05/05/2020 às 11h11min - Atualizada em 05/05/2020 às 11h11min

Índios brasileiros

Ana Maria Coelho Carvalho, anacoelhocarvalho@terra.com.br
Dia 19 de abril, comemorou-se o Dia do Índio. Lembro-me que, há tempos atrás, foi divulgado na TV um possível caso de canibalismo praticado por índios de uma tribo do Amazonas. Filmaram a aldeia e mostraram os costumes dos índios. Interessei-me pelo assunto e procurei  uma coleção de fotos incríveis que tenho, de índios de aldeias no interior do Amazonas, perto da Bolívia. Foram tiradas anos atrás, por minha filha, quando ela lá esteve durante um mês, com uma equipe da Funai, participando dos trabalhos como assistente de dentista. Na época, ela contou-me tudo o que aprendeu e vivenciou.

Partiram de uma cidade chamada São Gabriel da Cachoeira, em um barco, até chegarem no interior da selva. Dormiam em redes dentro do barco e comiam o que levaram. Na outra etapa, entrou em uma canoinha com a dentista, dois ajudantes indígenas e embrenharam-se no meio dos igarapés. Desceram da canoinha e continuaram o caminho à pé, andando dentro da selva, à noite, cortando galhos com facão ( tipo aquele seriado “Lost”),  até alcançarem uma aldeia de etnia hupda.

Os indígenas que moram nessa aldeia têm pouco contato com os brancos, não falam português, usam poucas roupas e não comem açúcar. Vivem em palhoças com parede de barro e existe uma maior, comunitária, onde se juntam para comer biju e peixe. A alimentação é baseada na mandioca. As mulheres trabalham duro, mesmo as grávidas e as idosas. Cuidam da lavoura, plantam, colhem, capinam, carregam coisas, descascam mandioca, fazem farinha. Os homens pescam, fazem redes e canoas. Quando o peixe é abundante, ele é defumado e se transforma em peixe “muqueado”. Em datas festivas, cada família faz a sua bebida alcoólica, em panela própria, de mandioca fermentada, chamada caxiri. Trocam a bebida entre eles para ver qual está melhor e bebem na cabaça. É um rito social. Ficam bêbados, dançam, pulam e cantam, uma loucura e uma bebedeira geral.

Os idosos, quando não podem mais contribuir com as atividades da aldeia, são deixados para morrer. Não são tratados e ninguém tenta curá-los. Por sua vez, eles entendem que já cumpriram seu papel e aceitam a morte com naturalidade. Minha filha viu uma velhinha que passava o tempo todo numa rede, numa palhoça afastada, e que só recebia uma sopa ralinha uma vez por dia e mais nada. Ficou chocada, mas compreendeu que o entendimento que os índios têm do fim da vida é muito diferente do entendimento do "homem branco".

O tratamento dentário é precário, consistindo na extração de dentes e em demonstrações coletivas de técnicas de escovação. Olhei fotos interessantes de todos os indígenas escovando os dentes, mas sem pasta dental. Eles ganham as escovas do projeto da Funai e aprendem também a limpar os dentes com um fio vegetal.

As crianças indígenas são fascinantes, dóceis e independentes. Nas fotos, há crianças maiores cuidando das menores. Um grupo de meninos e meninas peladinhos, nadando no rio. Correndo na água. Pulando das árvores e mergulhando no rio. Remando sozinhas na canoa. Sentadas na grama. Mamando no peito. Dando birra e rolando no chão. Rostinhos bonitos, parecendo bolivianas. Muitas barrigudinhas, provavelmente cheias de vermes intestinais. Mas, o fato incrível e maravilhoso é que as crianças indígenas não apanham de seus pais. Nas aldeias, elas não são castigadas e ninguém bate nas crianças (esse exemplo deveria ser seguido pelos homens “civilizados”).

Ainda sobre costumes em tribos: em certa tribo da África, cada criança que nasce tem uma canção. Cantam a canção para ela em várias ocasiões importantes. Recordam a beleza da pessoa quando ela se sente feia, sua totalidade quando se sente quebrada, sua inocência quando se sente culpada e seu propósito quando está confusa.

Eu gostaria de ter uma canção assim.


O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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