26/04/2020 às 08h30min - Atualizada em 26/04/2020 às 08h30min

COVID-19: no país das polarizações, a maioria das previsões falhou...

JOÃO LUCAS O'CONNELL

Enquanto na maioria dos países do mundo, lideranças e grupos políticos se uniram no combate ao novo coronavírus, a pandemia dividiu ainda mais o Brasil. A forte e já duradoura polarização política entre “direita e esquerda” acabou por interferir também nas previsões sobre como seria o comportamento da epidemia no país e nas estratégias elaboradas para combater a COVID-19. Foi criado um ambiente hostil de polarização em que: ou se menosprezava a gravidade da epidemia e a necessidade do isolamento social (com o objetivo principal de liberar rápido a retomada da economia); ou se defendia um forte e longo isolamento horizontal como a melhor estratégia para se tentar evitar o caos e o colapso dos sistemas de saúde público e privado.

A polarização chegou, inclusive, ao absurdo de atrapalhar a racionalidade científica quando, por exemplo, discussões referentes a protocolos de tratamento médico dos doentes se tornaram estritamente políticas... Uma droga específica (a hidroxicloroquina) foi eleita por algumas autoridades (e também por boa parte da comunidade médica e da população) como muito eficaz para o combate à doença, antes mesmo de passar pelas etapas necessárias para a avaliação dos riscos e benefícios reais do tratamento. Apesar de mais irracional que possa parecer, um grupo respeitado de pesquisadores nacionais chegou a ser taxado de comunistas, sabotadores e assassinos, simplesmente pelo fato de terem conduzido um estudo clínico em que a droga em questão fez mais mal do que bem aos pacientes que a receberam, contrariando as expectativas e esperanças de alguns...

Nesta panaceia de opiniões extremadas “de direita ou de esquerda”, a maioria das previsões sobre a evolução da pandemia no país falhou até aqui. O grupo que afirmava que a epidemia não chegaria ao Brasil (ou chegaria trazendo um impacto pequeno) tem que ficar, no mínimo, sem graça enquanto se confirmam alguns milhares de mortos e o caos instalado na saúde de algumas cidades do país, mesmo antes do suposto pico da curva de contágio. Por outro lado, os profetas do apocalipse que previam centenas de milhares de mortes, também erraram feio (e tomara que continuem errados).

Mesmo sem termos atingido o pico da curva de disseminação, inúmeras hipóteses já foram levantadas na tentativa de explicar porque a epidemia não foi tão dramática no Brasil até aqui (quando comparada a outros países da Europa ou aos EUA): pelo fato de sermos mais expostos ao sol (a vitamina D poderia ser um fator protetor); por termos sido vacinados contra tuberculose ou contra a tríade sarampo, caxumba e rubéola (especula-se que as vacinas para estas doenças poderiam conferir maior imunidade contra a COVID); por termos entrado em contato com uma versão mutante menos agressiva do vírus... Mas, provavelmente, o menor número de acometidos e mortos no Brasil até aqui se deva a outros fatores mais diretamente relacionados à disseminação de um vírus na população: pelo fato de termos feito um bom e precoce distanciamento social, logo que os primeiros casos surgiram no Brasil (isto diminuiu bastante a curva de contágio); pela menor densidade populacional do país, por não vivermos em casas e prédios sem ventilação natural (nos EUA e Europa muitos trabalham e vivem em construções com ar condicionado central e janelas sempre fechadas); por estarmos no outono (o clima menos seco e mais quente seria menos maléfico que o frio dos países do norte); por não termos tantos idosos, fumantes, obesos e pessoas que vivem em asilos como na Europa e EUA (o que diminui a probabilidade de termos casos de maior gravidade e de óbitos).

A polêmica mais recente entre os extremistas é sobre quais seriam o momento e a maneira mais adequados para deixarmos o isolamento horizontal e iniciarmos a retomada de nossas atividades diárias. Apesar da forte polarização entre os negacionistas (que querem a retomada imediata de todas as atividades habituais à sociedade) e os alarmistas (que sugerem manter o isolamento horizontal por mais algumas semanas ou meses), o Comitê de Enfrentamento local escolheu um caminho moderado e, provavelmente, muito acertado: o da retomada gradual de atividades agrícolas, comerciais e industriais (praticadas, em sua maioria, por adultos jovens) e a manutenção do isolamento de populações de risco; intensificação de cuidados de higiene manual e respiratória; e a manutenção do fechamento de outras atividades não essenciais para diminuir o número de pessoas circulando e de aglomerações (mantendo o fechamento de cinemas, teatros, shoppings, escolas e universidades).

Lembro-me bem de uma frase que um dos meus mestres da época de faculdade (que é um dos líderes do Comitê de Enfrentamento atual) sempre dizia: “a virtude está no meio...” Nesta época de pandemia e histeria, ela parece fazer ainda mais sentido... Acredito que na política e na vida, a decisão mais sábia é aquela que contempla posições mais moderadas e ponderadas. Estamos no caminho certo! Venceremos esta batalha juntos, de preferência, com menos polarizações e com mais sabedoria e racionalidade!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
























 

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