26/03/2018 às 13h41min - Atualizada em 26/03/2018 às 13h41min

Coerência

ALEXANDRE HENRY ALVES | COLUNISTA

Coerência é a ligação harmônica entre dois fatos ou duas ideias, segundo o dicionário. Em minha opinião, é também a ligação harmônica entre o discurso e a prática, representando um dos valores que eu mais prezo no ser humano. Quem é coerente é honesto e transparente em relação às suas convicções e interesses. Não digo que a pessoa é honesta no sentido de ser proba, de agir de acordo com as leis e valores sociais, mas apenas que ela não tenta esconder, sob o manto de que está defendendo ideias coletivas ou interesses sociais, causas que na verdade não passam de defesas mesquinhas de interesses próprios.

O problema é que é muito difícil ser coerente, a não ser que você opte pelo – nada fácil – caminho de admitir que tudo o que você faz é pensando em si mesmo. Fora dessa postura assumidamente egoísta, ser coerente é um desafio porque, quase sempre, implica em renunciar a interesses próprios em nome do bem comum. Os exemplos são inúmeros: defender um meio ambiente mais saudável, com melhor qualidade do ar que respiramos, mas usar o carrão todo momento, até para ir à padaria na esquina; descer a lenha na classe política brasileira, mas esconder mercadorias na volta de uma viagem ao exterior só para não pagar o imposto de importação; reclamar do preço da passagem de ônibus e rabiscar o assento desse mesmo ônibus; defender um sistema de ensino mais eficiente e brigar com a professora que chamou a atenção do seu filho etc. Acho que daria para passar meio século só dando exemplos.

A contradição entre o que a maioria das pessoas fala e o que a maioria das pessoas faz é assustadora e está presente a todo instante. A razão? Manter um discurso egoísta é muito arriscado, pois a sociedade condena de todas as formas quem defende apenas seus próprios interesses. Por isso, o mais comum é a pessoa construir um discurso, mas ir em outra direção quando vai agir, pois seguir esse discurso significa renunciar a benefícios pessoais das mais diversas categorias.

Repito: eu admiro a coerência. Em regra, quem é coerente prima pelo sentimento de justiça e age em seu favor.

Ainda dentro do mesmo tema, deixe-me mudar um pouco o foco, já que eu estava pensando em outra coisa quando iniciei este texto. O que me motivou a escrever sobre coerência foi o comportamento de algumas pessoas, dentro de grupos de minorias, que acaba enfraquecendo seus próprios discursos. Outro dia, vi uma postagem no Facebook de uma pessoa que tem um discurso interessante contra a discriminação sofrida pelos negros e pelas pessoas mais pobres. Nessa postagem, em cinco linhas, tal pessoa destilou tanto preconceito contra um casal de brasileiros no exterior que fiquei horrorizado. Os comentários que fez, a partir da visão desse casal entrando em um restaurante com uma criança pequena, mesmo sem que ela conhecesse ninguém ali, deixaram claro que ela carrega tanta discriminação e preconceito quanto as pessoas que são alvos frequentes de sua luta por menos discriminação e preconceito.

Isso acontece com uma frequência gigantesca entre as minorias e também virou objeto das minhas reflexões, já que não me contendo em ver a realidade e quero, muitas vezes sem sucesso, entender as razões por trás do que está acontecendo. O fato é que, a meu ver, especialmente na era das bolhas de informação, há pessoas que se fecham em círculos de minorias, as quais são há séculos alvo das mais terríveis discriminações, e acabam adotando o ataque como postura de defesa, reagindo de forma agressiva a tudo o que é de fora. E, nessa reação irrefletida, cometem os mesmos erros que condenam: fazem julgamentos precipitados, divulgam ideias ou conceitos generalistas e difamantes, criam rótulos abomináveis e reduzem tudo o que é contrário a um único estereótipo.

O grande problema disso tudo é a perda da credibilidade do discurso. Se você defende que é errado dizer que determinado comportamento é coisa de preto, e é errado mesmo, não pode dizer que aquele outro comportamento é coisa de branquelo ou da classe média “nojenta e conservadora”. Essa perda da credibilidade do discurso está ligada à perda da coerência de que eu falava. Se eu digo que não é certo alguém me condenar só por conta da minha orientação sexual, eu não posso condenar a outra pessoa só porque ela tem um carro X ou Y. Caso contrário, não estarei defendendo a ideia de que preconceitos são ruins, mas apenas o meu direito de não ser alvo de discriminação, enquanto continuo generalizado os outros de forma discriminatória. Enfim, coerência é tudo, em todo e qualquer lugar. Aliás, vamos resumir assim: a coerência é uma das manifestações mais fortes de um bom caráter, enquanto a sua ausência demonstra justamente o contrário.
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