08/09/2019 às 14h30min - Atualizada em 08/09/2019 às 14h30min

Doutores estão desempregados. Vamos mudar isso?

ANGELA SENA PRIULI

Se você digitar "emprego doutores" no Google vai se deparar com dezenas de notícias com essa manchete acima. Não é segredo para ninguém os tantos milhões de desempregados que temos no país, infelizmente. Daí as pessoas dizem: ah, mas as pessoas estão desempregadas por falta de qualificação. Será?

Mesmo os mais bem qualificados profissionais têm dificuldades para encontrar um emprego no país. Por isso, não é exagero afirmar que estamos formando mestres e doutores para o desemprego, como foi dito por Silvio Meira, professor da Universidade Federal de Pernambuco. Os números demonstram isso de maneira cruel: enquanto no mundo afora essa taxa gira em torno de 2%, por aqui, a média de desemprego é de 25%. Os mestres estão em situação ainda pior: 35% fora do mercado de trabalho.

São vários os motivos para tal cenário, mas um fato, que eu vivi pessoalmente, é o tipo de formação e orientação aplicada aos futuros cientistas. Durante a formação de um mestre ou um doutor, há o desenvolvimento de habilidades relacionadas estritamente ao mundo acadêmico-científico, que são essenciais e diferenciais, mas que desconsideram a possibilidade de um doutor não vir a ser um professor em uma universidade no futuro - até porque não haveria vagas suficientes para absorver a oferta de PhDs, ou não vir a ser um pesquisador de ciência básica. Para incrementar essa informação, uma pesquisa mundial feita com 5.700 doutorandos mostrou que 25% não tinham intenção de seguir carreira acadêmica e que pensavam então em buscar uma posição na área industrial, por exemplo.

Hoje, no Brasil, ainda temos que contar com a crise e corte de gastos por parte das empresas privadas. Mas se esses doutores tivessem habilidades ou fossem treinados para atuar como empreendedores ou como colaboradores do setor privado, certamente seria muito enriquecedor contar com pessoas com esse nível de conhecimento nos times das grandes empresas, pois se há um diferencial que ganhamos ao estudar tanto é análise crítica de resultados. E que processo não necessita de alguém com esse olhar de lince?

Por sorte (será que existe?), posso deixar aqui meu depoimento como alguém que transitou da academia para o setor privado, aos trancos e barrancos - não posso negar -, e dizer que não somos "supercapacitados" apenas, como muitas empresas que dizem não ao nosso currículo gostam de dizer, mas somos principalmente supercapazes de aprender mais e nos adaptar a novas realidades inerentes ao ramo do empreendedorismo ou do corporativismo.

Encontrei várias dicas de empregos não-acadêmicos para doutores e me vejo no dever de compartilhar algumas delas:

Analista de Pesquisa de Mercado: Espera-se que os analistas de pesquisa de mercado obtenham um entendimento completo do cenário comercial associado a uma tecnologia ou setor específico. A capacidade de um doutor em analisar grandes quantidades de informações e identificar vantagens comparativas entre duas tecnologias é muito valiosa para esse papel.

Gerente de Desenvolvimento de Negócios: o nome dessa função pode sugerir que é apenas para profissionais com um diploma de negócios. Atualmente, porém, os doutores em ciências estão sendo cada vez mais contratados. Isso ocorre porque muitos doutores se destacam na compreensão de tecnologias complexas, que são cruciais para setores de base tecnológica, como biotecnologia, software, eletrônicos de consumo e produtos farmacêuticos.

Analista Quantitativo: PhD em ciências com formação em disciplinas relacionadas a análise quantitativa, como Matemática, Estatística, Física, Engenharia e Ciência da Computação, são altamente procurados por essas posições. No entanto, muitos PhDs em Ciências da Vida também estão sendo contratados e isso ocorre devido ao aumento do comércio financeiro na indústria de biotecnologia.

Analista em Comunicação Médica: suas responsabilidades incluem materiais de redação e edição que as organizações de saúde usarão para se comunicar com pacientes, clientes e profissionais médicos.

Então, a coluna de hoje é dedicada a vocês, futuros doutores, doutores e pós-doutores: somos capazes de quebrar essas manchetes se acreditarmos em nosso potencial, se ativarmos nossa criatividade, se nos embasarmos em nossa persistência e compreendermos o poder de nossas conexões. Vamos iniciar esse movimento? #trabalhodedoutor
 
Fontes:
https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2019/03/10/internas_economia,1036705/desemprego-entre-mestres-e-doutores-no-brasil-chega-a-25.shtml
Sarah Anderson. Make science PhDs more than just a training path for academia. Nature, 2019.
https://cheekyscientist.com/top-10-list-of-alternative-careers-for-phd-science-graduates/


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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