12/01/2020 às 08h00min - Atualizada em 12/01/2020 às 08h00min

Que emoções as músicas causam em você?

ANGELA SENA PRIULI

Não tem nada mais gostoso que ouvir aquela música que nos remete a boas memórias, não é? Mas, por outro lado, ouvir aquilo que chamam de música, mas que nosso cérebro conhece por barulho, dá uma "irritação"! O fato é que a música é uma arte que evoca vários tipos de emoções na gente e a ciência quer saber quais são elas e quais gêneros se associam a elas.

Assim, cientistas da Universidade da Califórnia, Berkeley - EUA, pesquisaram mais de 2.500 pessoas nos Estados Unidos e na China sobre suas respostas emocionais a milhares de músicas de diversos gêneros como rock, folk, jazz, música clássica, banda marcial, experimental e heavy metal. O resultado? A experiência subjetiva da música através das culturas pode ser mapeada dentro de pelo menos 13 sentimentos gerais: diversão, alegria, erotismo, beleza, relaxamento, tristeza, sonho, triunfo, ansiedade, medo, irritação, desafio e sentimento.

"Imagine organizar uma biblioteca de música massivamente eclética por emoção e capturar a combinação de sentimentos associados a cada faixa. Isso é essencialmente o que nosso estudo fez", disse o principal autor do estudo, Alan Cowen, um estudante de doutorado em neurociência da UC Berkeley. Os resultados saíram semana passada na Proceedings da National Academy of Sciences, onde mostra que Cowen traduziu os dados em um mapa de áudio interativo, no qual os visitantes podem mover seus cursores para ouvir milhares de trechos de música e descobrir, entre outras coisas, se suas reações emocionais correspondem à forma como pessoas de diferentes culturas respondem à música.

Enquanto os participantes do estudo nos EUA e na China identificaram emoções semelhantes - como sentir medo de ouvir a trilha sonora do filme "Tubarão", eles diferiram se essas emoções os fizeram se sentir bem ou mal. "Pessoas de diferentes culturas podem concordar que uma música está com raiva, mas podem diferir se esse sentimento é positivo ou negativo", disse Cowen, observando que valores positivos e negativos, conhecidos no jargão da psicologia como "valência", são mais específicos de cada cultura. Além disso, em todas as culturas, os participantes do estudo concordaram principalmente com as caracterizações emocionais gerais dos sons musicais, como raiva, alegria e irritação. Mas suas opiniões variavam no nível de "excitação", que se refere no estudo ao grau de calma ou estímulo evocado por uma peça musical.

Primeiro, os participantes examinaram milhares de vídeos no YouTube em busca de músicas que evocavam uma variedade de emoções. A partir deles, os pesquisadores construíram uma coleção de clipes de áudio para usar em seus experimentos. Em seguida, quase 2.000 participantes do estudo nos Estados Unidos e na China avaliaram cerca de 40 amostras de música com base em 28 categorias diferentes de emoção, bem como em uma escala de positividade e negatividade, e em níveis de excitação. Usando análises estatísticas, os pesquisadores chegaram a 13 categorias gerais de experiência que foram preservadas através de culturas e encontradas para corresponder a sentimentos específicos, como "deprimente" ou "sonhador".

Aqui vão algumas músicas avaliadas: "Four Seasons" de Vivaldi fez as pessoas se sentirem energizadas. O "Rock the Casbah" do Clash fez a galera "bombar". "Let's Stay Together", de Al Green, evocou sensualidade, e "Somewhere over the Rainbow", de Israel Kamakawiwo'Ole, provocou alegria. Enquanto isso, o heavy metal foi amplamente visto como desafiador e, exatamente como o compositor pretendia, a trilha sonora do filme "Psycho" provocou medo.

Esses cientistas já haviam realizado um estudo no qual identificaram 27 emoções em resposta a vídeos sugestivos do YouTube. Para Cowen, que vem de uma família de músicos, estudar os efeitos emocionais da música parece o próximo passo lógico de sua pesquisa. Além de estimular tais emoções, como nosso corpo responde a elas quando as sentimos? Produzimos hormônios do bem ou substâncias do estresse? São muitas perguntas a serem investigadas.

As aplicações potenciais para essas descobertas da pesquisa vão desde a informação de terapias psicológicas e psiquiátricas projetadas para evocar certos sentimentos, até a ajuda de serviços de streaming de música como o Spotify a ajustar seus algoritmos para satisfazer os desejos de áudio de seus clientes ou definir o clima. Isso sim que usar algo tão antigo quanto a música somado a tecnologia, como os aplicativos de playlists que usamos no dia a dia, para criar em nossas vidas momentos de prazer, alegria ou até mesmo motivação.

Gostou? Corre lá, arrume um tempo, ouça sua música preferida e veja como se sente...
 
Fonte:
Alan S. Cowen, Xia Fang, Disa Sauter, Dacher Keltner. What music makes us feel: At least 13 dimensions organize subjective experiences associated with music across different cultures. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2020.


*O conteúdo desta coluna é da responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.









 

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