01/07/2022 às 14h30min - Atualizada em 01/07/2022 às 14h30min

Em Uberlândia, mais de 56 mil famílias vivem com apenas um salário mínimo

Dados do Ministério da Cidadania revelam ainda que 14,3 mil lares enfrentam situação de extrema pobreza no município

IGOR MARTINS | DIÁRIO DE UBERLÂNDIA
O baixo orçamento destas famílias impõe obstáculos que dificultam principalmente a possibilidade de ter uma alimentação adequada | Foto: Agência Brasil
Aos 70 anos, tendo que conviver com problemas de coluna e desgaste no joelho, a assistente de cozinha Adenir Maria Barbosa já não tem a mesma disposição para o trabalho. A idosa vive na periferia de Uberlândia, em um barracão no bairro Dom Almir. Mesmo com a idade avançada, não tem escolha a não ser continuar em atividade para garantir o sustento dela e do neto, de apenas três anos, que ela cria sozinha. Além das necessidades básicas do lar, o tratamento da pressão alta e do diabetes exigem dela um gasto mensal de R$ 500 por mês com medicamentos. O orçamento da casa: apenas um salário mínimo. 

A realidade de dona Adenir é semelhante à situação vivenciada por 56 mil famílias de Uberlândia. De acordo com dados do Ministério da Cidadania, 56.320 famílias da cidade cadastradas no sistema CadÚnico, vivem somente com até um salário mínimo. Entre elas, 14.360 encontram-se em situação de extrema pobreza e outras 7.562 enfrentam situação de pobreza. 

O baixo orçamento destas famílias impõe obstáculos que dificultam principalmente a possibilidade de ter uma alimentação adequada. No caso de dona Adenir, por exemplo, ter uma fruta em casa é uma raridade. “As coisas foram apertando, meu neto tem três anos, então precisava de leite, fralda, e tudo vinha de doação. Deus vai abençoando que vai dando tudo certo. A água vem R$ 40, a energia é mais de R$ 100. Tem meses que nem verdura eu consigo comprar. Fruta nem existe no cardápio, é realmente muito difícil”, contou.

A situação de Janette Ramos dos Santos, 61 anos, não é muito diferente. A idosa, que atua como voluntária no SOS Dom Almir, local que oferece marmitas aos mais necessitados, mora de favor com a filha e o genro e tenta contribuir da maneira como pode, geralmente com cesta uma básica que ela recebe mensalmente como ajuda da ONG em que trabalha.

A idosa conta que já teve depressão e precisa de medicamentos para controlar o colesterol, a pressão alta e tratar uma hérnia. A recomendação médica era que ela incluísse na dieta uma fruta ou uma verdura antes de dormir, mas a falta do recurso financeiro faz com que muitas vezes a idosa vá dormir sem o alimento. 

“Muitas pessoas têm os benefícios do Auxílio Brasil, mas nem isso eu tenho. Eu durmo quase todos os dias sem janta, a médica falou para eu comprar fruta e verdura, mas não tenho dinheiro. Ainda bem que eu almoço aqui no SOS Dom Almir, se não seria ainda mais difícil”, afirmou Janette.

 

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SEM GARANTIAS
Sem emprego fixo, dependendo de trabalhos temporários para sobreviver, o nordestino Severino da Silva, natural de Campina Grande (PB), contou ao Diário que veio para Uberlândia com apenas 12 anos de idade, depois de perder toda a família. “Eu não vim sozinho, vim com Deus”, comenta. Aos 72, vive de bicos e conta que nem sempre consegue uma renda suficiente para se manter com mais dois netos.

“Eu limpo quintal, calçada, e vou levando a vida dessa forma. Tem mês que recebo R$ 800, R$ 900, quando recebo bem é uns R$ 1 mil, aí dá para dar uma controlada. Eu pago R$ 450 só de aluguel e em casa eu me viro, faço um arroz com tomate e quando tem ovo fico feliz demais, o mais complicado é quando acaba o gás de cozinha, aí complica um pouco, mas minha vida é assim”, contou Severino.


Com a missão de criar duas filhas e um enteado, a baiana Aline Rodrigues dos Santos, de 42, também precisa se virar com apenas um salário mínimo. Segundo voluntária no SOS Dom Almir, os meses mais “tranquilos” são quando a família recebe doações, especialmente de alimentos. “Quando tem um dinheirinho a mais, eu compro as coisas das minhas meninas”, relatou.

