27/10/2019 às 13h00min - Atualizada em 27/10/2019 às 13h00min

Comer carne vermelha virou uma discussão ainda mais séria!

ANGELA SENA PRIULI

Muitos de nós já ouvimos dizer que carne vermelha e processada não são boas para a saúde e devem ser consumidas apenas em pequenas quantidades, certo? Até a coluna CiênciaPop já trouxe informações sobre há uns meses para você, leitor.

Estudos anteriores associaram a ingestão de carne vermelha e processada a um aumento de certos tipos de câncer e doenças cardíacas. O surgimento de alternativas à base de plantas, como muitas receitinhas veganas, tornou mais fácil reduzir ou eliminar a carne vermelha de sua dieta. Mas, as novas diretrizes publicadas recentemente na respeitada revista científica Annals of Internal Medicine abalou o mundo da nutrição, sugerindo que os efeitos negativos à saúde da carne vermelha e processada foram exagerados.

O grupo internacional de pesquisadores, conhecido por NutriRECS, liderado por Bradley C. Johnston, epidemiologista da Dalhousie University, no Canadá, afirma que sua missão é "produzir recomendações confiáveis ​​sobre diretrizes nutricionais com base nos valores, atitudes e preferências dos pacientes e membros da comunidade". O NutriRECS determinou que há "evidências de baixa certeza" de que reduzir o consumo de carne vermelha e processada reduzirá o risco de desenvolver doenças cardíacas ou de morrer de câncer. O grupo recomenda essencialmente que os adultos “continuem com o consumo atual de carne vermelha não processada” e “carne processada”, em vez de reduzir a escala. Pasmem!

De onde tiraram essa ideia? Os resultados publicados foram obtidos a partir da análise de estudos que investigaram como a carne vermelha e processada afeta os resultados de saúde e atribuiu notas a essas pesquisas - as notas vieram de um software que normalmente é usado para avaliar a qualidade das evidências científicas. As notas sistematizadas determinaram que os estudos observacionais anteriores sobre carne eram de "baixa qualidade".

Mas um grande número de especialistas em nutrição e médicos não está de acordo com as descobertas da NutriRECS. A maior parte da reação está relacionada à maneira como as descobertas foram interpretadas e à gravidade das recomendações. De fato, especialistas da Escola de Saúde Pública de Harvard disseram que o objetivo do artigo desse grupo é "intrigante" e as razões de suas recomendações são "problemáticas". Um grupo separado de médicos e especialistas em saúde pública da True Health Initiative, uma organização destinada a combater fake news na saúde, escreveu uma carta coletiva pedindo aos autores para não publicar o artigo "por uma questão de entendimento e saúde pública". A American Cancer Society também divulgou uma declaração esclarecendo que, apesar das notícias, eles ainda “recomendam limitar o consumo de carne vermelha e processada para salvar vidas do câncer”. Frank Hu, presidente do departamento de nutrição de Harvard, disse que a recomendação geral de que os adultos devem continuar com seus hábitos de consumo de carne vermelha é altamente irresponsável, em comunicado à True Health Initiative. E seguiu: "Estamos enfrentando uma epidemia crescente de doenças crônicas relacionadas à dieta e uma crise de mudança climática, ambas ligadas ao alto consumo de carne".

No entanto, os autores deste novo estudo se concentraram exclusivamente nos resultados relacionados à saúde e decidiram que os fatores ambientais e de bem-estar animal estavam "fora do escopo" deste estudo, mas eles levaram em consideração os valores e preferências das pessoas. Os autores escreveram que "os onívoros gostam de comer carne e o consideram um componente essencial de uma dieta saudável". Os pesquisadores acrescentaram que a maioria dos onívoros hesita em desistir da carne, mesmo entendendo os "efeitos potencialmente indesejáveis ​​para a saúde".

Depois de apresentar os dois lados, é importante dizer que veio à tona mais uma bomba: o grupo de pesquisa em nutrição NutriRECS, cujo estudo recente chamou muita atenção por minimizar os riscos da carne vermelha, recebeu financiamento de um programa universitário parcialmente apoiado pela indústria de carne bovina.

Mesmo no mundo da ciência existem conflitos de interesse, infelizmente. Então, o que os consumidores que desejam comer uma dieta promotora de saúde devem fazer? Particularmente, creio na montanha de estudos sugerindo que a carne vermelha e/ou processada pode ser prejudicial e que este alimento deve entrar em nossa dieta com parcimônia, para que nos protejamos, mas que ao mesmo tempo, não deixemos de sentir o gostinho do churrasquinho que nós, brasileiros, tanto gostamos.

Precisamos de mais gente nos ajudando a interpretar os dados da ciência para aplicarmos em nossas rotinas, não é mesmo?
 
Fontes:
Johnston BC, Zeraatkar D, Han MA, et al. Unprocessed Red Meat and Processed Meat Consumption: Dietary Guideline Recommendations From the Nutritional Recommendations (NutriRECS) Consortium. Ann Intern Med. 2019.
https://www.cnbc.com/2019/10/01/eating-less-red-meat-does-not-improve-according-to-controversial-new-health-study.html
https://www.washingtonpost.com/business/2019/10/14/research-group-that-discounted-risks-red-meat-has-ties-program-partly-backed-by-beef-industry/


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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