30/06/2019 às 08h00min - Atualizada em 30/06/2019 às 08h00min

Bailarino de Uberlândia vai para a San Francisco Ballet School

João Vitor Percilio é exemplo de que o ballet não é tão elitista quanto muitos querem crer

ADREANA OLIVEIRA
Foto: Fernanda Torquato

O início da tarde na Vórtice Escola de Danças é bem movimentado, mas com um certo silêncio no ar. Pelo chão, os bailarinos colocam as sapatilhas, se aquecem, se alongam e conversam, riem, trocam ideias um com o outro de forma calma e tranquila. A concentração já começa ali para as próximas horas que serão seguidas por movimentos repetitivos que exigem disciplina, força e muita sensibilidade. Entre os bailarinos que o Diário de Uberlândia encontrou na última quarta-feira está o jovem João Vitor Percilio da Silva. O olhar tímido, porém, não esconde um taurino determinado, com bases e valores familiares sólidos que permitirão a ele iniciar, em setembro, uma jornada de três anos longe de casa.

Há 4 anos João Vitor iniciava no ballet no projeto sociocultural Pé de Moleque, idealizado por Guiomar Boaventura, da Vórtice Escola de Danças. Em fevereiro deste ano, no Grand Prix de Laussane, na Suíça, no Beaulieu Theater, o uberlandense foi um dos premiados entre os 81 candidatos iniciais. Com sua apresentação de variação clássica do Ballet Coppelia e a coreografia contemporânea Furia Corporis, ele conquistou o jurado e teve à sua disposição uma série de bolsas para escolher.

“O que eu me lembro daquela apresentação é que eu não estava nem um pouco nervoso. Aprendi a curtir o que estou fazendo e isso é muito importante, tudo começa como acreditamos em nós mesmos”, disse o bailarino.

Ele poderia escolher entre 70 escolas e elegeu a San Francisco Ballet School, onde outro uberlandense, Adriel Diniz, também do Pé de Moleque, já estudou e foi muito bem recomendada. “É uma grande referência”, disse João Paulo que aos 16 anos é aluno do 2º ano do ensino médio e também faz aulas de inglês.

“Já estou me preparando, sei que não vai ser fácil ficar longe da família mas tenho muito orgulho dessa trajetória, assim como meus pais e irmãos. É tudo bem corrido aqui e lá não vai ser diferente, mas vejo como uma oportunidade de aprimorar o ballet e quando voltar pra cá, já quero voltar dançando”, comentou João.

Para se divertir, ele gosta de estar com os amigos, com a família, ir ao cinema, mas as vezes, nas tardes de sábado, gosta mesmo é de ir para Vórtice treinar um pouco mais.

Morador do bairro Shopping Park, João tem uma família que prestigia e sempre prestigiou as artes. O pai, Neirimar da Silva, é mestre de bateria da Tabajara, a mãe Ana Paula, os irmãos Neirimar Jr, Monayah e Raíssa também são apreciadores da música, do samba, participam das festas do Congado. “Meu irmão está no conservatório e toca praticamente de tudo. Meu pai é bom na bateria e toco algumas coisas de percussão”, contou João.

O jovem afirma que a periferia é feita de bons exemplos e hoje ele se sente feliz em se tornar referência para outros jovens de sua comunidade. “Muita gente me procura para dizer que eu inspiro algo bom, fico muito feliz. Depois que apareci no programa da Fátima Bernardes então, isso aumentou”, disse, referindo-se à sua participação no “Encontro”.

Como todo bom taurino, João Vitor sonha com os pés no chão. “Eu acredito no que eu faço, acredito em mim e trabalho todos os dias para realizar um sonho de cada vez. Eu gosto muito da coreografia de ‘Le Corsaire’ e tenho o sonho de dançar ‘Dom Quixote’ e para isso é preciso muita dedicação, suor, disciplina e crença”, finalizou.

