21/04/2019 às 07h00min - Atualizada em 21/04/2019 às 07h00min

Fogaréu

WILLIAM H STUTZ
A cidade às escuras.  Orvalho misturado ao cheiro característico das casas em estranho adormecer. O tempo quase parado se fazia saber pelos relógios de colunas. Quase todos os tinham. Pêndulos em cadência soturna lembravam a todos a ligeireza dos segundos, da própria existência. Quando de horas cheias, o bater de tantas máquinas do tempo pareciam uma grande orquestra desafinada. As badaladas contadas sim, estas eram as mesmas, mas os sons produzidos por variadas caixas de madeiras, com espessuras desiguais, conferiam a eles músicas diferentes. Ao final, um ou outro em atraso repicava até o retorno do vazio completo.

Um cão desce a rua em disparada, rompe a neblina deixando redemoinhos de névoa no seu correr, geme baixinho. Medo. A mesma cerração parecia intransponível, uma parede. Estranhamente não fazia frio, nem calor. Talvez não o sentisse mas, quem em pé ali ficasse, sentiria pequena gota de suor a lhe romper na testa. Arrepio.

As ruas de pedras irregulares pareciam brilhar como a mais pura prata das minas do cerro de Potosí, por nome “Descoberta”, em um longe Alto Peru. E estamos pisando solo do Ouro. Do meio do nada fantasmagoricamente, luzes amarelas se põem a dançar perturbando a névoa, abrindo caminho. Atenção redobrada. Em mistério a neblina se desfaz, dando lugar a sombras gigantescas e trêmulas a se projetarem das eiras ao chão. Inicialmente formam triângulos gigantes, aos poucos tornam-se menores e corpos podem ser notados no bailado dos espectros.

Sons de passos, matracas e bastões. Gemidos e correntes. Vultos com capuzes em cone, apenas olhos à mostra, túnicas a esconder rostos e corpos. A passagem do cortejo é iluminada apenas pelos archotes que carregam. A missão destes soldados é árdua e será lembrada eternamente. O som de seis bastões e matracas ecoarão por toda Vila Rica, nossa Ouro Preto de tantas histórias.

A madrugada de Quinta-feira Santa garante muitas surpresas. Após um século sem acontecer teremos a honra de participar do retorno de tão bela tradição católica. A Procissão do Fogaréu. Sumida, pouco se sabe os motivos. Versões são muitas. Reaparece agora com todo seu brilho e fé. Saindo da Igreja São Francisco de Assis, onde antes acontece a cerimônia de Lava-pés, rumo à Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões, para de lá conduzir a imagem de Nosso Senhor dos Passos até a Basílica do Pilar. Procissão do Fogaréu simboliza a prisão de Jesus.

O Voz Ativa, capitaneado pelo incansável Tino ainda nos conta: “Outro momento do resgate histórico será na terça-feira (16), após a missa das 19h, na Basílica do Pilar, quando os católicos acompanharão a Procissão da Soledade de Nossa Senhora, conduzindo a imagem de Nossa Senhora das Dores e revivendo a tradição de percorrer os Passos da Paixão até a Igreja São Francisco de Assis. Nessa procissão, a imagem de Nossa Senhora das Dores vai revendo os passos do sofrimento de Jesus, além disso, os botetos, trechos bíblicos que relembram a dor de Maria na volta para sua casa, sem a companhia de Jesus, também serão resgatados”.

Se me sinto um privilegiado? Claro que sim. Poucos poderão acompanhar tamanho resgate. Muitos por medo de desastres improváveis em Ouro Preto. A Vale assassina não vale nada. Outros, por desinformação ou desejo. Há Vales que nunca vem para o bem. E não haverá Vale que sempre dure.

Lembranças para ficar.  Histórias a contar.

Bom Domingo de Páscoa. Cada um de nós carrega seu próprio calvário. Saiba, pois, sempre haverá esperança de um renascer diário. Comemore.
 
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