11/12/2019 às 13h10min - Atualizada em 11/12/2019 às 13h10min

Repartindo o pão

Por Ana Maria Coelho Carvalho, bióloga
De vez em quando precisamos escrever sobre pessoas especiais que marcaram nossas vidas, principalmente em tempos de Natal, quando ficamos mais emotivos.

Uma dessas pessoas foi meu irmão Paulo, que faleceu em Belo Horizonte em 2010. Deixou esposa, nove filhos, 23 netos e alguns bisnetos. Além de tantos descendentes, deixou uma história de vida marcada pela honestidade, bondade, retidão de caráter e inabalável fé em Deus. Como eu era da idade dos seus filhos, o Paulo foi para mim um pai, um irmão, um conselheiro e um amigo mais velho.

Mas, acima de tudo, ele foi um exemplo de como repartir o pão de cada dia. Morei em sua casa em BH, quando cursei o ensino médio, o curso normal. Era uma casa antiga, movimentada e elástica, no bairro Funcionários, que abrigava o Paulo, a Yara (sua santa esposa), os nove filhos com idade entre um e 22 anos, eu e meus dois irmãos, dois sobrinhos e durante algum tempo, também a avozinha Anita, de cabelos branquinhos, educação de rainha e mãos macias. E ainda o irmão que estava com câncer e precisava de um ombro amigo para ampará-lo. Havia lugar para todos, mesmo se fosse em camas de armar e desarmar. E na hora das refeições, lembro-me bem do Paulo dividindo tudo de forma justa, depois de contar quem estava presente à mesa e quem faltava. Na hora da sobremesa, um pedaço de doce para cada um, do mesmo tamanho, e não adiantava pedir mais. Era para ele uma árdua tarefa alimentar tantas bocas com o seu salário de inspetor da Secretaria de Finanças; era farmacêutico, mas nessa época não mais exercia a profissão. O orçamento era sempre apertado. Lembro-me do dia em que um de seus filhos menores pediu dinheiro para comprar presente de aniversário para o amiguinho que morava na casa abaixo. O Paulo, da sala, esbravejou que era para comprar um presente bem baratinho, que ele não aguentava mais comprar presentes para os meninos daquela casa (lá morava um médico que também tinha nove filhos). O problema é que o aniversariante estava bem sentadinho na sala e ouviu tudo.

Mais importante que o pão material, o Paulo repartia o pão do espírito. Distribuía para os que o cercavam a sua generosidade, o seu entusiasmo pela vida, o seu incrível senso de humor. Sabia como ninguém soltar frases ferinas, inteligentes e espirituosas sobre qualquer assunto ou pessoa. Unia toda a família em torno de sua paixão pelo Atlético e pelo vôlei. Sempre jogou vôlei no Minas Tênis Clube, chegando a chefiar por uns tempos a delegação. Quatro de seus filhos foram jogadores profissionais desse clube, e depois dois netos. Em suas orações, lembrava-se de todos; rezava o terço todos os dias com a Yara e era devoto do Padre Eustáquio.    

Deixou exemplo de marido e pai exemplar. Nunca o vi levantando a voz para a esposa ou para os filhos. Claro que deveria ter os seus defeitos, mas, sinceramente, não sei quais eram eles, a não ser, fisicamente, os joanetes enormes, os dedos dos pés encavalados e os joelhos um pouco tortos. Mas, mesmo isso, poderia ser considerado a sua marca registrada e não um defeito. Gostava de jogar truco, de saborear uma boa cachaça e de fazer discursos caipiras. 

No dia de seu enterro, foi comovente sentir como ele era querido por todos e como parecia em paz, cercado pela esposa, filhos, netos, amigos e por inúmeras coroas de flores. Deixou saudades, mas com certeza está agora cercado por anjos. 

E a vida é assim. Há um tempo pra tudo. Tempo pra nascer e pra morrer, tempo pra rir e pra chorar. E um lindo tempo de  Natal, quando o Jesus menino nasce para nós. Pequenino, de bracinhos abertos, entregue à nossa ternura. E que nada nem ninguém o tire de nossas vidas, pois uma vez acontecido, o Natal é para sempre.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 
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