12/09/2019 às 08h15min - Atualizada em 12/09/2019 às 08h15min

Os bichos

ANA MARIA COELHO CARVALHO

 
Gosto de gente, de bichos e de plantas, não necessariamente nessa ordem. O comportamento, a beleza, a perfeição, a originalidade e a "sabedoria' dos animais me fascinam. O comportamento principalmente.

Por exemplo, o porco que tínhamos na nossa fazenda, o Janjão. Ele nasceu em uma ninhada de 14 leitõezinhos, mas a mãe, infelizmente, veio a falecer, talvez devido ao desgaste de alimentar tantos porquinhos. O Manoel, o encarregado da fazenda, tentou criá-los na mamadeira, mas só o Janjão sobreviveu. Transformou-se em um porco que mamava como um bezerro e se julgava um cachorro. Adotou o Manoel como pai/mãe e os cachorros como irmãos. Considerava um ultraje, um desaforo, ficar trancafiado no chiqueiro com os seus semelhantes. Não se misturava. Fugia e ia se juntar aos cachorros, vivia esparramado na varanda da casa. Um dia, ao sair da sala, olhando pro lado, abri a porta e pisei no Janjão, quase levei uma mordida. Estava lá, folgadão, deitado, pensando que era cachorro.

O que ele mais gostava era de andar atrás do Manoel. Onde o Manoel ia, o Janjão ia atrás. Mesmo se ele saia a cavalo, o porco o seguia, lépido e ligeiro, balançando o rabinho enrolado. Quando o Manoel atravessava o rio na canoinha, os cachorros pulavam na água e iam nadando atrás. O Janjão também, nadando como um cachorro. Gostava de ficar no colo do Manoel, cochilando e recebendo um cafuné. Se outra pessoa o pegasse, não aceitava. Esperneava, mordia e saia guinchando. Colo, só mesmo o do pai/mãe.

O problema é que o Janjão foi crescendo, e muito. Ficou valente, custoso e brigão. Batia na cachorrada toda e mamava na Tigrona, uma cadela fila bem mansa. As vezes queria até cruzar com ela, em uma promiscuidade total. Não houve saída e venderam o Janjão. Matar e comer a tenra carne dele, do porco de estimação, nem pensar. Ele se foi, mas ficou para sempre na história da Fazenda Água Verde.

Outro caso de animal adotado é um que vi há tempos na internet. Owen, um filhote de hipopótamo de 300 kg, foi salvo por uma equipe de resgate na Ásia, por ocasião do tsunami. A mãe morreu e ele adotou um macho centenário de tartaruga gigante como sua mãe. A tartaruga ficou bem adaptada ao seu papel e o hipopótamo a seguia por toda parte. Ela (na verdade, ele) ia andando devagarzinho, como toda tartaruga, e Owen ia a seu lado. Comiam e nadavam juntos. Na hora de dormir, o bebê hipopótamo colocava a cabeçorra no casco da tartaruga e dormia como um anjo. Dois gigantes muito ternos.

Também os animais do Cerrado são bem interessantes. O lobo-guará, com pernas finas e longas, audição aguçada, solitário, ameaçado de extinção. O tamanduá-bandeira, com garras dianteiras poderosas, cauda imensa e peluda; enxerga pouco, mas o olfato é ótimo. O tatu-canastra, enorme, com até 60 kg e um metro de comprimento, cava tocas gigantes, bem raro porque é caçado por sua carne saborosa. O bicho-preguiça, bem peludo, preguiçoso e parado, passa o dia dormindo, dependurado nos galhos. O ouriço-cacheiro, inofensivo e lerdo, mas com espinhos afiados.

Além dos mamíferos, aves incríveis. O tucano, a arara, o bem-te-vi. A coloração das penas, os vários tipos de bicos adaptados a diferentes tipos de alimento, o canto harmonioso, os ninhos, as danças de acasalamento... Tudo bonito e perfeito. E os insetos do cerrado então... As borboletas, o bicho-pau, os besouros de todas as cores, o louva-a-deus, as abelhas, as vespas, os grilos, os gafanhotos, as formigas, milhares deles. Grandes, pequenos, camuflados, coloridos, nos troncos, nas folhas, voando por toda parte. O show da vida, em toda a sua diversidade e beleza.

Enfim, o bicho-homem ainda tem muito a aprender com os outros bichos.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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