18/01/2019 às 11h10min - Atualizada em 18/01/2019 às 11h10min

Você se sente sozinho?

ANGELA SENA PRIULI
Foto: Polina Sirotina/Divulgação
Depois de tantas festas e família e amigos, nós estamos voltando aos nossos afazeres e a vida da rotina e, pensando em saúde e bem-estar, essa pergunta faz ainda mais sentido. Então, nesse Janeiro Branco, convidei o Prof. Dr. Luiz Carlos de Oliveira Jr, Médico Psiquiatra que vem trabalhando com Medicina em Estilo de Vida, para nos falar um pouco sobre o que as ciências da saúde tem para nos dizer sobre a amarga solidão.
 
Na Inglaterra da série Harry Potter, o Ministério da Magia funciona como uma instituição do governo que regula a utilização dos poderes mágicos de bruxos de todo o país para que não causem problemas a outros bruxos e às pessoas comuns, os “trouxas”. Na Inglaterra da vida real um outro problema mais sério levou à criação de um ministério curioso: o Ministério da Solidão.

Ao contrário da magia, a solidão é um problema real e preocupante. Segundo dados de 2016, na Inglaterra, um terço das pessoas acima de 60 anos vive socialmente isolada. Mas não é só na terra da Rainha que isso ocorre. Em todo o mundo o envelhecimento populacional é crescente e junto com ele a solidão. O que os estudos científicos têm mostrado é que sentir-se socialmente isolado pode produzir um estado de inflamação leve e crônico no organismo que aumenta o risco de doenças crônicas. Essa inflamação é medida pelos cientistas através da medição de substâncias chamadas interleucinas e do hormônio cortisol. No sangue das pessoas que relataram se sentir sozinhas os pesquisadores encontraram níveis aumentados dessas duas substâncias. Curiosamente, a solidão parece afetar de forma mais importante as mulheres.

A causa desse aumento de solidão parece ser a transformação cultural e social que vivemos: estamos nos tornando mais individualistas e também mais sobrecarregados pelos nossos afazeres cotidianos. Existiriam outros fatores envolvidos?

Muitas pessoas têm questionado se o uso cada vez mais intenso de redes sociais teria alguma culpa nesse isolamento. Passaríamos a conviver muito no mundo digital e pouco no mundo real. Apesar de essa ser uma questão difícil de responder, a ciência tem começado a descobrir que talvez o excessivo uso de redes sociais pode na verdade ter origem na solidão no mundo real. Pessoas que se sentem sozinhas e tem dificuldade de se relacionar na vida real, por timidez excessiva talvez, acabariam usando a internet como uma forma de resolver sua solidão.

Diversas iniciativas podem ser tomadas para resolver esse problema. Incentivar a formação de grupos de interesse mútuo, a participação em instituições que tradicionalmente reúnem pessoas em torno de alguma causa, como grupos religiosos por exemplo, tem sido uma das opções sugeridas pelos especialistas.
Seres humanos não nasceram para ficar isolados. Precisamos de carinho e afeto, do contato com outras pessoas, de uma conversa amiga. A solidão vai contra nossa natureza. Se você se sente sozinho faça alguma coisa. Conecte-se com outros seres humanos, de preferência na vida real!

Fontes:
Dreyer, K., Steventon, A., Fisher, R., Deeny, S.R., 2018. The association between living alone and health care utilisation in older adults: a retrospective cohort study of electronic health records from a London general practice. BMC Geriatr. 18, 269. https://doi.org/10.1186/s12877-018-0939-4
Hackett, R.A., Hamer, M., Endrighi, R., Brydon, L., Steptoe, A., 2012. Loneliness and stress-related inflammatory and neuroendocrine responses in older men and women. Psychoneuroendocrinology 37, 1801–1809. https://doi.org/10.1016/j.psyneuen.2012.03.016
Kim, J., LaRose, R., Peng, W., 2009. Loneliness as the Cause and the Effect of Problematic Internet Use: The Relationship between Internet Use and Psychological Well-Being. Cyberpsychol. Behav. 12, 451–455. https://doi.org/10.1089/cpb.2008.0327



*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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