01/05/2018 às 14h54min - Atualizada em 01/05/2018 às 14h54min

Intervenção militar

ALEXANDRE HENRY ALVES | COLUNISTA
 
Há poucos dias, em Uberlândia, um pequeno grupo de pessoas fez uma manifestação na esquina da Avenida Floriano Peixoto com a Rua Olegário Maciel, defendendo uma intervenção militar imediata no país. Expressaram-se principalmente por meio de uma grande faixa, que era aberta a cada sinal fechado. Esse protesto não é algo inédito e já aconteceu por outros meios, inclusive outdoors. As aspirações da maioria das pessoas que defendem generais no comando costumam ser boas: elas querem um país melhor, com menos violência, menos corrupção e uma economia mais estável e organizada. O único problema, a meu ver, é a forma como esperam que isso aconteça.

O Brasil como república começou em novembro de 1889 com um golpe militar esquisito, liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, que foi posteriormente eleito para o cargo de presidente, mas não se deu bem com a via democrática e deu um novo golpe de estado, agora para fechar o Congresso e acabar com a imprensa livre. Fracassou em sua tentativa e em seu lugar assumiu outro marechal, o Floriano Peixoto, que deu nome à avenida onde a turma uberlandense fez seu pedido de intervenção militar. Resumindo, a república brasileira começou com dois presidentes militares. Tivemos então alguns presidentes civis, até que um terceiro marechal, desta vez o Hermes da Fonseca, assumiu o poder em 1910, pela via eleitoral. Não vou nem citar o golpe militar de 1930, pois a junta que tomou o poder logo o repassou para Getúlio Vargas. O fato é que tivemos um quarto marechal no poder em 1946, com o presidente Eurico Gaspar Dutra, só que agora pelo caminho das urnas. Em 1964, como você já está cansado de saber, tivemos a tomada de poder novamente pelos militares, com os generais deixando a presidência apenas em 1985.

O que eu quero demonstrar com isso é que, mesmo tendo inúmeros militares no poder ao longo da história, não conseguimos nos tornar uma nação desenvolvida. Muita gente de memória curta não se lembra, por exemplo, do estado em que o general Figueiredo deixou o país, após um governo marcado por uma das maiores recessões da nossa história. A república brasileira tem uma trajetória marcada pela esperança de que, quando tudo está errado, um governo militar será capaz de consertar as coisas e nos colocar nos trilhos do desenvolvimento, mas isso foi tentado várias vezes e não fomos para frente. Quer indício mais contundente para não colocar as fichas em uma intervenção militar como solução para nosso país?

O insucesso de governos de farda não é exclusividade brasileira. Atualmente, Egito, Etiópia, Tailândia e Zimbábue são os países sob ditaduras militares. Animador, não? De todos os continentes, sabe qual já teve mais governos militares? Sim, a África. Mais de trinta de seus países já foram governados por generais e similares. A pobre América Latina também já teve governos fardados em 21 países ao longo da história. África e América Latina, mesmo liderando o ranking da história das ditaduras militares, continuam sendo duas das partes mais pobres e subdesenvolvidas do mundo. Por outro lado, nações ricas como os Estados Unidos, a Inglaterra e a Alemanha nunca foram governadas por ditaduras militares. Tiveram generais no comando? Sim, mas apenas depois de deixarem a farda e concorrerem pela via democrática das eleições.

Entenda, de uma vez por todas, que intervenção militar não é solução para país algum. Procure e você não encontrará na história nenhuma nação que tenha se tornado rica a partir do governo ditatorial de generais. Militares são disciplinados, quase sempre possuem uma conduta ilibada e prestam inúmeros serviços valorosos para um país. Eu já escrevi mais de uma vez que tenho orgulho das nossas Forças Armadas e admiro o trabalho que elas fazem no país, principalmente nos rincões do Norte, guardando nossas fronteiras. Mas, cada um tem o seu papel e, fora dele, o caos se instala. A democracia é imperfeita, os governos civis têm inúmeras falhas, mas foi só com eles que as maiores nações do mundo se desenvolveram.
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