09/10/2018 às 10h58min - Atualizada em 09/10/2018 às 10h58min

UFU por elas

ANGELA SENA PRIULI

A série especial para o mês de outubro do CiênciaPop revelará como a ciência feita na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) tem contribuído com os avanços focados na saúde delas, AS MULHERES, e no câncer de mama. É a produção científica feita na nossa cidade, por gente que vive aqui e desenvolve avanços pela vida que se espelham por todo o planeta. Minha primeira convidada é a Professora Doutora Yara de Paiva Maia (nutricionista e geneticista), que lidera o grupo de Pesquisa em Biologia Molecular e Nutrição (BioNut), o qual se dedica ao estudo de Nutrição, Biologia Molecular e Câncer há 7 anos.

E veja só como esse grupo de cientistas já respondeu algumas perguntas importantes para nós mulheres:


Professora Doutora Yara de Paiva Maia 

1. Para começar, um questionamento básico: a orientação nutricional durante a quimioterapia funciona?
Sim. Identificamos durante a quimioterapia uma alarmante redução no consumo de nutrientes, modificações na qualidade da dieta, com redução do consumo de frutas e vegetais, além de aumento do peso, IMC e da circunferência da cintura de mulheres com câncer de mama. Estes resultados reforçam a importância do acompanhamento por profissionais de saúde, em especial o nutricionista, fornecendo orientações para que a alimentação e o estado nutricional se mantenham saudáveis, contribuindo para melhor recuperação, qualidade de vida e redução do risco de retorno da doença.

2.  E a relação com a comida, ela pode mudar durante a quimioterapia?
Por ser um tratamento sistêmico, é comum efeitos colaterais intensos com impacto na alimentação. Observamos em nosso estudo, náuseas, alteração do paladar e do hedonismo alimentar que, em outras palavras, é a alteração da relação individual com a comida. As mulheres apresentaram aumento do apetite geral e por alimentos salgados e picantes. Verificamos, ainda, diminuição da preferência por carnes, arroz, hortaliças, feijão, doces e produtos de panificação; aumento da aversão por café e carnes; e redução da aversão por hortaliças.

3. E sobre a relação entre apetite por grupos de alimentos e qualidade de vida?
Embora a qualidade de vida global não tenha alterado durante a quimioterapia, o apetite impactou alguns de seus domínios. Observamos que quanto maior a capacidade de apreciar a refeição, melhor a função social e a perspectiva de vida. Mulheres que apresentaram mais dor, relataram maior apetite por alimentos amargos e ricos em amido, enquanto as que apresentaram mais dor e fadiga e menor saúde global e funções emocional, social e física, apresentaram maior apetite por sucos. Esse estudo reforça o conhecimento de que a relação com o alimento é individual e que, portanto, deve haver individualização da assistência com melhor manejo dos sintomas e orientação nutricional adequada.

4. O que ocorre durante a hormonioterapia (um tratamento que utiliza remédios para bloquear a ação de determinados hormônios e evitar que eles estimulem as células do câncer a crescer)?
A maioria das mulheres em hormonioterapia com tamoxifeno apresentaram sobrepeso e obesidade, em especial aquelas que haviam passado por quimioterapia e que estavam no início do tratamento. Mulheres em hormonioterapia com Inibidores de Aromatase, apresentaram nos primeiros anos do tratamento maior incapacidade funcional e pior composição corporal. O acompanhamento multidisciplinar, em especial o nutricional, deve ocorrer durante todo o tratamento, com atenção especial a esses casos específicos, a fim de manter a composição corporal saudável, podendo, ainda, contribuir para uma maior adesão ao tratamento e melhor ação medicamentosa.

5. O perfil inflamatório difere entre mulheres submetidas ou não à quimioterapia?
Identificamos um potencial de marcadores inflamatórios circulantes no sangue em atuarem como marcadores da eficiência quimioterapêutica. Além disto, verificamos que quanto maior o nível de um dos marcadores (IL-1β), maior a agressividade do fenótipo molecular do tumor entre as mulheres que não foram submetidas à quimioterapia.

6. Qual a relação da cronoterapia com a radioterapia?
Observamos que a radioterapia realizada à tarde, entre 12h e 15h, foi associada à ocorrência precoce de radiodermatites, sugerindo potencial efeito da cronoterapia, que consiste na influência do horário sobre o tratamento. Outro fator de risco foi o fototipo cutâneo (cor da pele), pois mulheres com pele morena moderada, morena escura e negra, também apresentaram radiodermatite precoce.

7. O que ocorre durante a radioterapia?
A presença de radiodermatites severas e o tempo de radioterapia causou impacto negativo na qualidade de vida global e em alguns de seus domínios, indicando a necessidade de adoção de medidas para minimizar esse efeito. Desenvolvemos uma escala ilustrada contendo casos típicos de radiodermatites, a qual poderá ser futuramente adotada para melhorar a precisão e a concordância entre os avaliadores destas lesões. Novos estudos do grupo encontram-se em andamento ou em fase de análise de dados. Assim, acreditamos que muitos outros bons resultados serão apresentados em breve, contribuindo para o atendimento e melhoria da saúde dessas mulheres.
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Um vivaaaa aos cientistas vizinhos pelo amor e esforço investido em trazer mais saúde para nossas vidas femininas! UFU por elas está no ar!

Fontes:
Custódio IDD et al. (2016) Impact of Chemotherapy on Diet and Nutritional Status of Women with Breast Cancer: A Prospective Study. PLoS ONE 11(6): e0157113.
Marinho EdC et al. (2017) Impact of chemotherapy on perceptions related to food intake in women with breast cancer: A prospective study. PLoS ONE 12(11): e0187573.
Marinho EdC et al. Relationship between food perceptions and health-related quality of life in a prospective study of breast cancer patients undergoing chemotherapy. Clinics, 2018.
Lima MTM et al. Temporal influence of endocrine therapy with tamoxifen and chemotherapy on nutritional risk and obesity in breast cancer patients. BMC CANCER, v. 17, p. 578, 2017.
Carvalho KP et al. Longer times of receipt of adjuvant endocrine therapy correspond to improved functional capacity and lower adiposity in women receiving adjuvant therapy. Clinical Breast Cancer, 2018.

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