03/10/2019 às 07h55min - Atualizada em 03/10/2019 às 07h55min

Para minha neta

ANA MARIA COELHO CARVALHO

Hoje eu acordei com saudades de minha neta. Fiquei pensando no seu nascimento. Ela nasceu no dia 18 de abril de 2010. Veio ao mundo de parto natural, em um hospital de Uberlândia. Tão rápido que nasceu na maca, no pronto socorro, sem assistência médica na hora crucial. Um enfermeiro, o Tito (nome fictício para proteger o personagem), entrou na salinha onde minha filha estava esperando a médica apenas para levar uma maca. Teve que aparar o bebê no susto, sem nunca ter visto um nascimento ou ter feito um parto.  A mãe, minha filha Karine, aturdida pelas dores, perguntou se era menina ou menino (não quis saber o sexo antes). O Tito, mais aturdido ainda, segurando o bebê escorregadio e lambuzado, respondeu que era menina. O pai, trêmulo e de pernas bambas, segurando as mãos da mãe (só ele assistiu a tudo). A avó (eu), entrando esbaforida no quartinho, magoada por ter perdido o parto (estava preenchendo os papéis para a internação) e maravilhada ao ver a netinha, aliás netona, com 3.800g. A médica, atrasada, chegou para cortar o cordão umbilical e “costurar” a parturiente.

Foi assim que nasceu a Yara, a rainha das águas. Iria se chamar Gaia, em homenagem ao planeta Terra, mas depois a mãe se encantou com o nome e o significado de Yara. Ela saiu do hospital de roupinha cor de rosa, escolhida na malinha onde metade das roupas era azul e metade era rosa. Veio para a casa dos avós, pois a filha mora na Bahia, entre coqueiros, areia e mar. A partir daí, começou a maratona das mamadas no peito, choros e berros (os pulmões dela eram fortes), soluços, arrotos, fraldas, banhos. As visitas, os presentes, os comentários de “é a cara da mãe”. Noites mal dormidas e falta de tempo para comer em sossego. Lembrei à minha filha que minha santa mãe, em sua sabedoria, sempre dizia: “desde que filho possuí, nunca mais barriga enchi”.

Mas bom mesmo era ter a Yara no colo (quando ela não estava berrando). Acredito que um dos atos mais sublimes da humanidade é ter um bebê nos braços. Momentos de ternura, de carinho, de enlevo. Oportunidade de maravilhar-se com a perfeição das mãozinhas, dos pés, dos olhos que olham ainda sem enxergar; de curtir o sorriso com duas covinhas e de sentir o aconchego do corpinho quente e macio daquele pedacinho de gente. Pensar que a vida é mesmo um milagre e mais simples do que a gente pensa. Sentir que aquele bebê representava um universo de verdades a ser descoberto, uma vida a desabrochar e florescer entre alegrias e dores. Como bem escreveu Lya Luft, “o primeiro momento em que um filho é colocado nos braços de uma mãe representa um misto de susto, plenitude e ternura, maior e mais importante do que todas as glórias da arte e da ciência, mais sério do que as tentativas dos filósofos de explicar os enigmas da existência”. O primeiro momento em que as avós colocam os netos no colo também é assim.

Agora a Yara está com nove anos e vive em sua casa, na praia de Algodões. Uma menininha linda, de pele dourada, cabelos claros, sensata e comportada. Desejo a ela uma vida plena de afetos e que sempre se sinta querida e amada como foi desde o primeiro momento. E que tenha muitas coisas boas na vida, como as que descreveu Carlos Drumond de Andrade: “tomar banho de cachoeira, banho de mar, ver o pôr do sol, beber água de coco na sombra de um coqueiro, comer fruto do mato, ouvir canto de passarinho e chuva no telhado, sentir o cheiro do jardim, aprender uma nova canção, bater palmas de alegria, calçar um chinelo velho, curtir uma festa, um violão, uma seresta e namoro no portão”.

Desejo ainda que receba muitos abraços, que dê muitas boas risadas e que tenha muita saúde. E que Deus a proteja sempre e a carregue no colo quando precisar.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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