13/07/2019 às 08h00min - Atualizada em 13/07/2019 às 08h00min

Depressão Infantil: um mal ignorado pelos adultos

TÚLIO MENDHES

 

Um astronauta acaba de se deparar com a imensidão do espaço. Por algum motivo, suas amarras de proteção são desfeitas e ele não vê alternativas para voltar à nave, menos ainda para voltar a Terra. Ele agora está à deriva na imensidão do espaço. O quão desesperador isso lhe parece? Bom, essa metáfora foi usada pelo Dr. Douglas Riley, um psicólogo americano que definiu a sensação depressiva de uma criança. No livro “Criança Deprimida: um Guia para Pais Resgatarem os Filhos”, ele deixa claro que os pensamentos negativos como “eu sou inferior”, “ninguém gosta de mim” ou “se eu morrer ninguém vai sentir minha falta ” não são restritos aos adultos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até 2020 a depressão se tornará a doença mais incapacitante no mundo. Para mudar esse quadro, uma das medidas é tirar a depressão infantil da invisibilidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já revelou que o transtorno depressivo é a principal causa de incapacidade de realização das tarefas do dia a dia entre crianças e jovens de 10 a 19 anos.

Por que a depressão em crianças e adolescentes tem aumentado consideravelmente? Pra começar, o desenvolvimento da depressão em uma criança geralmente envolve dois pontos: pré-disposição genética e problemas no entorno social e familiar como brigas entre os pais, dificuldades escolares, bullying, a perda de um parente próximo ou até mesmo de animalzinho de estimação, etc. Temos ainda como estimulante pra esse triste diagnóstico o estilo de vida que impostas a elas. Nossos pequenos estão com a agenda mais lotada de compromissos do que as nossas. Isso tem provocado distúrbios do sono fazendo com que durmam cada vez mais tarde, além do uso excessivo de aparelhos eletrônicos, a permanência em ambientes fechados como shoppings e até mesmo a indisciplinada e isolada frequência dentro de seus próprios quartos sob-risco iminente de restrição do contato social.

Os sintomas na depressão infantil mudam conforme a evolução da idade. As crianças de zero a dois anos podem apresentar recusa de alimentos, desenvolvimento tardio, alterações no desenvolvimento psicomotor e na linguagem, problemas de sono e enfermidades somáticas. Já crianças em idade pré-escolar podem manifestar comportamento regressivo, principalmente no aspecto psicomotor, linguagem e distúrbios intestinais. Em suma, os sintomas são: humor deprimido na maior parte do dia, falta de interesse nas atividades diárias, alteração de sono e apetite, falta de energia, alteração na atividade motora, sentimento de inutilidade, dificuldade para se concentrar. Quando os pais começam a ligar muito para o pediatra, ou irem várias vezes ao pronto-socorro, é um sinal de alerta para a depressão.

Mas é importante ressaltar que os sintomas nem sempre são aparentes, pois crianças tendem a ter mais dificuldade de falar sobre o que sentem o que torna mais difícil o diagnóstico precoce. A partir dos 12 anos as crianças conseguem descrever melhor seus sentimentos, e é fundamental não ignorá-los. O Hospital das Clínicas de São Paulo aponta que cerca de 2% das crianças em idade pré-escolar e escolar sofrem de depressão. Esse número sobe para 11,7% quando elas passam para a puberdade. Para isso, pais, professores e pessoas próximas devem sempre observar e acompanhar as crianças. Diagnosticada a evolução da doença, deve-se avaliar o quanto ela está interferindo no desenvolvimento e socialização da criança. Nos casos de grau leve, o tratamento é focado em terapias e atividade física, nos casos de depressão moderada ou grave, o tratamento pode incluir o uso de medicamentos.

Lembrando que, identificados os possíveis sintomas de depressão na infância, os responsáveis devem procurar um psiquiatra infantil, que poderá definir o diagnóstico com precisão após descartar outras condições clínicas capazes de provocar sinais semelhantes. É inegável a importância de se discutir sobre esse polêmico tema, então eu te espero no próximo sábado! Até lá.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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