17/07/2019 às 07h45min - Atualizada em 17/07/2019 às 07h45min

O outro lado

ANA MARIA COELHO CARVALHO

Gosto muito deste provérbio: “chorei porque não tinha sapatos, mas consolei-me vendo um homem que não tinha pés e sorria”. Mostra a importância de sermos gratos pelo que somos e temos. E, também, de sermos otimistas, o que nem sempre é fácil, pois muitas vezes não vemos o lado bom nas situações do dia a dia.

Por exemplo, tenho um filho que, quando adolescente, tinha aulas às sete da manhã. Ninguém imagina a novela que era para acordá-lo. Eu chamava, sacudia, gemia, implorava, ameaçava, beijava a medalha da Nossa Senhora Milagrosa e nada (gostaria de ter um guindaste para levantá-lo). O processo se repetia durante os 200 dias letivos, uma luta. Mas certa vez a minha norinha viajou e o neto, na época com seis anos, ficou comigo e eu deveria levá-lo à escola, também às sete horas. Chamei-o com carinho e ele acordou (pensei: este é fácil). Mas acordou enfezado. Não ia com aquela meia de jeito nenhum. Arrumei outra. Não queria ir ao banheiro nem vestir a calça do uniforme. Consegui convencê-lo. Não queria sucrilhos com Toddy, tinha que ser com Nescau. Depois de muita conversa, como não tinha Nescau, resolveu. Mas decidiu ele mesmo esquentar o leite no microondas. Ficou quente demais, derreteu os sucrilhos, e ele, bem bravo, abandonou o lanche. Quando por fim entramos no carro, com ele arrastando a pastinha que pesava alguns quilos, viu que tinha esquecido a blusa de frio (eu a tinha entregue em suas mãos). Abriu a porta, arrastou a pastinha de volta, subiu as escadas, sentou na sala e, emburrado, disse que não ia mais. Busquei a blusa e usei mil argumentações para convencê-lo. Chegamos na escola faltando um minuto. Quando pensei que ele ia descer do carro, disse que com aquele cabelo não ia. Argumentei que era o cabelo que ele tinha, não era possível mudar. Mostrou então um tufo de cabelos empinados, sobressaindo no meio do seu lindo cabelo lisinho. Arrumei uma escova, ele escovou, escovou e nada. Busquei água, molhamos o cabelo, ele escovou até ficar tipo boi lambido. Desceu do carro, mas quando subia a rampa, puxando a pastinha, viu que não tinha amarrado o tênis (só ele podia amarrar). Parou, ficou ali longos minutos amarrando, eu olhando de longe e o tempo correndo. Quando finalmente chegou na porta de entrada, o porteiro já a tinha fechado. Começou a sapatear de desespero, lágrimas saíram de seus olhinhos. O porteiro viu, abriu a porta, ele enxugou as lágrimas e aleluia, entrou na escola!

Não pude deixar de me lembrar da história do bode, que é mais ou menos assim. Em uma casa pequena e sem conforto, morava uma grande família: pai, mãe, irmãos, sogra, avós, cachorro, gatos. Todos amontoados e com mil conflitos. Um dia, o pai, desesperado, foi pedir ajuda ao padre da cidade. Este o aconselhou a colocar um bode grande e fedorento dentro da casa. Sem entender nada, o pai assim o fez. O bode aprontou: chifrava, comia tudo o que via, deitava na sala, defecava nos quartos. O pai, mais desesperado ainda, procurou o padre novamente. Esse então disse: ”agora tira o bode da sua casa”. Pronto. Felicidade total.

Assim, relacionando filho, neto e bode, concluí que meu filho dava muito trabalho para acordar e sair da cama, mas depois de cinco minutos estava prontinho, sem criar caso. Encontrei o lado bom.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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