12/03/2018 às 05h54min - Atualizada em 12/03/2018 às 05h54min

Choro por ti, América

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Pesquisa feita pela organização “Segurança, Justiça e Paz” e divulgada pela BBC esta semana revela as cinquenta cidades mais violentas do mundo, tomando por base o número de homicídios por habitante. Entre essas cinquenta, há apenas três que não ficam nas Américas, sendo as três localizadas na África do Sul. A primeira colocada do ranking é Los Cabos, no México, com 111,33 homicídios por cada 100 mil habitantes. Seguem na sequência do ranking Caracas (Venezuela), Acapulco (México), Natal (Brasil) e Tijuana (México). Dessas cinco dezenas de cidades, o Brasil é o maior fornecedor: são dezessete cidades do nosso país entre as mais violentas do planeta. Em ordem decrescente: Natal, Fortaleza, Belém, Vitória da Conquista, Maceió, Aracaju, Feira de Santana, Recife, Salvador, João Pessoa, Manaus, Porto Alegre, Macapá, Campos dos Goytacazes, Campina Grande, Teresina e Vitória. Os norte-americanos também contribuem para a lista com várias cidades e St. Louis, no Missouri, ostenta a nada orgulhosa 13ª posição no ranking.

Eu fico me perguntando o que faz com que nós, habitantes das Américas, sejamos tão violentos. Note que a questão não tem nada a ver com falta de liberdade para possuir armas ou falta de adoção da pena de morte. St. Louis fica em um estado no qual você não precisa de permissão para comprar uma arma, não precisa registrá-la, pedir licença para possuir ou portar, mesmo que seja um fuzil AR-15. Você pode portar essas armas de forma ostensiva, não havendo restrição para a capacidade de carga de munição. Por fim, seu histórico não vai ser verificado na hora em que você quiser comprar uma arma. Mesmo assim, St. Louis, que fica no Missouri, é a 13ª mais violenta do mundo, apresentando uma taxa de 65,83 homicídios para cada 100 mil habitantes. Lembrando que a pena de morte é adotada no estado do Missouri.

A pobreza, por si só, também não significa violência de forma automática. Fosse assim, a maioria dos países africanos forneceria cidades para esse ranking e a África do Sul, que tem a oitava maior renda per capita daquele continente, não seria o único a ter cidades entre as cinquenta mais violentas do mundo. Aliás, qual é o país mais pobre da América do Sul, com menor renda per capita? A Bolívia. Mas, não há nenhuma cidade boliviana no ranking.

Qual é a explicação então para a violência ser mais forte em alguns locais específicos? Não há resposta muito segura para isso, embora existam alguns fatores predominantes. A desigualdade social é um deles. A África do Sul, por exemplo, é um dos países em que há mais diferença entre a renda da pequena parte rica da população e a renda da gigantesca parcela de pobres. Um mapa mundial com dados de desigualdade revela que há, sim, uma relação entre violência e a diferença de renda em uma sociedade. Esse dado, porém, não representa causa única. Durante os anos dourados da década passada no Brasil, a desigualdade social aparentemente diminuiu (embora novos estudos estejam questionando essa afirmação), mas a violência cresceu. Há alguns países com grande desigualdade social, como a China, que não são tão violentos quanto outros menos desiguais.

Agora, uma coisa é certa. Se você juntar desigualdade social com ineficiência policial, alto consumo e tráfico de drogas, sistema judicial lento, sistema prisional caótico e uma cultura social na qual o respeito ao próximo não é algo tão valorizado, então a receita para índices gigantescos de violência está pronta. E acho que é justamente aí que mora o problema da América Latina, cujas estruturas sociais foram construídas desde o início com base na exploração, na apropriação privada dos bens comuns, na corrupção das autoridades e na desigualdade de renda. A vida por aqui, infelizmente, sempre valeu muito pouco.

Em relação especificamente ao Brasil, o que se pode observar é que a expansão do crime organizado para os estados no Nordeste e do Norte fez com que as principais cidades dessas regiões tomassem os pontos que antes eram dos grandes centros urbanos do Sudeste. Ao se expandir rumo a latitudes menores do nosso país, o crime organizado tem se deparado com um aparato estatal ainda mais ineficiente e, em muitos casos, com desigualdades sociais ainda mais intensas. A explosão da violência acaba sendo uma consequência natural.

Choro pela América, até pelas várias cidades dos EUA que compõem esse triste ranking. O antes “Mundo Novo” está cada vez mais velho, cada vez mais medieval, cada vez menos humanizado. E o pior é que não se vê solução à frente. Triste.
(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com
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