26/05/2019 às 10h30min - Atualizada em 26/05/2019 às 10h30min

Bença, tia!

ALEXANDRE HENRY
No meio da correria do trabalho, o primeiro minuto de conversa entregou o que o bandido precisava ouvir para puxar o fio do novelo. Além disso, eu me concentrei tanto em tentar entender por que meu primo Ubirajara estava pedindo aquilo, justo para mim, parente distante, que não me dei conta de que não era ele”
 
Na última quarta-feira, eu estava trabalhando quando meu telefone tocou. Era um número desconhecido, DDD 062. “Ô, meu caro! Tudo bem por aí? Sabe quem está falando?”. A voz era do Ubirajara, primo distante pelo lado materno. “Bira! E aí, como você está?” – perguntei. Ele me disse então que estava indo de Goiânia para visitar a família de surpresa, mas que a camionete tinha dado problema em Itumbiara e ele estava esperando uma peça que não chegava nunca. Pediu então para eu ligar na oficina em Monte Alegre para ver quando chegaria. Eu detesto telefone, sempre preferi mensagem, mas como não ajudar meu primo? Liguei lá e o rapaz da oficina me falou que a peça já estava chegando, junto com a máquina de cartão de crédito.

O Bira me ligou pouco depois e disse que o rapaz já tinha chegado lá. Agradeceu a ajuda. Cinco minutos depois, ele me ligou novamente e disse que seu cartão estava com problemas e que ele não estava conseguindo acessar o banco via celular, para fazer a transferência. Pediu então para eu transferir os R$ 2.800,00 do conserto, que depois ele me pagaria. Respondi que não tinha jeito, pois tinha gastado meu limite diário de transferência bancária. Ele me perguntou se não tinha nenhum amigo que poderia fazer isso, pois ele realmente estava em uma situação complicada, no meio da viagem. Não, eu não tinha e também nunca pediria aquilo. Ele agradeceu, mas voltou a ligar alguns minutos depois. Perguntou se eu não poderia colocar crédito no celular dele para que ele tentasse acessar o banco pela internet. Eu não poderia deixar de dar essa ajuda ao Bira. Ele me perguntou se daria para ser de 50 reais, já que o plano dele era de R$ 47,50 e ficaria mais fácil arredondar. Achei estranho e pensei: “Bom, se ele não me pagar, esse valor não fará diferença”. Coloquei.

No dia seguinte, o meu telefone tocou às 7h22 da manhã. Era ele. Não atendi. Até o meio da manhã, foram mais oito ligações, até que mandei uma mensagem de texto perguntando o que havia acontecido. Ele me contou que não conseguira pagar tudo e que faltavam R$ 800,00. Eu disse que não tinha. Ele me pediu então R$ 50,00. Minha ficha, por incrível que pareça, só começou a cair naquela hora. Neguei. Disse a ele que, se nem os parentes mais próximos que eu podiam ajudá-lo, é porque tinham motivos para isso. Ele insistiu. A ficha caiu de vez. No dia anterior, tínhamos falado só por voz. Por mensagens, vi o tanto de erros de português. O Bira escrevia bem. Não era ele.

Eu caí, ainda que parcialmente, no golpe “Bença, tia”. Acostumado a lidar na Justiça Federal com outro nível de bandidagem, com tráfico internacional, contrabando e coisas do gênero, deixei de ter ao menos 1% do cuidado que tenho ao julgar meus processos e, em consequência, não vi logo de cara que aquele era um golpe barato. Vamos lá: a) ele não me falou o nome dele e me fez contar o nome de um parente; b) o número era desconhecido; c) se ele não tinha crédito para falar em Monte Alegre, como estava me ligando?; d) se somos parentes muito distantes, por que ele não pediu socorro para pessoas mais próximas?; e) como alguém que eu sabia ter uma situação financeira razoável não tinha nem dinheiro para colocar crédito no celular?

Isso aconteceu comigo, que trabalho julgando malandros. No meio da correria do trabalho, o primeiro minuto de conversa entregou o que o bandido precisava ouvir para puxar o fio do novelo. Além disso, eu me concentrei tanto em tentar entender por que meu primo Ubirajara estava pedindo aquilo, justo para mim, parente distante, que não me dei conta de que não era ele. Claro, foi um prejuízo pequeno. Se eu tivesse me disponibilizado para emprestar o dinheiro, certamente eu perceberia que era um golpe, dado o cuidado com que tenho com transações bancárias. Depois do ocorrido, senti-me envergonhado por ter caído nessa esparrela, ainda que bem de leve e sem maiores consequências. Isso não me impediu, porém, de contar para outras pessoas sobre o que aconteceu, além de escrever este texto, pois é preciso alertar todo mundo. Sempre tive muito cuidado e já afastei mais de uma vez o velho golpe do sequestro. Esse de agora só me fez reforçar a convicção de que é preciso atenção redobrada, sempre. Como? Ficando esperto com números desconhecidos, não entregando nenhuma informação (nem um simples nome), testando a outra pessoa quando houver alguma dúvida etc. A malandragem está só esperando um cochilo seu. Eu não cochilei, mas pisquei. Uma piscada de R$ 50,00.

*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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