08/07/2020 às 10h57min - Atualizada em 08/07/2020 às 10h57min

Família contesta velório com caixão lacrado mesmo sem diagnóstico de Covid-19

Diário de Uberlândia recebeu relatos de familiares com críticas a protocolos para pacientes que testaram negativo para a doença

BRUNA MERLIN
Após dois dias do sepultamento de idosa, resultado do exame para Covid-19 atestou negativo | Foto: Arquivo Pessoal
O Diário de Uberlândia recebeu nos últimos dias duas denúncias de moradores questionando os protocolos de segurança da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e da Vigilância Epidemiológica Municipal (Vigep) em relação aos procedimentos de velórios para possíveis vítimas da Covid-19. Foi informado à reportagem que, mesmo sem a comprovação da contaminação da doença, o Município orienta a lacração de caixões às funerárias da cidade.

A situação aconteceu com a família de Dolira Maria de Ávila, que faleceu aos 89 anos na última semana, e foi velada e enterrada com o caixão fechado e trancado. Segundo a filha da vítima, Divina da Conceição Ávila Pereira, de 48 anos, o velório foi feito sob os protocolos de segurança da Prefeitura mesmo sem a divulgação do resultado do teste para a doença.  

“Ainda não consigo acreditar que fizeram isso com nossa família. Lacraram o caixão com um saco preto e não conseguimos nem ver o rosto dela. Não nos despedimos. Como podemos confiar de que era ela quem estava lá. Esse momento foi horrível”, disse muito emocionada à reportagem.

Divina contou que a mãe sofria de pressão alta e aneurisma. No dia 23 de junho, Dolira foi levada à Unidade Básica de Saúde Familiar (UBSF) do bairro São Jorge após sofrer convulsões em casa. Na unidade, a médica a examinou e descartou sintomas da Covid-19, Em seguida, a mãe e a filha voltaram para casa.

“Minha mãe estava super bem e não saía de casa. Estava em total isolamento social e sob meus cuidados e de enfermeiras”, complementou.

No dia 2 de julho, Dolira veio a óbito em casa. A família acionou o Corpo de Bombeiros para tentar a reanimação, mas sem sucesso. De acordo com a filha, tanto os militares quanto as enfermeiras, que cuidavam da idosa, constataram que ela tinha sofrido uma parada cardiorrespiratória. 

 
“Eles quiserem fazer um teste para Covid-19 por se tratar de uma vítima idosa. Mas na certidão de óbito foi constatado como parada cardiorrespiratória. Não quiserem nem esperar o resultado do exame sair e já indicaram à funerária que ela tinha suspeitas da doença e que o caixão deveria ser lacrado sendo que ela não tinha sintomas nenhum”, ressaltou Divina.

O velório, que aconteceu em uma funerária localizada na região central da cidade, durou cerca de uma hora. Cinco dias após o enterro, o resultado do teste foi divulgado à família e o mesmo tinha dado negativo para a contaminação do vírus.

“Nós já sabíamos que ia dar negativo porque não fazia sentido nenhum. Por que não realizaram o teste de forma mais rápida? Obrigaram a realização do velório na dúvida. Não tivemos a chance de nos despedir. Recebemos familiares de outras cidades que não a viam há muito tempo e não conseguiram se despedir. Não é justo o que fizeram com a gente. É muito triste passar por uma perda e não poder nos despedir é muito pior. Não desejo isso para ninguém”, finalizou.

Família só sepultou paciente após resultado do exame
Um caso semelhante foi registrado no dia 14 de junho. Shinayda Silveira Ferreira relatou que o pai Jorcelino Ferreira, de 78 anos, faleceu em decorrência de um câncer de próstata com metástase óssea que ele enfrentava. O idoso chegou a ser internado quatro dias antes do óbito na Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do bairro São Jorge após apresentar um quadro infeccioso.

Segundo a filha de 43 anos, o médico solicitou o exame de Covid-19, pois se tratava de um procedimento obrigatório diante da pandemia. O profissional também chegou a dizer a ela que o quadro febril e de dificuldade respiratória era comum em razão do câncer, e que havia grandes chances de a morte não ter sido causada pelo coronavírus.

Shinayda conta que, na mudança de plantão da unidade, outra médica assumiu o caso e cogitou a possibilidade de contaminação do vírus no paciente, vindo a apontar na declaração de óbito a suspeita. “A causa da morte foi insuficiência respiratória e, mesmo sem o resultado confirmando ou não, a funerária orientou que com aquele laudo não poderia fazer o velório do meu pai de forma comum”, contou.

A mulher disse ainda que não aceitou se submeter ao protocolo sem antes ter o resultado em mãos, não retirando o corpo do pai da unidade de saúde até sair o exame.

 
“Foi horrível, foi o pior momento da minha vida. Eu estava com ele há 40 minutos antes de falecer e jamais teriam me permitido ficar o tempo inteiro junto se fosse Covid mesmo. Eu achei muito válido quererem fazer o exame, até para a nossa segurança também, mas agora forçar o protocolo sem ter certeza de que era a doença, eu não aceitei. Quando o resultado saiu, e deu negativo, graças a Deus conseguimos fazer o velório normalmente”, relatou.

RESPOSTAS
O Diário entrou em contato com a SMS para saber quais estão sendo os procedimentos orientados para toda a rede de saúde durante a pandemia em caso de falecimentos. Além disso, a reportagem questionou quais são as situações em que as mortes podem ser consideradas suspeitas de Covid-19.

A Secretaria informou que os velórios e funerais de pacientes confirmados ou suspeitos da Covid não são recomendados e que o protocolo é seguido conforme orientação do Ministério da Saúde (MS) devido à aglomeração de pessoas em ambientes fechados. Nesse caso, o risco de transmissão também está associado ao contato entre familiares e amigos. Foi enviado também um documento com orientações sobre o manejo de corpos durante os procedimentos de autópsias, declarações de óbito e realização de velórios. O arquivo pode ser acessado aqui

O Diário ainda questionou o Município sobre a demora na divulgação do resultado dos exames às famílias, forçando assim a realização de um velório nas condições do protocolo de segurança. Não houve resposta para este questionamento



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