04/02/2019 às 08h47min - Atualizada em 04/02/2019 às 08h47min

Vergonha do trabalho

ALEXANDRE HENRY | JUIZ FEDERAL E ESCRITOR
Dias atrás, um ex-estagiário da unidade da Justiça Federal em que atuo publicou um texto no Facebook que me chamou bastante a atenção. Tomo a liberdade de reproduzir parte dele aqui: “Há menos de um mês, comecei a trabalhar, já que estou de férias da faculdade, para complementar a renda familiar. E hoje, durante o expediente, fui surpreendido por uma afirmação de um cliente. Este disse que em várias oportunidades me viu na Justiça Federal e sabia que eu era estudante de Direito. Após algum tempo de conversa, o cliente disse que o trabalho de garçom não era da alçada de quem frequenta os lugares que eu frequento, os quais mencionei acima”.

Não, você não leu errado. O rapaz estava trabalhando nas férias como garçom, para complementar a renda familiar, e um cliente falou claramente que aquele trabalho não era digno dele, um estudante de Direito que já prestara serviços, como estagiário, à Justiça Federal. Tem base uma coisa dessas? Quando li, tive a mesma sensação que tenho quando ouço piadas de negros e de gays, algo como se eu estivesse sendo arrastado violentamente em um túnel do tempo rumo a um passado abjeto e totalmente incompatível com o nível de evolução que nossa sociedade conseguiu alcançar.

Antes de eu prosseguir, vamos abrir um parêntese: se você pensa como o sujeito que criticou meu ex-estagiário, eu indico a você terminar a leitura deste texto por aqui mesmo e correr para uma terapia, pois, mesmo você não acreditando, nós já estamos no ano de 2019.

Podemos prosseguir? Bom, acho que não preciso dizer nada sobre a imbecilidade da crítica que o rapaz sofreu, mas vou dizer assim mesmo. O que não dignifica ninguém é a vagabundagem, a preguiça e a bandidagem. O trabalho em qualquer atividade lícita, por sua vez, é sempre dignificante e deve ser elogiado. Não há ninguém que seja tão bom que possa ter seu currículo “manchado” por ter trabalhado como garçom algum dia, até mesmo porque, se isso manchar o currículo de alguém, é porque essa pessoa nunca foi e nunca será boa.

O grande problema é que a sociedade brasileira se criou arraigada na divisão entre casa grande e senzala, entre sofá da sala e fogão da cozinha, entre tintas de caneta e calos na mão. Por muito tempo, o trabalho pareceu algo “sujo” para a nobreza brasileira, acostumada a viver de renda, do suor da massa trabalhadora ou dos impostos dos contribuintes. A “sujeira” só não estava presente em trabalhos intelectuais, no encontro da pena com o papel, nos discursos em parlatórios oficiais e em outras atividades afins. Colocar a mão na massa era coisa de pobre, simples assim. Essa visão preconceituosa e elitista, infelizmente, não é um dinossauro extinto, embora esteja ficando cada vez mais incomum neste século XXI.

Eu trabalhei de garçom. Também fui balconista e caixa de padaria, além de fazer entregas de quitandas na casa de boa parte do PIB de Uberlândia na década de 1980. No começo de 1988, eu estudava no elitizado Colégio Objetivo à tarde, depois de vender biscoitos e roscas de manhã. Um dia, o dono da lanchonete terceirizada da escola me viu trabalhando e perguntou se eu não queria trabalhar na lanchonete no recreio, em troca de um salgado e um refrigerante. Sabe o que aconteceu? Garanti meu lanche do ano inteiro! Hoje, sou Juiz Federal e tenho muito orgulho de cada salgado que servi para meus colegas de escola, de cada entrega que fiz, de cada cliente que atendi.

Infelizmente, porém, a experiência que tive é estranha a boa parte dos adolescentes e jovens brasileiros de classe média. São raros os casos em que, tendo os pais condições de manter o filho só estudando, este faz algum tipo de trabalho para complementar a própria renda, especialmente como garçom, vendedor e assemelhados. Aliás, a maioria dos pais não incentiva que o filho trabalhe assim e até desestimula, como se o filho trabalhar nas férias vendendo roupas no shopping “manchasse” o nome da família. Pena. Nos EUA, isso é a coisa mais comum.

Eu poderia escrever muito mais sobre o assunto, mas termino com o texto do meu próprio ex-estagiário, depois daquela parte que transcrevi no início: “Na minha opinião, todo tipo de trabalho é válido, além de ajudar no sustento da minha casa, o trabalho me dignifica e não só a mim, mas a todos aqueles que também trabalham. Desde criança fui ensinado por meus avós e meus pais a trabalhar, hoje só tenho a agradecer a Deus pela saúde que tenho e pela oportunidade de seguir no caminho que eu considero honesto”.
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