BALLET SOLIDÁRIO
João Vitor Percilio da Silva se despede temporariamente dos palcos uberlandenses no dia 3 de julho, quarta-feira, no “Ballet Solidário”, evento organizado pela Vórtice e Projeto Pé de Moleque, no Teatro Municipal de Uberlândia. O espetáculo beneficente é em prol do Centro Comunitário Shopping Park. Lá, eles servem lanche e jantar para pessoas em situação de vulnerabilidade social e atendem várias crianças, inclusive alunos do Pé de Moleque.

Segundo a diretora do Vórtice, Guiomar Boaventura, com a crise que enfrentamos a demanda no Centro Comunitário aumentou bastante e por isso serão arrecadados alimentos não perecíveis no dia da apresentação.

Os Corpos de Baile infantil e juvenil apresentarão coreografias variadas e alunos premiados em festivais nacionais e internacionais também terão seus números.

PONTO DE VISTA
Questionada sobre se o ballet clássico ser uma arte elitista do ponto de vista de muitas pessoas, a diretora do Vórtice, Guiomar Boaventura, volta à fundação da mais consagrada companhia de ballet do mundo: o russo Bolshoi.

“Eu sempre tenho comigo que o Bolshoi começou em um orfanato e no meio da guerra. Os alunos ensaiavam enquanto a cidade era bombardeada. Não acho que o ballet seja para pobre ou para rico, é para quem sobrevive a ele, para pessoas fortes e mais que uma arte é uma forma de se comunicar consigo e com o outro e se você foi fisgado por ele, não tem como escapar”, comentou.

Claro que a diretora não está alheia aos trâmites econômicos e sociais que permeiam a sociedade e que podem cercear o acesso às artes. “Isso não é uma particularidade do ballet, e sim das artes em geral. As pessoas estão mais preparadas para os esportes do que para as artes”, afirmou.

Para a Guiomar, muitas vezes, o ballet leva a pessoa a se conectar com sensações que até então ela nem sabia que existia. “Ballet é sensibilidade. Quando dança o bailarino mostra o que tem de mais íntimo e particular. Tudo que é dele é traduzido nos movimentos que o levarão a se conectar com outros mundos inerentes a ele, coisas que estão ali, esperando um despertar”.

A diretora afirma ainda que o brasileiro adora dançar. “O João Vitor, em casa, já tinha esse contato com o samba, com o congado e em cada comunidade há sempre manifestações artísticas como a dança. O ballet leva a um mundo de fantasia imaginário, é o belo, é algo que pode tirá-los um pouco da dureza do dia a dia para sair em busca de desafios”.

O aprendizado é diário. Muitas vezes, o aprimoramento de um único movimento leva meses e aquilo é celebrado pela professora como se fosse um passo digno de premiação. “Não existe toque de Deus, ou só o talento. É uma dedicação diária.

SERVIÇO
O QUE: Ballet Solidário
QUEM: Vórtice Escola de Danças – projeto Pé de Moleque
QUANDO: quarta-feira (3/7), às 20h
LOCAL: Teatro Municipal de Uberlândia
INGRESSOS: cada ingresso pode ser trocado por 1kg de alimento não perecível na secretaria da escola (Rua Javari, 472, Lídice), ou no dia da apresentação na bilheteria do teatro
CLASSIFICAÇÃO: livre
INFORMAÇÕES: 3236-9579
 
CURIOSIDADE
O Ballet Bolshoi é a Companhia do Grande Teatro Acadêmico para Ópera e Ballet de Moscou. Sua origem se deu em 1773 quando um grupo de bailarinos, meninos e meninas carentes, e outros cidadãos servos, foi formado através de aulas realizadas em um orfanato de Moscou, porém a capital da União da República Socialista Soviética (URSS) ainda era Leningrado.

A partir de 1776 esse grupo passou a integrar a companhia do Teatro Petrovski, um local construído para abriga-los. Porém a construção da época era muito frágil e não resistente a incêndios, motivo pelo qual em 1805 o prédio foi destruído e de 1805 a 1825 o Teatro Arbat, o novo Teatro Imperial, foi local de apresentações desta companhia, até que em 1824 foi construído um novo prédio, no mesmo local do antigo teatro incendiado, e onde fica a sede atual do Teatro Bolshoi, tombada pela Organização das Nações Unidas, como Patrimônio Arquitetônico e Cultural da Humanidade.

 


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