19/05/2019 às 09h00min - Atualizada em 19/05/2019 às 09h00min

Por que é essencial o Brasil FAZER e COMUNICAR ciência?

ANGELA SENA PRIULI
Essa semana eu estava cheia de ideias e temas sobre saúde aqui, mas diante dos fatos, e considerando que eu passei mais de 15 anos nas bancadas de laboratórios de universidades públicas fazendo ciência, resolvi também falar sobre cortes e como isso impacta em nossas vidas.

Eu tinha o sonho (e a certeza) de que um dia minhas pequenas descobertas, junto aos meus grupos de pesquisa, iriam fazer diferença na vida dos brasileiros. Então, gostaria de ceder aqui o espaço para dar voz a alunos de graduação, para que testemunhem o que aprenderam sobre fazer e comunicar ciência:

"Eu me chamo Victória Riquena Grosche, sou estudante Biomedicina da Universidade Federal de Uberlândia, um curso que é praticamente todo voltado para a área de pesquisa em saúde e vida acadêmica. Faço parte do Laboratório de Virologia da UFU. Na minha linha de pesquisa, nós trabalhamos com amostras de pacientes com Hepatite C. A maior parte deles fez o tratamento específico, porém alguns apresentaram resistência aos medicamentos, e isso se deve a algumas mutações no material genético dos vírus. Eu busco, nos meus experimentos, encontrar quais são essas mutações específicas e outros pontos que ajudam tanto a melhorar a escolha da combinação dos medicamentos, quanto a criação de novos antivirais em outras moléculas-alvo, por exemplo. Eu, como muitos estudantes, tenho medo do panorama do desenvolvimento científico brasileiro a partir deste ano.

“Para nós, futuros biomédicos e aqueles que querem seguir a carreira de “cientista”, a Pós-Graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) não é facultativo, é, ou deveria ser, uma realidade. Nós a encaramos como um primeiro emprego importantíssimo, pois, além do aprimoramento pessoal, o nosso trabalho colabora para a evolução da pesquisa nacional e internacionalmente. O corte de verbas das agências brasileiras de fomento científico não deveria nem ser considerado uma medida provisória; isso não é avanço, é retrocesso! A EDUCAÇÃO é LIBERTADORA! Não devemos ignorar esse fato. O desenvolvimento do nosso país depende das pesquisas científicas em TODAS AS ÁREAS!"

"Sou Camila Romão, tenho 22 anos, sou graduanda de Jornalismo na UFU e faço pesquisa em Comunicação Pública da Ciência. Conheci a pesquisa no terceiro semestre do curso de Jornalismo. Antes disso a ciência, era uma realidade tão distante, que sequer sabia exatamente do que se tratava e de como "fazer ciência". Por acasos do destino, cai de paraquedas justamente em uma pesquisa sobre Comunicação Pública da Ciência. 

“Como não estou aqui para delimitar conceitos, o que posso afirmar sobre minha pesquisa (e experiência pessoal) é: se falar de ciência já é complicado devido à complexidade dos termos e conhecimentos demandados, fazer com que as pessoas entendam, se interessem e, principalmente, interajam e vejam a ciência como algo palpável, é raríssimo e fundamental ao mesmo tempo. Por isso, após um longo do amadurecimento intelectual, que só quem vive os 4 (5 ou 6) anos da graduação conhece, afirmo: se não fosse a universidade pública, a Camila que escreve hoje sobre ciência não existiria. Digo isso com convicção, já que uma grande amiga, que também se formou jornalista, porém em uma universidade privada (que era minha segunda opção, diga-se de passagem) não teve o privilégio de vivenciar a pesquisa. 

“Tal constatação não resume uma experiência pessoal, mas também uma realidade nacional: a ciência ainda é um privilégio para poucos. Mas minha pesquisa me ensinou a questionar o que podemos fazer para que o conhecimento científico não fique restrito a uma ‘elite intelectual’.  Por isso, hoje eu não só desejo que todos os estudantes tenham o privilégio que eu tive de, pelo menos, se questionar como a ciência cabe em suas vidas, que o ENGAJAMENTO com a ciência não seja apenas um sonho distante de um modelo teórico, mas também trabalho para isso, dentro do que o jornalismo me permite."

Após esses depoimentos, te faço uma pergunta: ainda há algum espaço para dúvidas do papel essencial que a educação e, principalmente, as pesquisas nas universidades públicas exercem em nosso Brasil brasileiro?
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