30/10/2019 às 08h03min - Atualizada em 30/10/2019 às 08h03min

Finados

MARIÙ CERCHI BORGES | PROFESSORA

Era um dia de silêncio e respeito. As emissoras de rádio suspendiam sua programação normal e selecionavam músicas clássicas para se ouvir ao longo do dia. A data guardava, em si, consternação e silêncio, pois não havia uma família sequer que não tivesse uma saudade a cultivar, um túmulo para depositar suas flores, um altar para as suas preces. 

O que estranhamos nos dias atuais é que, para alguns, tal data serve apenas como pretexto para se esticar a alegria por mais um feriado à vista! Mas a morte, como destino comum da humanidade, não pode passar, assim, de forma tão fria e indiferente. Finados precisa ser compreendido como um patrimônio vivo da reflexão humana. Esse estar-no-mundo é um tempo de caminhada que nos foi concedido trilhar, bem ou mal, com os pés firmes na estrada. Não se trata de uma data “piegas” desta ou daquela religião. Trata-se, sim, de reverenciar, com respeito, os que pisaram este solo antes de nós e que, bem ou mal, deixaram o seu tributo à humanidade. Mas não é isso que temos observado. Há muito tempo, reverenciar os mortos não faz parte do entendimento dos jovens de hoje que não foram educados para enxergar coisas que, por não serem concretas, escapam ao olhar. As gerações de hoje são o reflexo dessa intensa busca de felicidade, pois não aprenderam a conviver com a dor. Fica difícil entender o que projetam para o amanhã. Precisamos reconhecer que estamos vivendo uma crise cultural que descarta, sem nenhum escrúpulo, a ética, o respeito, os vínculos, a dor, o sofrimento dos cardápios do existir. Embora seja impossível ao ser humano, dissociar aquilo que, necessariamente, brota da sua dimensão espiritual, sabemos que, para algumas pessoas, tal dimensão não existe. Conceituam a vida de forma horizontal, ou seja, acabou, acabou e, pronto! Estão convencidos de que, terminado o tempo destinado a cada um, retorna-se ao pó de onde somos originários. Nada além do pó do qual fomos criados, tal seja, fertilizante para a terra! Essa dimensão espiritual, quer queiramos ou não, existe, transborda do nosso ser e grita pela sua sacralidade! A espiritualidade ultrapassa o universo das coisas concretas, visíveis e palpáveis. Através dela e por ela, torna-se possível a compreensão da totalidade do nosso ser enquanto parte de um todo e, ao mesmo tempo, a totalidade desse próprio todo! Ou seja, corpo, mente e espírito - unidade substancial que nos constitui e identifica enquanto seres humanos. A morte do corpo, suponho, nos conduz, para a grande travessia, fim de uma jornada que abre horizontes, certamente, para um novo estado de consciência, quem sabe até para uma forma de vida mais plena.

Para os místicos, a morte não é um fim puro e simples, mas um caminhar para a verdadeira fonte originária de nossas vidas; morrendo, afirmam, acabamos de concluir o processo de nascer, tal seja, fechar os olhos para ver melhor. Tal visão mística, embora consoladora, só é assimilável à luz da fé. Finados é uma data convencional como tantas outras do calendário, mas não deixa de abrir espaços para necessária reflexão sobre o fim que nos espera num dia qualquer, numa hora qualquer, num momento qualquer; verdade essa, inexorável.

Ficam algumas perguntas: é melhor não pensar? Ignorar? Fechar as portas do amanhã para não nos assustarmos com a chegada da noite? Ou, estarmos preparados, plenos da esperança de que estaremos um dia frente a frente com um Pai que nos ama e nos espera.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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