15/05/2019 às 08h14min - Atualizada em 15/05/2019 às 08h14min

Casamento na praia – Parte II

ANA MARIA COELHO CARVALHO
Conforme prometi, escrevo a sequência do casamento da minha filha. Fomos, uma turma grande, de avião até Ilhéus. Fizemos escala no aeroporto de Confins, em BH, onde existia uma grande placa com os dizeres: ”Minas Gerais. Não dá para explicar. Tem que viver”. Assim foi o casamento. Difícil de explicar, de descrever. Tem que sentir e viver.

Depois do voo, a travessia na balsa de Itacaré e a estrada de terra sacolejante e esburacada. A chegada em Algodões, na casa bonita, com varandas e redes, cobertura de piaçava, janelas enormes com cortinas indianas coloridas (foi construída pela filha, com garra e recursos próprios). A vista para o mar entre mil coqueiros. Pizzas no forno de barro, camarão na água de coco.

No dia do casamento, o almoço para a grande família do noivo. Apareceu gente de todo lado e de toda idade. Os caldeirões de feijoada evaporaram e os pratos pareciam montanhas de comida (eles são magros mas comem bem). Depois, o batizado do noivo e às 16h30, o casamento, em uma capelinha na praia. Minúscula, singela, construída com pedras, sem portas e sem janelas. Com quadros de Nossa Senhora e uma grande cruz de madeira, enfeitada de flores vermelhas.

Com o sol se pondo, a noiva desceu a pequena ponte sobre o rio, de mãos dadas com o pai, e caminhou pela areia ao som da Ave Maria. Linda e radiante, com uma coroa de flores naturais na cabeça. Na frente, as duas daminhas, sobrinhas do noivo, que vieram das casinhas de pau-a-pique e que, até aquele dia, nunca haviam participado de um casamento ou tirado uma foto. Encantadas e amedrontadas. Atrás, a cachorrinha yorkshire, companheira inseparável da minha filha, acompanhava o cortejo.

O pai entregou direitinho a filha ao noivo. O padre falou bonito, enfocando que, no casamento com amor, todas as dificuldades são superadas. A noiva transbordava felicidade, mas chorou emocionada quando repetiu “te prometo ser fiel na alegria e na tristeza.” O noivo gaguejou na hora de prometer fidelidade, mas prometeu. Os convidados, todos do lado de fora da capelinha, jogaram arroz nos noivos. O sino da capelinha repicou e os noivos se beijaram. Ao som da música “Eu sei que vou te amar”, assinaram o livro. Tudo muito simples e encantador.

As fotos com o mar ao fundo, as palmeiras balançando e o sol poente. Pessoas que nunca tiraram uma foto e pessoas com filmadoras de última geração. Algumas descalças por não terem sapato, outras por acharem fashion estarem descalças em um casamento. Algumas que chegaram em avião particular e outras que vieram de longe, a pé. Umas muito brancas, como o francês com o cabelo de um metro de comprimento, enrolado em um turbante tipo abajur. Outros bem morenos e exóticos, como o Bob, também com cabelo de um metro. Acompanhava uma francesa maravilhosa e muito loura, com dois filhos. O marido viajou para a França e pediu ao Bob para tomar conta da esposa. O Bob tomou conta mesmo, casou com ela. Havia também argentinos e espanhóis, todos em harmonia com os quilombolas, em um casamento “sui generis”.

Depois, a caminhada pela praia até a pousada onde foi servido o jantar. Salada de bacalhau, catado de siri, moqueca de peixe e cocada. Quando a lua nasceu majestosa e iluminando o mar, a noiva foi para a praia e jogou o buquê. Acenderam uma fogueira. Olhando as labaredas, fiquei pensando no meu dilema. Tenho dois genros: um americano, que já trabalhou para o governo americano e vive na capital da Califórnia. O outro, que até a época do casamento, vivia no meio da floresta, em uma cabaninha suspensa de madeira. Para ter um diálogo decente com eles, precisaria aprimorar meu inglês e aprender o linguajar dos quilombolas. São os contrastes da vida.
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