22/02/2019 às 18h09min - Atualizada em 22/02/2019 às 18h09min

O equilíbrio

ALEXANDRE HENRY
“As vidas mais ricas e completas tentam alcançar um equilíbrio interno entre três esferas: trabalho, amor e diversão. E perseguir apenas uma dessas áreas a custo de outra é abrir a si mesmo para a melancolia quando estiver mais velho. Enquanto que perseguir as três com a mesma dedicação é fazer possível uma vida cheia não apenas de conquistas, mas de serenidade”.

A frase acima é do psicólogo Erik Erikson e foi citada em uma palestra que recomendo: “Lições dos presidentes do passado”, ministrada por Doris Kearns Goodwin (procure a palestra em www.ted.com pelo título em inglês “Lessons from past presidents”).

Como eu cheguei a uma fase da vida em que ainda tenho muito tempo pela frente, mas não tanto tempo como eu tinha tempos atrás, esse tema da felicidade tem sido um alvo constante das minhas leituras e, claro, dos textos aqui. A palestra de Doris Goodwin caiu, pois, como uma luva, até porque ela fala muito do ex-presidente americano Abraham Lincoln, a quem admiro bastante.
Sinceramente, a frase do psicólogo que citei no começo do texto é meio óbvia. Se você tiver sucesso no trabalho em detrimento do amor ou da diversão, não se sentirá uma pessoa completa. Esse, aliás, é o caminho mais seguro para chegar a uma velhice com a sensação de que faltou alguma coisa para a vida ter um verdadeiro sentido.

Já se você se dedicar apenas ao amor e aos prazeres da vida, provavelmente se sentirá também um pouco vazio, embora em outro sentido, como se você tivesse vivido décadas sem ter contribuído para a construção de uma sociedade melhor. Tem até gente que se concentra apenas na última esfera, ou seja, na diversão, mas aí a vida costuma ser curta ou desandar para um ponto em que alcançar a diversão vai se tornar algo quase impossível (e nem preciso explicar as razões).

O problema, então, a gente já conhece. É preciso balancear as três esferas para que a vida seja cheia de conquistas e de serenidade, chegando-se ao pôr-do-sol com a sensação de que valeu a pena ter passado por este mundo. Mas, como fazer isso? Fico pensando no desenrolar da minha existência até agora e me parece aquela velha piada: primeiro, você tem tempo e energia, mas não tem dinheiro; depois, você tem energia e dinheiro, mas não tem tempo; por fim, você tem tempo e dinheiro, mas não tem energia. Vou pegar o melhor exemplo que tenho para refletir sobre o assunto, ou seja, eu mesmo. Trabalho muito, pois atuo na Justiça e também sou professor. Chego a trabalhar quatorze horas, conforme o dia da semana. Nesse ponto, perfeito: sinto-me realizado profissionalmente.

Consciente de que isso não basta, cortei muita coisa para ter tempo para curtir a esposa e a filha, embora ainda esteja longe de ficar com elas o quanto eu gostaria. Mas, de certa maneira, não está tão mal. Aí, olho para a bicicleta parada em casa, esperando-me para me levar para a terceira esfera, a da diversão, e não consigo achar um tempinho sequer para isso. Pronto: a balança não está equilibrada. Trabalhar menos? Talvez. Mas, como fazer isso sem prejudicar a satisfação profissional?

É difícil, muito difícil. Aliás, nem sei por que eu comecei a escrever este texto, já que cheguei aqui, faltam muitos caracteres para terminá-lo e eu simplesmente não consigo vislumbrar uma conclusão decente, que dê uma solução tanto para este texto quanto para a minha própria vida.

Pensando bem, talvez exista ao menos um caminho. Já falei sobre ele aqui. Em que estou gastando tempo de forma desnecessária, isso no sentido desse gasto de tempo não me trazer nada de positivo em relação ao trabalho, ao amor e à diversão? Nas redes sociais! É, voltamos a elas... Quantos textos já não escrevi aqui sobre tempo gasto em Facebook, Instagram, WhatsApp etc. etc. etc.? Perdi a conta.

Depois de tanto escrever sobre isso, depois do Facebook me lembrar no final do ano postagens que eu fiz ao longo de quase uma década dizendo que precisava usar menos o próprio Facebook, eu consegui diminuir um pouco essa parte. Deletei do celular o dito cujo, bem como o tal do Instagram. Sim, até certo ponto, eles poderiam me trazer diversão. Mas, convenhamos: que diversão pobre, não?

Com a exclusão dessas redes sociais, já ganhei um pouco mais de tempo na minha vida. Ainda falta, porém, descobrir outros caminhos para que eu equilibre as tais três esferas. Por enquanto, não sei a resposta, o que vai deixar tanto o meu problema quanto este texto sem conclusão. Paciência. Quando eu descobrir uma solução, escrevo outro texto que tenha uma conclusão mais decente.
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