30/03/2020 às 15h27min - Atualizada em 30/03/2020 às 15h27min

Prefeitura reforça necessidade de isolamento social em Uberlândia

Membros do comitê municipal advertem sobre pico da epidemia do novo coronavírus nas próximas semanas

CAROLINE ALEIXO E SÍLVIO AZEVEDO
Entrevista coletiva foi realizada na Prefeitura de Uberlândia no final da manhã (30) | Foto: Valter de Paula/Secom/PMU
Durante entrevista à imprensa nesta segunda-feira (30), representantes da Prefeitura de Uberlândia e do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 endureceram o discurso a favor do isolamento social na cidade como principal medida para prevenir a disseminação do novo coronavírus. Além disso, reforçaram sobre as ações adotadas para viabilizar testes mais efetivos no município.

O médico infectologista Marcelo Simão, do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), defendeu que o momento é crucial para evitar o convívio social diante ao pico da epidemia que está previsto para as próximas semanas.

Simão ainda citou como exemplo a situação em Milão, na Itália, cujo prefeito reconheceu na última semana ter errado ao ignorar a medida de isolamento e a cidade já ter registrado mais de 5 mil óbitos por Covid-19. O discurso também é contrário ao do presidente Jair Bolsonaro, que defende o chamado isolamento vertical, a reabertura do comércio e o pleno funcionamento de instituições de ensino.

“Somos totalmente contra a opinião do presidente da República porque neste mês de abril teremos aqui no Brasil e também nos EUA um pico da epidemia. Então os locais têm que estar fechados para evitar que essa doença se dissemine. Pessoas estão morrendo e a rede pública e privada não suportarão o número de pacientes que surgirão caso o isolamento seja cancelado. O isolamento vertical [mantendo apenas idosos em casa] não funciona”.

O especialista ressaltou que o isolamento tem que ser horizontal especialmente nas próximas quatro semanas, permanecendo o comércio fechado e apenas os serviços essenciais funcionando como supermercados, farmácias e setor de alimentação. Veja aqui quais são os estabelecimentos que ofertam serviços e produtos essenciais e que estão autorizados a funcionar em Uberlândia.  


TESTES
Outro assunto tratado na coletiva foi quanto à realização dos testes para detectar o vírus nos pacientes considerados suspeitos. Atualmente, a cidade conta com 10 casos confirmados da enfermidade e mais de 1 mil suspeitos. Mas com a demora em liberar os resultados e a falta de kits  para a coleta de material, os dados são divulgados sempre com atraso ou sequer os pacientes são analisados.

“Espero que a população siga as diretrizes que estamos providenciando para toda a cidade. Nós estamos viabilizando testes de diagnósticos e isso é o mais importante porque nós vamos saber como está a situação aqui na nossa cidade. Quantas pessoas estão infectadas? O pessoal que está nas UAIs, nas UTIs, quantos deram positivo? Nós estamos tendo epidemia de influenza junto e dengue. Quem está com o quê? Nós não sabemos”, comentou Marcelo.

A falta de testes ocorre pela alta procura e falta de insumos para a produção. Inicialmente, apenas três laboratórios brasileiros estavam autorizados a realizar os exames e agora outros foram credenciados, incluindo Uberlândia.  

Médico Marcelo Simão esclareceu sobre a importância do isolamento horizontal e manutenção de comércio fechado | Foto: Valter de Paula/Secom/PMU

O Município está fazendo parcerias com laboratórios para se ter uma ideia mais real do cenário epidêmico na cidade. “Provavelmente temos muito mais do que 10 pessoas [casos confirmados] e essas pessoas têm contato com várias outras. Se tivermos os testes, as pessoas serão isoladas e o vírus não prolifera”, acrescentou o médico.

A Prefeitura também está tentando providenciar testes rápidos indicados pelos médicos, que estão sendo produzidos nos Estados Unidos, e que podem auxiliar na detecção.

CLOROQUINA
Questionado sobre o tratamento para a Covid-19 com uso de cloroquina – medicamento utilizado para tratar doenças como malária e lúpus - o médico afirmou que a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) já está providenciando a compra do produto, mesmo ainda em fase de testes e pesquisas.

“Pesquisas demonstram que o vírus é sensível à cloroquina e ela está sendo testada nos EUA e nos países europeus. Aqui, a Anvisa já recomendou o uso da hidroxicloroquina para pacientes em estado grave. De 80 pacientes na França, um trabalho mostrou uma taxa de 93% de cura, pacientes graves. Toda droga tem efeitos adversos, mas são efeitos controláveis. Evidentemente já está sendo providenciado pelo secretário de Saúde para ser utilizado nas unidades de saúde de Uberlândia”.

Secretário de Saúde fala sobre situação na rede pública
O secretário municipal de Saúde, Gladstone Rodrigues, informou à imprensa que o novo coronavírus se transmite em velocidade superior ao vírus da influenza. Por isso, a rede de saúde está sendo reestruturada para poder atender a demanda de internações que devem aumentar nos próximos dias.

Além do Hospital Santa Catarina, que contará com 20 leitos de UTI e outros 60 de enfermaria disponíveis, há mais 21 leitos de UTI e 22 de enfermaria no Hospital do Câncer, mais oito leitos de UTI na UAI Tibery, caso seja necessário reforçar os atendimentos. De toda forma, a determinação é que as pessoas fiquem em casa para diminuir o contágio e não sobrecarregar a rede pública. 

 
“É isso que estamos tentando esclarecer, pedindo ajuda da imprensa, pedindo a colaboração da população para que permaneçam em casa. É um sacrifício? Sim, haverá preocupação com os salários e outras questões econômicas, mas o prefeito já está traçando planos para ajudar essa população que necessite de apoio durante o período, que nós imaginamos que deva ser curto nesse primeiro momento”.

Auxílio ao empresariado local 
Sobre os prejuízos à economia local, o prefeito Odelmo Leão comentou que as estratégias do governo federal, como a liberação de recursos especialmente aos pequenos empresários, poderão ter reflexos positivos para a cidade.

Não foram citadas durante a coletiva medidas pontuais para a cidade para o setor econômico e nem a previsão de queda na receita do Município, no entanto, o chefe do Executivo garantiu que todos os investimentos estão sendo feitos no sentido de combater a epidemia na cidade e equilibrar as contas, dentro do orçamento municipal.

 
“O Município entende que o Governo Federal vai injetar na economia agora R$ 800 milhões em recursos para ajudar os empresários e que vão auxiliar a nossa economia, mas o grande problema do Município é que eu não tenho aqui a Casa da Moeda e nem o Banco Central. Nós estamos fazendo todo sacrifício para poder ter o equilíbrio que estamos mantendo até neste momento”, comentou.

Divergência entre decretos
Ao final da coletiva, o promotor de Justiça de Defesa do Consumidor e membro do comitê, Fernando Martins, esclareceu sobre as diferenciações entre os decretos do Estado e do Município e que acabaram por gerar dúvidas na população.

“Por mais que possa haver algumas diferenciações entres as diretrizes do Estado e do Município, o que nós trabalhamos é com o sistema jurídico. O sistema jurídico ele não é feito somente por um decreto ou por uma disposição legislativa, nós trabalhamos com o todo. O Ministério Público está muito consciente da situação e consciente de que existe uma manifestação nacional de calamidade pública e que existe uma emergência internacional para com a saúde, ou seja, estamos falando em direitos humanos”, frisou.

Martins ainda salientou que o Ministério Público em Uberlândia está atuando junto ao Município de forma preventiva e com base no que estão defendendo os especialistas e cientistas sobre o tema.







 

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