feijão em pé; fazer lances irreverentes para arrematar um frango ou pernil assado num leilão que depois é saboreado junto a quem está perto da gente naquelas rodas que são formadas espontaneamente, não tem a menor graça.

Quem sabe a gente possa trocar junho por agosto, que é sempre um mês seco, enfumaçado, de ventania, de queimadas. De céu coberto e cinzento, aborrecido e de poucas atrações.

Agora junho, não:  tem tanta programação que de uns tempos para cá nem estavam cabendo mais nele, tanto que além de juninas as festas passaram também a ser julinas.

Como isso, certamente não será possível o jeito vai ser criativo e inventarmos uma  máscara para usar, comendo, bebendo, dançando e conversando.



O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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