28/05/2018 às 10h37min - Atualizada em 28/05/2018 às 10h37min

​O que colocar no lugar?

ALEXANDRE HENRY | COLUNISTA

Ainda que de forma incompleta e atingindo as diversas correntes políticas em ritmos distintos, é fato que a Operação Lava Jato, e suas derivadas, está promovendo um processo de depuração da classe política brasileira. Pegue-se o exemplo de Aécio Neves. Mesmo não tendo sido condenado por nada ainda, o envolvimento de seu nome em diversas investigações já foi suficiente para sepultar, definitivamente, as suas pretensões presidenciais. Hoje, há dúvidas até se ele conseguiria se eleger deputado federal. Outros políticos também tiveram suas carreiras manchadas de forma indelével e vai ser difícil que ostentem o mesmo poder de outrora.

Eu acredito que não vamos parar nos nomes que já vimos até agora. Como disse um ministro do STF certa vez, tratando-se de Lava Jato, cada vez que se puxa uma pena, aparece uma galinha nova. As investigações acumulam informações quase que de forma exponencial, pois um que é pego delata vários outros, dentre os quais teremos novos delatores e mais uma multiplicidade de investigados. Isso me deixa esperançoso, como eu disse aqui em outras oportunidades. Porém, essa é só uma parte do processo evolutivo, processo esse que não chegará muito longe se não cuidarmos também da outra parte: o estímulo a que pessoas do bem optem pela carreira política.

Desde muito tempo, o que temos visto é o contrário. Quanto mais um sujeito é do bem, mais ele recebe estímulos fortes para nunca se envolver com política. Cargos eleitorais parecem material radioativo, capazes de contaminar mesmo as personalidades mais robustas e confiáveis – essa é a ideia que se disseminou nas últimas décadas pós-redemocratização. Conheço gente do bem que até cogitou concorrer a cargos eletivos, mas que foi energicamente dissuadida por pessoas que a amavam, receosas de que a entrada na política pudesse transformar um bom ser humano em mais uma maçã podre desse saco que só parece ter frutas estragadas.

Um pensamento assim, que até é compreensível diante do que temos passado em termos de escândalos, leva a dois caminhos malignos. O primeiro deles é a promoção de ideais antidemocráticos, sob o lema de que a democracia não é a melhor solução para o estado, que o povo não sabe eleger ninguém e que a corrupção vai perdurar enquanto não tivermos um governo que tenha autoridade, ainda que ditatorial, para “dar um jeito nessa bagunça”. Esse é um caminho maligno porque, conforme alguém já disse, a democracia ainda é o melhor sistema ruim de governo que temos. Mais do que isso, aspirações ditatoriais ignoram que a diferença entre a democracia e a ditadura, em termos de corrupção, é apenas no tocante à revelação para a população das falcatruas com o dinheiro público. O segundo caminho maligno da ideia de que tratei do parágrafo anterior é justamente afastar pessoas de bem da política e, ao mesmo tempo, abrir ainda mais espaço para crápulas inescrupulosos dominarem a política nacional.

Portanto, a primeira coisa que temos que fazer, se realmente queremos que os efeitos da Lava Jato alcancem um resultado para além da simples prisão de um monte de corruptos, é começar a disseminar a ideia de que a política pode, sim, ser lugar de gente do bem, de gente cujas intenções não se restrinjam a ganhos pessoais após a eleição. Como fazer isso? Estimulando quem você conhece e confia, quem você sabe que poderia ser um bom nome para ocupar um cargo público, a se candidatar nas eleições. O que eu sugiro não é algo pueril ou ingênuo, é algo real. Há uma pessoa realmente boa no seu bairro? Diga para ela que ela seria um bom nome para a câmara de vereadores. Vai que ela se convence disso, não é?

Outra coisa que temos que fazer é parar de disseminar a ideia de que todo político é corrupto, ladrão e que não trabalha. Hoje, de fato há muita gente assim ocupando cargos eletivos. Mas, também há gente do bem que resiste bravamente às tentações mundanas do cargo. Generalizar em relação aos políticos não ajuda essas pessoas boas e ainda contribui para afastar novos candidatos honestos.

Fora essas duas sugestões, há ainda um oceano de iniciativas a serem colocadas em prática, cujas sementes devem estar na sociedade civil, não nas instituições estatais já estabelecidas. É nas associações, nas organizações não-governamentais, nas escolas, clubes etc. que podem nascer ações concretas para mudar o panorama político brasileiro. Não há mais tempo a perder. A Lava Jato já está avançada, mas não sobreviverá muito tempo sem que a outra parte do processo de depuração da política brasileira avance.
 
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