28/05/2019 às 08h45min - Atualizada em 28/05/2019 às 08h45min

A primeira escola de samba

ANTÔNIO PEREIRA
O primeiro grupo carnavalesco organizado que saiu pela avenida no Carnaval foi o Bloco da Sociedade Carnavalesca Negra, cuja sede ficava numa esquina da avenida Afonso Pena. Saiu sob a forma de rancho, no Carnaval de 1935. Os grupos carnavalescos costumavam alugar salas e salões próximos do lugar da brincadeira de rua, pelo menos para os dias da folia. Desavenças internas racharam o grupo e, no ano seguinte saíram os Turunas, com elementos residentes na região da rua da Chapada (avenida Rio Branco), comandados pelo Bené, e os Tenentes Negros, formados por frequentadores do Cabarropa, comandados pelo Devanir Santos, o Dengo, que trabalhava na máquina de arroz do Alexandrino Garcia, nos fundos da praça da Independência (Clarimundo Carneiro),  onde, depois, foi a sede do Correio de Uberlândia. Estava lançada a semente das futuras Escolas de Samba.

Esses grupos, que tinham estrutura de rancho, duraram aproximadamente uma década. Há notícias deles na imprensa até 1945. O Cabarropa era uma casa de danças famosa. Durou algumas décadas. Ficava na Vila Oswaldo e tinha música ao vivo. Entre outros, tocavam no conjunto o Dengo (dos Tenentes Negros) e o Arlindo Oliveira Filho, o Lotinho, que também era cantor e pertencia ao “cast” da Rádio Difusora. “Cabarropa” era uma corruptela da expressão “acaba a roupa” porque o seu piso não tinha acabamento e os tijolos esfregados pelos sapatos soltavam um pó vermelho que se agarrava à roupa dos dançarinos. Como a roupa da moda na época era o terno de linho branco S 120, imagine-se como saiam os dançarinos ao fim do baile. Era uma boate de negros, gente simples, mas que recebia a visita de políticos importantes, como Tubal Vilela da Silva, Afrânio Rodrigues da Cunha e outros. O pitoresco é que, quando o “Lotinho” dava um intervalo para refrescar a garganta com um gole, o hoje cantor de rádio, TV e discos, Moacir Franco, pedia para dar uma canjazinha... e deixavam.

Um dia, alguém sugeriu ao Lotinho que formasse uma Escola de Samba e ele topou a ideia. Reuniu alguns remanescentes dos Tenentes Negros, alguns membros da sua família, amigos do Fundinho, da rua da Chapada e do Patrimônio, frequentadores do “Cabarropa”, e criou a primeira Escola de Samba de Uberlândia e que deve ser uma das primeiras do Brasil Central, senão a primeira. O nome Tabajara foi tomado da grande Orquestra de Severino Araújo que andava no auge do sucesso. Lotinho arregimentou uns trinta figurantes. A bateria era uma insignificância, mas ainda assim, a Escola saiu. Era 1954. Cantavam sambas carnavalescos gravados pelos grandes cantores da época, Francisco Alves, Orlando Silva e outros. Saiu mais uma vez sozinha em, 1955.

Quando foi em 1956, sob o patrocínio da Rádio Educadora, cujo diretor era Moacir Lopes de Carvalho, foi feito o primeiro Concurso de Escolas de Samba. Desfilaram a Tabajara, a Aymorés (dirigida pelo Antônio de Mello - que ficou em segundo lugar), a Pavão Dourado/Zanzibar (dirigida pelo Eugênio Silva - que ficou em terceiro lugar) e a Coqueiro (dirigida pelo José Vicente - que ficou em quarto lugar). A vencedora foi a Tabajara.

O curioso desse Carnaval das primeiras Escolas de Samba é que não havia Enredo, elas cantavam os sambas tocados nas emissoras de rádio e já incluíam os famigerados passos de balé - certamente os precursores da “Ala dos Snobs” das atuais Escolas. A Tabajara desfilou em várias cidades goianas e triangulinas, convidadas pelos organizadores de seus Carnavais para estimular a formação de Escolas locais.

O Carnaval de rua foi oficializado pelo prefeito Tubal Vilela da Silva e o concurso das Escolas de Samba foi tornado oficial em 1957 pelo prefeito Afrânio Rodrigues da Cunha.

A vencedora do primeiro Concurso Oficial foi, de novo, a Tabajara.
 
(Fontes: Lotinho e jornais da época)


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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