04/02/2019 às 09h15min - Atualizada em 04/02/2019 às 09h15min

Ferro que faz viver, ferro que faz morrer

ANGELA SENA PRIULI
Na última semana, a coluna CiênciaPop, ironicamente, trouxe o tema "boas notícias". O fato é que o artigo foi escrito durante a semana, antes da "avalanche" de Brumadinho. De toda forma, precisamos de alguma boa notícia. Tudo pelo ferro! Pela propriedade de ser transformado em estruturas e dividendos no mundo moderno e em um componente essencial para a vida no mundinho particular de nossas células animais.

Aqui e aí dentro, o ferro é responsável pelo transporte de oxigênio nos glóbulos vermelhos, pela ativação de enzimas envolvidas na produção de DNA e participa da produção de energia na célula. O ferro não pode estar presente no sangue na forma livre, pois ele catalisa a formação dos famosos vilões conhecidos como radicais livres. Por isso, o ferro tem um "uber" particular, a glicoproteína transferrina, que é sintetizada pelo fígado, que o leva para todos os locais que é necessário, como por exemplo, para a medula óssea, onde se ligará à hemoglobina de novos glóbulos vermelhos, células produzidas diariamente para levar O2 para todo nosso corpitcho.

A falta de ferro prejudica a transferência de oxigênio por todo o corpo, a divisão celular e a produção de energia, mas o excesso de ferro "livre", ou seja, ferro que não está ligado a nenhuma proteína, pode desencadear estresse oxidativo que pode ser tóxico para o organismo. Portanto, tanto a deficiência de ferro como a sobrecarga podem levar ao estresse celular, que medeia doenças inflamatórias, câncer e doenças neurodegenerativas, como Parkinson.

- Ferro para assegurar a vida
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a anemia é a condição na qual o número de glóbulos vermelhos do sangue e a sua capacidade de transporte de oxigênio são insuficientes para atender às necessidades fisiológicas, que variam de acordo com idade, sexo, altura, fumo e gravidez. Em mulheres grávidas ocorre principalmente a anemia por deficiência de ferro, devido à dieta não equilibrada para "dois corpos em um só", podendo levar ao comprometimento do desempenho físico e mental, pré-eclâmpsia e alterações cardiovasculares, diminuição da função imunológica, alterações da função da tireoide, queda de cabelos e enfraquecimento das unhas e até mesmo no nascimento prematuro do bebê ou óbito intrauterino.

Um estudo foi realizado para avaliar a eficácia e segurança da lactoferrina em comparação com o sulfato ferroso para o tratamento da anemia ferropriva durante a gravidez. A pesquisa mostrou que a lactoferrina foi mais eficaz do que o sulfato ferroso durante um período de dois meses nessas mulheres grávidas com essa anemia, com menos eventos adversos gastrointestinais e melhor aceitação do tratamento. Bora confirmar essa info com o médico do pré-natal!

- Ferro que leva à morte das redes neurais
Há muito se sabe que o excesso de ferro é encontrado nos cérebros de pacientes com doença de Parkinson, mas o mecanismo pelo qual o ferro provoca danos nos neurônios não está claro. Uma pesquisa realizada no Buck Institute (EUA) sugere que o dano decorre de uma deficiência no lisossomo, um elemento de nossas células que atua como um "centro de reciclagem" para proteínas danificadas. Os cientistas relatam que a deficiência permite que o excesso de ferro livre, não ligado à proteína, escape para os neurônios, causando estresse oxidativo, que é tóxico. Nesse caso, é importante trabalhar bem a dieta das pessoas com Parkinson, controlando especialmente a ingestão de determinados alimentos como a carne vermelha, que possui grande quantidade de ferro, mas é importante consultar um profissional para organizar a alimentação.

Nem o bem, nem o mal! Como tenho terminado os artigos: para ter vida precisamos de equilíbrio, seja nos interesses do capitalismo selvagem, seja em nossa dieta de cada dia. Luto e luta.



Fontes:
Ahmed et al. Efficacy of ferrous bis-glycinate versus ferrous glycine sulfate in the treatment of iron deficiency anemia with pregnancy: a randomized double-blind clinical trial. The Journal of Maternal-Fetal & Neonatal Medicine, 2018; 1-7.
Truman-Rosentsvit et al. Ferritin is secreted via 2 distinct nonclassical vesicular pathways. Blood, 2018; 131 (3): 342.
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