10/09/2018 às 09h30min - Atualizada em 10/09/2018 às 09h30min

Quem vive de passado é...?

ANGELA SENA PRIULI
Foto: Tania Rego/Agência Brasil
Sim! Já sei que você foi bombardeado com a notícia "quente" da semana, com todas as imagens escaldantes que todo incêndio traz.

Mas talvez essa seja a tristíssima oportunidade para todos nós refletirmos por minutos, ao menos, e percebermos que somos construídos por um passado de tijolos, pedaços, fatos e descobertas. E, somente por esse motivo, hoje sabemos que somos seres humanos da espécie Homo sapiens sapiens, que viemos de lá ou de cá e portanto falamos alto e gesticulando ou comemos feijoada em dias de festa, ou ainda quem nos ensinou a construir grandes obras. Enfim...
Museu não é só "arte", é bebida, comida, diversão e progresso!

Aproveito para trazer um trecho de um artigo científico publicado em 2008, mas muito atual, pelo Historiador e Prof. Dr. Cláudio Carlan da Universidade Federal de Alfenas - MG:
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Originalmente, o museu, do grego mouseion, Templo das Musas, filhas de Zeus com Mnemosine, a memória. Local onde abrigava os mais variados ramos das artes e ciências, sempre manteve vivo um caráter interdisciplinar. Segundo Chagas, ele deve atuar em três campos básicos: na investigação, na preservação e na comunicação (CHAGAS: 1996, 47). Apesar da comunicação, através de publicações, exposições, site e congressos, justificar a preservação, deve haver um equilíbrio entre elas. Infelizmente, no Brasil, a pesquisa e investigação ficam estacionadas em um segundo plano. As exposições sem investigação tornam-se uma mera transmissão.
Historicamente, o museu é responsável pela produção do conhecimento e a convergência dos saberes científicos. Não basta guardar o objeto. Sem uma pesquisa permanente, a instituição fica subestimada a um centro de lazer e turismo.
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A pesquisa em si é uma visão crítica, a relação homem / objeto / espaço forma a memória e o patrimônio cultural. Essa documentação museológica é um conjunto de informações sobre cada um dos seus itens e, conseqüentemente, a representação destes por meio de palavras ou imagens (CÂNDIDO: 2006, 37). Trata-se de um sistema de recuperação de informações, do passado, fundamental para a reconstrução cultural de uma sociedade.
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Estes acervos, transformados em documentos, guardiões de uma memória coletiva, devem ser guardados e protegidos, mas não excluídos dos debates acadêmicos.
Os danos ao patrimônio estão regulamentados por leis de proteção. Na Espanha, por exemplo, as multas por danos vão de 60 a 600 mil euros. Além de prisão, sem direito à fiança. No Egito, o contrabando de acervo arqueológico é tão grave quanto o tráfico de drogas.

Em 2006, foi publicado pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o livro Coletânea de Leis sobre Preservação do Patrimônio, resenhada por Pedro Paulo Funari, com objetivo de tornar públicas as leis que protegem os nossos bens históricos. A obra chega em uma boa hora, principalmente depois do episódio (mal explicado pela imprensa brasileira) da Marina da Glória, Rio de Janeiro, por ocasião dos Jogos Pan-Americano. Os organizadores dos jogos, os patrocinadores e o próprio Governo Municipal queriam realizar uma série de "reformas", descaracterizando totalmente um bem tombado. Na mesma linha, o roubo de peças do Museu de Arte de São Paulo (MASP) demonstra a importância não apenas da legislação patrimonial, como de práticas de gestão que incluam a sociedade civil. Como mostra a experiência internacional, e as recomendações da própria UNESCO, apenas políticas públicas que contemplem a participação de todos garante não apenas a conservação, como a vivificação da memória. Órgãos como o IPHAN e os conselhos estaduais e municipais de patrimônio só podem obter resultados duradouros e efetivos se incluírem a participação dos segmentos sociais.

O homem, durante a sua passagem pelo mundo, desenvolveu diversas formas simbólicas, tanto artísticas quanto lingüísticas, expressas pela sua consciência. Essas formas, representadas pelos objetos, mesmo em um museu, continuam a ter vida. Analisando e estudando a cultura material, identificamos as técnicas, os usos e as diversas funções de cada objeto. Associados aos valores estéticos, históricos, simbólicos de uma época. É fundamental manter, preservar e estudar cada um desses objetos culturais. Função essa que, tanto o Departamento de Museus, quanto o IPHAN tem por obrigação proteger para as gerações futuras.
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Termino aqui o bem colocado parênteses para dizer, como bióloga, que além da história, os museus também abrigam elementos que representam muitos avanços científicos que contribuíram para nosso bem estar.
Chorar pelo acervo queimado não resolverá, mas conscientizar nosso povo e nossos filhos para conservar e respeitar a essência da vida é nosso dever!   M-A-I-S   E-D-U-C-A-Ç-Ã-O  e  R-E-S-P-E-I-T-O!

Fonte:
CARLAN, Claudio Umpierre. Os museus e o patrimônio histórico: uma relação complexa. História [online]. 2008, vol.27, n.2 [cited  2018-09-04], pp.75-88.
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