28/01/2022 às 19h01min - Atualizada em 28/01/2022 às 19h01min

Uberlândia tem aproximadamente 1,4 mil pessoas morando na rua

Estimativa é do Fórum Permanente das Pessoas em Situação de Rua; programa de assistência da Prefeitura realiza atendimentos de apoio in loco

SÍLVIO AZEVEDO
A pandemia da covid-19 fez com que o índice de pessoas vivendo nas ruas de Uberlândia registrasse um crescimento de 100%. De acordo com uma estimativa do Fórum Permanente das Pessoas em Situação de Rua de Uberlândia, a cidade tem atualmente 1.400 cidadãos nessa condição, o dobro da quantidade que era percebida antes do coronavírus.
 
De acordo com o presidente do presidente do Fórum Permanente das Pessoas em Situação de Rua, Jack Albernaz, a estimativa considera uma análise de dados repassados por grupos que fazem a distribuição de alimentos para essas pessoas. “Estamos em sintonia com vários grupos de voluntários, religiosos, ONGs, que desenvolvem projetos com pessoas em situação de rua. Se antes entregavam 100, hoje passaram pra 200, 250 refeições. Isso quando é um grupo pequeno. Há um aumento considerável no número de pessoas que é visível. A gente vê olhando o número de pessoas na cidade esse aumento, e o tanto de gente que procura as instituições em busca de ajuda”, disse Jack.
 
O presidente do Fórum lembrou que o problema não atinge apenas os migrantes de outros estados, mas também os estrangeiros que desembarcam na cidade fugindo os problemas econômicos dos seus países de origem. “Também complicou a questão dos migrantes, sobretudo de venezuelanos, que é um aumento de indicativo. São vários casos que tentamos ajudar, mas temos encaminhado para outras entidades assistenciais que atendem os imigrantes”, afirmou.
 
Segundo o professor do curso de Serviço Social da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Flander de Almeida Calixto, existe um desaquecimento na vida produtiva do brasileiro nos últimos 10 anos, que reverte no empobrecimento da população.
 
“O morador de rua é uma pontinha do iceberg de um problema muito maior do que esse. As pessoas sem trabalho, ou o que tem é insuficiente para se reproduzir como um cidadão digno, elas vão cada vez num nível de qualidade de vida até não ter mais onde morar”, destacou.
 
Ainda de acordo com Flander, o problema não é exclusivo do Brasil ou de Uberlândia e tem sido gerado por um modelo econômico inadequado de desenvolvimento. “Temos um problema no mundo em que o rentismo, aquele dinheiro gerado, não pelo trabalho, mas pela especulação. O nome na economia chama financeirização econômica. Ele gera todo esse amplo problema. O morador de rua é fruto desse conjunto maior, macroeconômico, de produção de desigualdade social”.
 
Para o professor, a solução para um problema tão amplo passa por políticas públicas de desenvolvimento econômico mais eficazes baseado na cooperação. “A cooperação poderia funcionar, desde que, nós tivéssemos uma política de desenvolvimento. Nós não temos visto isso hoje. Isso que vimos dos primeiros anos do último governo, não temos nenhuma mudança no quadro. Esse 1%, 2% que dizem que melhorou, não está, porque eles trabalham com números manipulados. A evidência disso é o número de moradores de rua, sinaleiro cheio de subemprego. As pessoas estão vendendo balinhas, bombom, porque as pessoas estão morrendo de fome. Isso é fato. Não há projeto para mudar isso”, destacou.
 
APOIO
Quem conhece bem a realidade das ruas é a voluntária na ONG Anjos das Ruas, Camila Kalil, que distribui alimentos aos moradores desassistidos. “A gente já faz esse trabalho há mais ou menos oito anos. Acompanhamos de perto o fluxo dessas pessoas na nossa cidade. O que percebemos muito é que, de fato, as pessoas estão se diversificando no sentido de que os rostos que vemos por aí são cada vez mais desconhecidos”, revelou.
 
Se antes os rostos eram conhecidos, assim como nomes e suas histórias, segundo Camila, durante a pandemia essa situação vem mudando. “Desde que a pandemia começou temos visto que esse público tem se diversificado muito. As pessoas estão passando mais por Uberlândia, ficando cada vez mais transitórios, não ficando nos mesmos lugares. Acabamos vendo muitos andarilhos e isso tem aumentado consideravelmente”.
 
A ONG Anjos das Ruas realiza a distribuição de marmitas todas as terças-feiras e as rotas, por onde os voluntários passam, são as mesmas, dentro dos bairros, oferecendo mais dignidade para esses moradores. “Atendemos uma capacidade que a gente consegue. Fazemos semanalmente 130 marmitas que são distribuídas por uma rota fixa, atendendo grande parte das pessoas de sempre. O que acontece é que eventualmente encontramos esses moradores transitórios entre um lugar e outro que a gente passa e distribuímos a eles”, disse Camila.
 
CONSULTÓRIO DE RUA
A cidade de Uberlândia conta com um serviço de atendimento e assistência a essa população de rua. O programa, intitulado de “Consultório na Rua”, chegou a ser
desativado em novembro de 2019 pela Prefeitura, conforme mostrou o Diário em reportagem exclusiva em junho de 2020.
 
Após uma ação encabeçada pelo Ministério Público Federal (MPF), o programa foi
retomado em agosto de 2021. No entanto, em entrevista ao Diário nesta semana, o presidente do Fórum Permanente das Pessoas em Situação de Rua de Uberlândia, Jack Albernaz, disse que o veículo que realiza os atendimentos está quebrado.


 
“Desde 18 de janeiro o carro que atende o programa Consultório de Rua está quebrado. Sem esse veículo não tem como eles exercerem os trabalhos de visitações nos pontos onde estão as pessoas em situação de rua. Ao que me parece a PMU não disponibilizou outro veículo pra isso. A equipe está parada na UBS do Lagoinha, realizando serviço administrativo e atendimentos, e quem está na rua está esperando”, disse Albernaz.
 
A reportagem procurou a Prefeitura de Uberlândia, que confirmou que o veículo está passando por uma manutenção, mas que o serviço continua sendo prestado com a utilização de um outro carro. “De fato o veículo precisou de manutenção preventiva, mas um novo foi colocado à disposição. Os atendimentos não foram afetados e continuam sendo feitos por outros profissionais, já que temos uma equipe multiprofissional”, disse a enfermeira do programa, Jessica de Souza Ferreira Oliveira.
 
Ainda segundo a profissional, somente essa semana, o Consultório na Rua percorreu diversos pontos da cidade atendendo cerca de 15 pessoas. “Somente nesta quinta (27) estivemos nas proximidades da UAI Planalto, Rua da secretaria, Terminal Central e nas praças Nicolau Feres e da Bíblia (ambas no bairro Martins), onde atendemos 10 pacientes. Nos dias anteriores, as equipes da retaguarda, como assistente social, foram atrás de cinco famílias”, destacou.
 
Desde que o programa foi reformulado, há seis meses, passou a ser gerido pela organização social Missão Sal da Terra, alcançando 1.319 pessoas em situação de rua e realizando 160 atendimentos médicos, 536 consultas de enfermagem, curativos e outros, além de 382 registros de serviço social e 207 de psicologia.

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