Em entrevista ao Diário, Aline contou que mudou-se para Uberlândia há três anos, após o falecimento do ex-marido em Jequié, sua cidade natal. Com apenas R$ 1.212 por mês, ela é obrigada a dividir o orçamento entre o aluguel (R$ 450), a energia, a conta de água e o supermercado, que precisa ser suficiente para alimentar quatro pessoas. Há dois meses, a casa onde mora está sem eletricidade por que ela não conseguiu colocar as contas em dia.

“O que nos salva muitas vezes são as refeições que faço aqui [SOS Dom Almir], porque almoço e ainda levo para a janta. Está difícil até mesmo para comprar um ovo. Uma das minhas filhas me ajuda aqui, porque precisamos ter alguma coisa. Está tudo muito caro, você quer comer alguma coisa e não consegue, ir ao mercado está muito difícil”, falou.

CESTA BÁSICA
Um levantamento divulgado pelo Centro de Estudos, Pesquisas e Projetos Econômicos-Sociais (Cepes) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em abril, mostra em números a dificuldade que é viver com apenas um salário mínimo em Uberlândia. 

De acordo com o estudo, o gasto médio com a Cesta Básica de Alimentos (CBA) na cidade atualmente gira em torno de R$ 667. O valor compromete mais de 55% do salário mínimo atual, que é de R$ 1.212.

Para se ter uma ideia, em apenas um ano, o valor da cesta, que é composta por 13 itens, subiu mais de 20% em Uberlândia. A pesquisa, feita em abril, mostrou que o gasto com os alimentos básicos na cidade é maior do que em sete capitais brasileiras.

Conforme aponta o levantamento, o preço da cesta básica registrado em Uberlândia foi maior do que as seguintes capitais do país: Fortaleza (R$ 635), Belém (R$ 585), Natal (R$ 575), João Pessoa (R$ 567), Recife (R$ 561), Salvador (R$ 560) e Aracaju (R$ 524) possuem índices menores do que Uberlândia. 

COZINHA SOLIDÁRIA
A realidade contada até aqui é algo que as cozinhas solidárias de Uberlândia vivenciam diariamente. Em entrevista recente ao Diário, a coordenadora do SOS Dom Almir, Eliane dos Santos Lopes, disse que a procura por marmitas subiu 70% neste ano, saltando de 700 para 1.200 refeições diárias. O Diário trouxe uma reportagem sobre o assunto na última semana. 

A cada dia que passa, uma nova família chega com dificuldades financeiras e sem ter o que comer. Eliane, que vive em Uberlândia há 26 anos, contou que o espaço serve mais de 100 kg de arroz todos os dias. “A situação está muito precária. É muita gente que aparece dizendo que os filhos não comeram no dia anterior. Uma mãe disse que precisou dar água com açúcar para o filho porque não tinha leite em casa. A inflação afetou muito a população, que já vivia em situação de vulnerabilidade. É pior do que muita gente imagina”, detalhou a cozinheira.

As doações são bem vindas. “Quem quiser ajudar pode vir diretamente na cozinha ou pode nos avisar pelo telefone (34) 99674-6910 que fazemos a retirada. As pessoas vêm até aqui porque elas têm necessidade. Tem bebê que nasceu durante a pandemia e nunca comeu uma fruta, porque a família não tem condições de comprar”, disse.

O SOS Dom Almir fica localizado na rua João Costa Azevedo, 269, no bairro Jardim Prosperidade.

POBREZA E FOME
Um levantamento divulgado recentemente pela Rede Brasileira em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), mostrou que mais de 30 milhões de pessoas no Brasil não têm o que comer. Segundo o estudo, apenas quatro de cada 10 domicílios conseguem manter o acesso pleno à alimentação, ou seja, em condição de segurança alimentar. Os outros seis lares se dividem numa escala, que vai dos preocupados com a possibilidade de não ter alimentos no futuro até os que já passaram fome.

Segundo o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), plataforma que propõe e executa políticas públicas em mobilidade social, o valor considerado no enquadramento da pobreza em áreas urbanas da região sudeste é de R$ 309,82. Já para a extrema pobreza, a quantia é de R$ 154,91. Com relação à área rural, as taxas consideradas são de R$ 262,76 e R$ 131,38, respectivamente.

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