10/10/2017 às 16h53min - Atualizada em 10/10/2017 às 16h53min

Vegetarianismo: entenda o estilo de vida

Crescimento de dietas sem carne segue tendência mundial; lançamento de produtos veganos cresceu 150% na Europa

AGÊNCIA BRASIL | BRASÍLIA
De 8% a 9% dos brasileiros se declaram vegetarianos ao IBGE / Foto: Angelo Cesare via VisualHunt

 

Cada vez mais, a população vem aderindo à dieta vegetariana, seja por opção nutricional ou por adoção ao estilo de vida. Há quem seja contrário ao sofrimento dos animais, quem queira adotar uma dieta mais leve, quem seja alérgico à proteína da carne, ou faça a opção por motivos religiosos.

A dieta vegetariana difere da dieta onívora, em que a base da alimentação são os vegetais e animais, em vários aspectos. De acordo com a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), o vegetariano pode ou não ingerir alimentos derivados de animais. Na dieta vegetariana, encontramos subdivisões, como a vegana, a lacto-vegetariana, a ovo-lacto-vegetariana, a ovo-vegetariana, a crudívora (só ingere alimentos crus) e a frugívora.

Segundo o coordenador jurídico da SVB, Ulisses Borges, em 2013, de 8% a 9% dos brasileiros se declaram vegetarianos ao Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística (IBGE). Dados do Instituto Ipsos - empresa de pesquisa e de inteligência de mercado - reforçam que 28% dos brasileiros têm procurado comer menos carne. Ele destaca que há valores éticos e filosóficos tanto para fundamentar a dieta vegetariana quanto para uma não vegetariana.

O crescimento desses tipos de dieta no Brasil acompanha uma tendência mundial. Segundo a SVB, na Europa, por exemplo, 14% de todos os novos produtos lançados em 2015 são vegetarianos ou veganos. De 2013 a 2015, o lançamento de produtos veganos cresceu 150% no continente. Nos supermercados brasileiros também já é possível encontrar muitas versões veganas de produtos cárneos ou lácteos, como nuggets, presuntos, quibes, coxinhas, salsichas, linguiças, sorvetes e requeijões.

Borges explica que o tema tem entrado na agenda de debates sociais. A primeira tese de doutorado já apontava a inviabilidade de se acabar com a fome no mundo por meio da carne. “No século 19, uma inglesa queria fazer Medicina, a Universidade de Londres não a aceitou, porque era mulher. Ela foi admitida em uma universidade na França como a primeira mulher a fazer Medicina. Foi na Universidade de Sorbonne que ela se doutorou com uma tese sobre vegetarianismo”, conta. Ele explica, ainda, que recentemente a ciência evoluiu para um conceito de que os animais são seres sencientes, seres que têm uma consciência menor do que a humana, mas interagem com o meio.

 

POPULAÇÃO

Os últimos dados divulgados sobre a população vegetariana no Brasil, de 2012, mostram que a porcentagem de homens e de mulheres nessa situação no Brasil é a mesma: 8%. O índice se altera conforme a idade, aumentando entre as pessoas de 65 a 75 anos. Nesse grupo, o percentual chega a 10%. Já entre os jovens de 20 a 24 anos, o percentual é ligeiramente menor (7%), assim como entre homens e mulheres de 35 a 44 anos.

A cidade onde encontramos mais vegetarianos é Fortaleza, no Ceará, onde cerca de 14% da população afirmou ser vegetariana, maior percentual entres as capitais e regiões metropolitanas pesquisadas. Em seguida, vem Curitiba, no Paraná, com 11% de seus moradores adeptos ao vegetarianismo. Já Brasília, Recife e Rio de Janeiro têm 10% da população vegetariana. Em Belo Horizonte, o percentual é de 9%.

Um levantamento vegano não oficial é o Mapa Veg – projeto iniciado em Brasília com o objetivo de receber cadastros de vegetarianos do Brasil todo. Mais de 5 mil pessoas já se cadastraram. O site da SVB também reúne dados sobre o vegetarianismo e o veganismo no mundo. No Canadá, por exemplo, 33% da população ou é vegetariana ou tem procurado reduzir o consumo de produtos de origem animal, segundo a Vancouver Humane Society. De acordo com a pesquisa, 8% da população canadense se identificam como vegetariana e 25% alegam que busca consumir menos carne.

Nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 5% das pessoas sejam veganas, vegetarianas ou adotem uma dieta mais baseada em peixes e frutos do mar. Os dados de 2015 são do instituto independente Chatam House – Royal Institute of International Affairs, de Londres.

Ainda nos EUA, cerca de 50% dos vegetarianos, aproximadamente 16 milhões de pessoas, se declararam veganos em pesquisa recente do Instituto Harris Interactive. No Reino Unido, cerca de 33% dos vegetarianos se declararam veganos, segundo o Ipsos MORI Institute. Não há dados oficiais no Brasil sobre o número de veganos.

 

 

NUTRIÇÃO

É possível ter dieta balanceada sem carne

De acordo com a nutricionista Shila Minari, o termo vegetariano, por si só, designa o indivíduo que não consome carne, mas existem variações na dieta. “A gente pode ter o vegetariano estrito, que não come nada, nem derivados, o ovo-lacto-vegetariano, que ainda consome ovos e laticínios e a gente tem os veganos, que não consomem nenhum tipo de alimento ou aditivo de origem animal. Os veganos também não consomem produtos como roupas, acessórios, cosméticos, feitos com substâncias de origem animal ou testados em animais”, explica.

Sobre os aspectos nutricionais da dieta, Shila explica que os vegetarianos podem ter uma alimentação balanceada e saudável. “Do mesmo jeito que uma pessoa que come carne pode fazer escolhas alimentares erradas e ter problemas, pessoas vegetarianas também podem ter problemas”, alerta. A nutricionista aconselha a inclusão de leguminosas e fontes de proteína não animal na alimentação, inclusive suplementos quando necessário. “Quem come carne acha que, de uma forma geral, está suprindo todas as necessidades comendo carne e quem é vegetariano se preocupa mais em tentar incluir vegetais na alimentação e só isso já deixa a alimentação mais saudável e equilibrada.”

A nutricionista explica que suplementos de vitamina B12 muitas vezes são necessários para os vegetarianos. Esta é a única vitamina que não se consegue suprir com esse tipo de alimentação.Para ter uma dieta balanceada e não compensar a falta de proteína animal com outros alimentos pobres em nutrientes, Shila aconselha acompanhamento profissional.

 

 

POLUIÇÃO

Pesquisa aponta impacto no meio ambiente

Pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, analisam o impacto de mudanças alimentares na saúde e no meio ambiente se a humanidade adotasse uma alimentação sem produtos de origem animal. Os resultados do estudo foram publicados na Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. Quatro tipos de dieta foram estudados: uma com hábitos comuns de consumo, a dieta onívora recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a vegetariana e a vegana.

A pesquisa aponta que com a dieta vegetariana as emissões de gases poluentes ligadas à produção de alimentos cairiam 60%. Caso o mundo todo se tornasse vegano (livre de qualquer produto de origem animal), a porcentagem aumentaria para 70%. Uma menor queda, de 29%, é observada na dieta onívora recomendada pela OMS.

 

AÇÕES

A Sociedade Brasileira de Vegetarianismo (SBV) criou um selo para certificar os produtos veganos vendidos nos supermercados do país. Hoje já existem mais de 230 produtos certificados de 27 empresas diferentes à venda no País. 

O veganismo se baseia na Declaração Universal dos Direitos dos Animais, feita pela Unesco nos anos 70, condenando o abuso e exploração de quaisquer produtos que tenham origem animal. Eles não consomem roupas e acessórios de couro, pele, lã, seda, por exemplo. Além dos veganos não consumirem alimentos de origem animal, eles não usam nada proveniente ou testado nos bichos.

Os produtos veganos têm ganhado força nos mais diversos setores, como cosmético, alimentício, produtos de limpeza, produtos para pets e até matérias-primas, como é o caso de uma marca brasileira que usa a mandioca para substituir o plástico, totalmente eco-friendly: a CBPak, situada no estado de São Paulo. A empresa aproveita amido de mandioca para criar copos e bandejas de plástico.

Para ser ética com os animais e com o meio ambiente, uma marca vegana ou eco-friendly precisa verificar se toda a cadeia produtiva está de acordo com seus princípios. 


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