09/01/2018 às 17h38min - Atualizada em 09/01/2018 às 17h38min

Refugiados: a fronteira do medo que assusta o mundo

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA | COLUNISTA

Uma das mais memoráveis e emblemáticas passagens da Bíblia é, definitivamente, o Êxodo Hebreu – história que conta como o profeta Moisés abriu o Mar Vermelho e conduziu aproximadamente meio milhão de israelitas rumo à liberdade. Embora a ciência moderna tenha colocado em dúvida a amplitude e até mesmo a existência desse evento, é importante pensarmos esta passagem bíblica num contexto atual, refletindo sobre fatos registrados que demonstram a constante busca do homem pela liberdade e pela dignidade.

O mundo está cada vez mais assustador. É impossível não passar os olhos por qualquer jornal – seja ele nacional ou não – e não se deparar com escândalos de corrupção, índices de desenvolvimento humanos desanimadores, desastres naturais, conflitos e guerras. Mesmo que você já esteja anestesiado frente a tantas desgraças, é difícil não se sentir, no mínimo, inseguro ou desacreditado.

Mas, se a situação está difícil para nós, espectadores passivos destes cenários, imaginem o terror de viver na pele os efeitos de tamanho descaso e violência. É o que acontece com os mais de 65 milhões de refugiados do mundo – número que sofreu um crescimento de quase 10% entre 2014 e 2015, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). O órgão da ONU responsável pelo apoio e proteção aos refugiados, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), divulgou um relatório que aponta que “um em cada 113 seres humanos no mundo hoje está desarraigado, é demandante de asilo, deslocado interno ou refugiado”.

As causas para a fuga de suas próprias nações são as já conhecidas por boa parte dos países do mundo: fome e seca, perseguições políticas e religiosas, questões de sexualidade e gênero e, principalmente, a violência e a miséria geradas por conflitos e guerras. São problemas pontuais, motivados pela má distribuição de renda, a desigualdade social e pelos interesses imperialistas de países “de primeiro mundo” em localidades subdesenvolvidas ou em desenvolvimento. Além desses fatores, outro empecilho se desenha neste cenário: a inércia dos governos em todo o mundo diante de seus deveres e responsabilidades.

Grande parte dos refugiados são oriundos do Oriente Médio e da Ásia – regiões onde existem guerras e conflitos armados, ocupações norte-americanas e os baixos índices de desenvolvimento humano. O destino dessas pessoas é, quase sempre, o continente europeu, que recebeu quase 1,5 milhão de refugiados entre 2015 e 2016. A travessia, feita pelo Mar Mediterrâneo, é realizada por meio de embarcações superlotadas e de estrutura precária, e muitos passageiros acabam morrendo ou desaparecendo durante o trajeto.

Há mais de uma década, a vizinha Venezuela vive a maior crise política e econômica de sua história, que só faz crescer o número de refugiados aqui no Brasil. Os venezuelanos chegam em busca de melhores condições de vida. Apenas a Venezuela viu 52 mil de seus mais de 30 milhões de habitantes pedir refúgio em outras nações. A grande maioria, em um total de aproximadamente 13 mil só em 2017, fugiram da situação de miséria e perseguição de cunho político ideológico, buscando abrigo e proteção no Brasil. Estima-se que quase 30 mil venezuelanos vivem em situação irregular em nosso país, segundo dados publicados pela Acnur, Agência da ONU para Refugiados.  

E os problemas, como era de se esperar, não cessam quando se alcança o destino final, já que os refugiados continuam vítimas do desemprego, da miséria e da violência – desta vez, motivada pela xenofobia e por discursos de ódio dos moradores locais. A mensagem que fica é a de que, quando os problemas são ignorados, eles encontram uma forma de serem vistos, e o ciclo da violência e da miséria continua se reinventando e se perpetuando. Afinal, é mesmo um crime tão grave almejar o mínimo de dignidade humana e qualidade de vida?

Pensando estrategicamente, é hora de nos questionarmos onde a perseguição às minorias, a gana pela riqueza (de poucos) e o espírito nacionalista exacerbado nos levarão. Não seria melhor, em vez de gastarmos fortunas em guerras bilionárias, repensarmos a distribuição de riquezas ao redor do mundo? Não seria mais produtivo pensarmos uma sociedade igualitária e respeitosa no lugar de alimentarmos ainda mais as desigualdades e o ódio já existentes?

Do ponto de vista da economia e da política, rejeitar os refugiados é uma decisão irracional. Numa era em que a tecnologia é onipresente e a informação é difundida em velocidades jamais esperadas, o mundo clama pela ajuda daqueles que possuem poder de ação para, ao menos, exigir responsabilidade e comprometimento das lideranças que podem mudar o futuro desses milhões de pessoas que, em seus lares ou fora deles, não podem encontrar a paz.
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