25/02/2018 às 05h23min - Atualizada em 25/02/2018 às 05h23min

Não se foge quando a arte te escolhe

Produtor cultural Carlos Guimarães Coelho fala sobre os quase 30 anos dedicados aos espetáculos

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Carlos Guimarães Coelho em visita ao Diário de Uberlândia | Foto: Adreana Oliveira

A vida de Carlos Guimarães Coelho se confunde com a arte que ele escolheu, ou melhor, que o escolheu, desde que era criança: o teatro.

Natural de Uberlândia, último de seis filhos, ele não vem de uma família com formação erudita. “Mas sempre foram de grande sensibilidade artística, sabem valorizar algo belo quando veem”, recorda o produtor em entrevista ao jornal Diário de Uberlândia na correria entre as duas produções que trará à cidade: “Master Class” e “Minha vida em Marte”. “A única referência em arte que tenho na família é de um tio-avô que trabalhou com rádio e teatro, mas não o conheci”, disse.

Na infância ele atuou em peças escolares e aos 12 anos, “com carinha de 7”, quase se mudou daqui para seguir carreira quando esteve perto de ser selecionado para a novela “O meu pé de laranja-lima”, da Globo. “Mas parece que tem algo que me puxa, me mantém em Uberlândia. Já sai diversas vezes e voltei, deve ser minha sina. Durante muitos anos tive uma relação de amor e ódio com a cidade porque achava a cena cultural fraca”, contou.

O fazer teatro entrou em sua vida para não mais sair há quase 30 anos, entre 1989 e 1990 com as produções “Mulheres de Holanda” e “Dores de Amores”. Esta última trazia à cidade a jovem Drica Moraes e o jovem Taumaturgo Ferreira. Recentemente Drica retornou por aqui com “Lifting - uma comédia cirúrgica” e deixou claro o carinho que tem pelo produtor local. “Recebi do grupo da Associação dos Produtores de Teatro (APTR) do Rio uma mensagem na qual ela recomenda meu trabalho, esse é o tipo de coisa que não tem preço”, explicou Carlinhos.

Até que tem um preço. São meses de envolvimento em um projeto cheio de questões burocráticas que passam longe do grande público, sem contar as viagens para ver o que está acontecendo de melhor pelo País. “Eu gostaria de circular mais porém as pré-produções requerem minha presença aqui. Cada espetáculo é uma batalha”, afirmou o produtor.

Essas pequenas batalhas vão desde a escolha da peça até a busca pelos recursos e patrocínios via leis de incentivo, algo no qual Carlos é um dos pioneiros em Uberlândia. “A pessoas veem o lado charmoso, glamouroso do evento mas não entendem alguns aspectos como a singularidade, a sutileza e delicadeza que o teatro, uma arte quase ritualística, requer”, disse ele colocando essa falta de conhecimento como uma das responsáveis pela entrada e saída rápidas de muita gente no ramo.

O produtor deve estar atento a tudo que o artista precisa. Carlos recorda de um show de Leny Andrade no Rio de Janeiro, artista que ele já havia trago a Uberlândia. “Percebi que ela estava incomodada. Anunciaram sua entrada mas ela demorava. Percebi que o sapato sujo a incomodava. Peguei a cortina mesmo e os limpei. Ela fez um show lindo”, recordou.

É preciso entender que cada artista tem um ritual. Para alguns, um botão no casaco usado no figurino faz diferença. “Tem produtor que pode achar o pedido uma frescura, mas não é bem assim”, disse Carlinhos.

Em apresentação no hoje interditado teatro Rondon Pacheco, ele precisou correr para providenciar ventiladores para Diogo Vilela em “Diário de um Louco”. “No final ele agradeceu e disse que ficou preocupado com o calor que a plateia passou. Tinha um executivo da então CTBC na sessão que doou um ar condicionado ao teatro depois disso e o Diogo escolheu a cidade para encerrar a temporada da peça”, recordou ele que passou também por algumas saias justas com Paulo Autran (1922-2007). “Ele é um dos grandes mestres do teatro e apesar disso estava sempre preocupado se teria público. Apesar de ter começado a fumar na fase adulta, tornou-se um fumante inveterado. Eu precisei ficar segurando o cigarro pra ele na coxia durante um espetáculo”, lembrou.

