04/05/2020 às 08h11min - Atualizada em 04/05/2020 às 08h11min

Sistema imunológico não impede contágio do coronavirus

TÚLIO MENDHES
O sistema imunológico está no epicentro de teses e indagações mais primordiais sobre o coronavírus ou COVID-19. Por isso, trouxe mais uma vez essa temática que tem assustado o mundo e, lamentavelmente, se expande dizimando milhões de famílias. Pois bem, a questão é: como temos tratado? Como vamos resistir esse vírus agora, a curto, médio e longo prazo? Pra responder a todas as questões numa só “tacada”, precisamos ter noção sobre o quanto somos e estamos resistentes ao coronavírus.

A certeza que temos é que o nosso sistema imunológico é a proteção natural do nosso corpo em combate as infecções, se dividindo em duas frações. A primeira está permanentemente pronta para detectar e interromper o ataque de quaisquer invasores em nosso corpo. Entretanto, esse sistema não é específico para o coronavírus. Ele não nos dará imunidade ao vírus. Em vez disso, precisamos da chamada resposta imune adaptativa, ou seja, células que produzem anticorpos endereçados que podem aliar-se ao vírus para então atrapalhar e pôr fim a sua multiplicação investindo apenas nas células contaminadas pelo vírus. Resumindo, ter anticorpos não é o mesmo que possuir defesas e estar imune à COVID-19 (coronavírus).

O pensamento de "passaporte de imunidade" com base em testes de anticorpos é inconveniente e perigoso. Os testes dizem apenas que uma pessoa tem anticorpos. Mas, ter anticorpos não é o mesmo que possuir defesas e estar imune. A resposta imune é complexa e envolve outros componentes além de anticorpos. O 'passaporte' colocará pessoas infectadas nas ruas para passar o vírus livremente". Compara-se o anticorpo a uma cicatriz. A presença de anticorpos diz que uma pessoa foi exposta ao vírus e produziu uma resposta a isso. Mas, isso não significa que ficou imune, pois a resposta pode não ser forte ou duradoura o suficiente, e tampouco que ela deixou de ser portadora do vírus.

Claro, algumas pessoas com anticorpos de fato terão desenvolvido defesas, anticorpos capazes de bloquear a infecção, mas os testes sorológicos disponíveis em larga escala não são capazes de informar isso. O teste para detectar a presença de anticorpos neutralizantes, que não é um teste rápido, seria um indicador mais acurado de imunidade. A chamada persistência, ou seja, a capacidade do novo coronavírus continuar "escondido" no organismo mesmo depois de a pessoa se recuperar de uma infecção ainda é desconhecida. O vírus para de se replicar desenfreadamente e de causar doença, mas continua no corpo da pessoa. Se as defesas dela, por algum motivo, enfraquecem, ele pode voltar a se replicar e ser transmitido, além de provocar sintomas. Isso pode ter acontecido, por exemplo, com pacientes com COVID-19 que foram considerados recuperados e voltaram a testar positivo na Coreia do Sul e na China.

As pessoas estão "brincando com fogo" no que diz respeito à epidemia. No Brasil, estamos muito mal. O governo e as empresas falam em retomada da economia justamente no momento mais crítico da epidemia. O resultado será um pandemônio. Se até aqui tivemos alguma redução de curvas de crescimento, foi graças ao distanciamento social, e reduzi-lo dará ao coronavírus um passe livre. O vírus vai bater na porta das casas e das empresas. O tal "passaporte de imunidade" será uma carteira de vacinação.

Se as pessoas mantiverem alguma proteção, mesmo não tão efetiva, isso tornará a doença menos perigosa. Compreender a imunidade pode ajudar a flexibilizar o confinamento, se soubermos de fato quem não corre o risco de pegar ou espalhar o vírus. Se for muito difícil produzir imunidade a longo prazo, isso poderá dificultar o desenvolvimento de uma vacina. Ou pode mudar a forma como a vacina precisa ser usada - ela será aplicada uma única vez na vida ou uma vez por ano, assim como a vacina contra a gripe? E a duração da imunidade, seja por infecção ou imunização, nos dirá qual a probabilidade de conseguirmos impedir a propagação do vírus. Todas essas são perguntas importantes às quais ainda não temos respostas.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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