31/08/2020 às 09h05min - Atualizada em 31/08/2020 às 09h05min

Uberlândia e o escritor

IVONE GOMES DE ASSIS
Escolhi a Literatura como profissão, e ela escolheu a mim como parceira. Trata-se de um amor com responsabilidade. E para ser um bom escritor, isso não foge às regras. Exige-se muita leitura, rascunho, dedicação e persistência. Escritor que não lê é como piloto com medo de altura.

Em agosto de 1989, cheguei a Uberlândia, com a mala em uma mão e um livro na outra. Os olhos estavam curiosos em saber o que havia do lado de fora da janela. Encontrei a poesia que se traçava em versos em uma cidade cheia de praças e jardins. A literatura foi me ajudando a alinhavar o empreendedorismo, o design gráfico e a escrita para a formação do universo da escrita que habita em mim.

Uberlândia é uma cidade com escritores, editores, faculdades, jornais, empresas de comunicação e afins, um espaço perfeito para a germinação do livro. Esse mundo da escrita, aqui, só não é mais favorável devido ao fraco incentivo literário ofertado. É como se tivéssemos um ninho cheio de ovos, porém sem a ave para chocá-los.

O município conta com um número expressivo de autores, nos mais diversos gêneros. Com o advento da tecnologia, do livro digital e da propagação das gráficas de pequenas tiragens, o número de autores aumentou significativamente. Apesar disso, continuamos a esbarrar no baixo investimento intelectual, promocional e cultural, em todas as esferas do livro.

Os escritores uberlandenses vão de pesquisadores, biógrafos a romancistas e contistas, com forte predominância nos gêneros: acadêmico, poesia, infantil e autoajuda. Todas as áreas são contempladas, algumas com mais e outras com menos atuação. No entanto, a falta de incentivo nas vendas e na promoção da obra leva o autor a caminhos de desilusão.

Alguns autores têm vários títulos publicados, embora a maioria fique em publicação única. Destes com vários títulos, há que se separar os autores com tiragens de mercado e aqueles que imprimem apenas exemplares para acervos próprios ou aquilo que podemos chamar de satisfação do ego, que variam de 1 até 50 exemplares. Outros optam por apenas livros digitais, apesar de este ainda ser um “buraco negro”.

Fica difícil mensurar o mercado livreiro dos autores locais quando se trata de analisar e/ou quantificar títulos e mensurar o alcance dos leitores, uma vez que o campo de apoio ou a zona de consumo não acompanham o mesmo ritmo da produção.

A pouca circulação da produção de livros nacionais é um problema que afeta todo o país, sobretudo Uberlândia. O município é desprovido de ações de peso que promovam esse aquecimento, provocando a falta visibilidade da nossa literatura. Consequentemente, faltam ações de incentivo ao mercado editorial.

Não basta ter excelentes editoras e autores, fazem-se necessárias ações com gatilhos de circulação do livro local, promoção dos autores, alcance dos leitores... Livro é um produto importante, que gera conhecimento, bem como sua cadeia produtiva gera impostos e empregos, isto é, o livro movimenta o mercado financeiro. A sociedade, em sua maioria, ainda não acordou para a importância do livro enquanto produto. Diversos autores ainda estão em dormência quanto ao valor do seu produto e quanto à exigência de profissionalização, para que se tenha um conteúdo sustentável de qualidade.

As políticas públicas se concentram na publicação e esquecem-se da circulação. O livro engloba não apenas o custo de produção, mas também o valor do capital intelectual dos autores e a demanda da divulgação, para que o livro seja alcançado pelo leitor. Muito se fala em hábito de leitura, mas a maioria dos compradores de livros se ancora em três pilares: 1) porque o autor é famoso; 2) porque se sente na obrigação da compra; 3) porque “sente pena”, então pratica a “boa ação da compra”. A propagação do livro com base nos itens 2 e 3 está fadada ao fracasso; o livro, nestes casos, é uma espécie de morte de recém nascido. Uma sociedade que almeje ser classificada como culta deve consumir livros porque tem fome de conhecimento, não porque se sente na obrigação de fazê-lo.

Uma divulgação assistida pelo Município ou pelo Estado seria um dos maiores incentivos. Isso pode ocorrer por meio da compra de um percentual das obras, ou por políticas de promoção dos livros, em parceria com as escolas, ou permutas intermunicipais, para divulgação dos autores.

Outra forma de incentivo seriam os editais para as editoras locais. Ou gerando ferramentas de propagação das obras junto à mídia, à sociedade e às escolas, a fim de influenciar o leitor e valorizar o mercado livreiro.

Segundo o escritor Antonio Bosco de Lima são dois pontos: 1) Falta de promoção 2) Falta de investimento. “O livro tem a mesma característica de uma mercadoria, apesar de ser ‘sui generis’, com seu grau de abstração e sensibilidade, embora seja algo concreto. Então, o grande problema é a falta de um canal de distribuição e divulgação. A divulgação pode ser orquestrada pela Prefeitura, pela Universidade e afins, exigindo mais empenho. Uberlândia tem excelentes autores. O mercado empreendedor também é muito carente, seria valioso que um grupo de empreendedores se unisse neste objetivo”. 

Alguns dos nomes que compõem o mercado editorial de Uberlândia, hoje, são: H.J. Ammaral, Antônio Marciano, Rogério Silva, Ivan Santos, Mônica Cunha, Ademar Inácio da Silva, Lucilaine de Fátima, Guilherme de Freitas, Odival Ferreira, Roberto Alves, Fernando Borma, Elba Silva, Carlos Roberto, Panmela Tadeu, Regma dos Santos, Rossana Spacek, Bosco de Lima, Carlos Guimarães, Antônio Wadson, Tair Barbaresco, Luiz Duarte, Márcio Alvarenga, Oscar Virgílio, Antônio Pereira, Kênia Maria, Eni de Freitas, Dennys Xavier, Leda Gonzaga, Flávio Andrade, André Alvim, Lionizia Goyá, Samuel do Carmo, Karolina Cordeiro, Heliene Rosa, Rosi Ferreira, Judith Vilella, Dalva Pietá, Genilson Floriano... Enfim, eu poderia citar aqui mais de duzentos nomes, sem titubear. E onde estão essas obras? Quem está promovendo esses autores? Quem são seus leitores? É um espaço muito pequeno atribuído ao autor, em um município com mais de 700 mil habitantes.

O livro é um produto para o turismo de negócios, para a cultura popular, para os empreendimentos acadêmicos, para a educação, para o setor de saúde... Desse modo, podemos dizer que o livro é o “chá para todos os males” sem contra indicação. Uberlândia brilha em seus 132 anos com a alegria de contar com, pelo menos, três autores para cada ano de vida e progresso.




 

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