Até quando está como espectador ele não deixa de lado o seu lado produtor. “é o momento em que me coloco na plateia, no lugar do meu cliente. Ali não vejo só o espetáculo mas a reação do público a ele e dessa forma acabo sempre tendo um olhar mais crítico”, contou.

E por falar em críticas, ele já recebeu muitas, principalmente de seus conterrâneos. “Ao meu ver o público uberlandense é desafiador, principalmente, por ainda estar em uma formação de sua identidade cultural porque é uma cidade que abriga muita gente de outras cidades e o teatro é cheio de detalhes. Se uma pessoa tem uma experiência ruim na primeira vez não vai querer voltar”, comentou.

As críticas recebidas por um público de maior repertório não incomodam. “Faz parte do teatro incomodar e nem sempre o espetáculo é de fácil digestão, o que vejo como positivo, faz parte da arte levar a reflexões e não só ao riso fácil”, argumentou.

Porém, no geral, Carlos Guimarães vê uma plateia generosa e aberta às suas produções mesmo reconhecendo a existência das “panelinhas”. “Estão em qualquer meio. Tem aqueles que torcem o nariz para seu trabalho, que torcem contra você, se recusa a ir a seus espetáculos com o discurso que trago peças ‘comerciais’. O conteúdo apresentado me importa, se for comercial e boa, qual o problema?”, questiona.

Mesmo quando se afastou das produções e atuou como jornalista e empresário, Carlos deu sua contribuição às artes em Uberlândia. Em jornais, revistas e TV divulgava o que havia de mais interessante na cidade e como empresário, no Estação Cultura, trouxe shows memoráveis. “Dá saudade desse lugar que abrigava o ‘Terça Jazz’, que trouxe Ana Botafogo e o Grupo Galpão, entre tantos outros”, diz ele que não nega o desejo de retomar à experiência.

LITERATURA

A história do teatro na cidade registrada em 2 livros

Duas vezes ele se enveredou pela literatura. A relação com o primeiro livro voltado para viagens por 20 cidades mineiras, ao lado do fotógrafo Beto Oliveira.

No segundo livro, “Nau à deriva - o teatro em Uberlândia , de 1907 a 2011” (Assis Editora, 2012, 207 páginas) há uma relação de afeto, principalmente olhando agora, com algum tempo de distanciamento. A pesquisa o levou a conhecer muitas histórias. “Depois do livro lançado percebi que ainda havia muito que eu não conhecia e as pessoas voltaram a me procurar para contar suas hostórias. Outras se surpreenderam com o volume do livro cujo tema imaginaram que não daria um folhetim. Gostaria de fazer uma versão revista e ampliada dele”, adiantou ele que mesmo sendo figura atuante no teatro local não foi personagem no livro. 

E enquanto pesquisa, Carlinhos não deixa de trabalhar e também valorizar pratas da casa. Entre as peças que trouxe à cidade tem “Dorotéia”, de Jorge Farjalla, diretor radicado no Rio mas que construiu sua carreira em Uberlândia. Outro projeto que ainda é um sonho para este ano é “Boca de Ouro” com a atriz Uberlandense Lavínia Pannunzio. “É tanta coisa interessante acontecendo como a peça ‘Suassuna - O Auto do Reino do Sol” que já conta com mais de 50 indicações a prêmios e quero muito trazer pra cá”, disse o produtor que afirma que a falta de conhecimento cultural do público ainda dificulta muitas produções. 

Sobre o momento pelo qual a arte passa no País ele tem um olhar otimista. “Faz parte da arte questionar e não devemos ver um espetáculo como se fosse de esquerda ou de direita. Hoje em dia todo mundo se acha especialista em tudo e é preciso saber filtrar melhor o que passa por nossas timelines”, comentou.

Sobre produzir o próprio espetáculo ou atuar, Carlos não descarta a ideia, mas com sua autocrítica, afirma que só o realizaria se estivesse confortável e seguro. “Tenho muito respeito por dramaturgos, autores, atores, historiadores, não entraria nesse campo se não fosse para fazer algo próximo ao que os melhores fazem por isso, por hora, fico com os bastidores”.
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