08/04/2019 às 17h11min - Atualizada em 08/04/2019 às 17h11min

Conceito de enoturismo é ampliado

Vinícolas vão além das degustações e passam a oferecer trilhas na mata, voo de balão e até cinema a céu aberto

FOLHAPRESS
Foto: Folhapress/Divulgação

Para acompanhar a evolução de seus vinhos, as fabricantes da bebida na Serra Gaúcha (RS) dão um passo à frente e passam a oferecer novas opções turísticas, além de degustações e visitas às caves.

Agora, as vinícolas agregam ao roteiro clássico do enoturismo atividades como por exemplo passeios de jipe por trilhas de mata virgem, tour de balão, sessões de cinema nos parreirais e wine bar com espaço para piqueniques.

"Essas novas experiências são uma demanda do turista. Ele está mais exigente, quer atividades inéditas", afirma Luiz Carlos Sella, 63, sócio-diretor da vinícola Peterlongo.

Reconhecida por estar numa localização privilegiada, a vinícola Geisse, em Pinto Bandeira, oferece aos turistas uma imersão em seu terroir a bordo de um veículo 4x4. O passeio inclui visita a vinhedos e a áreas de mata nativa de preservação permanente.

A viagem é com emoção. Em grande parte da trilha, a mata é fechada, e o percurso, íngreme. O ápice são as piscinas naturais, onde é feito o primeiro brinde com espumante.

"O passeio surgiu da ideia de mostrar o conceito de terroir, que é a planta, o clima, o solo, o ecossistema e a mão do homem", afirma Daniel Geisse, 41, diretor de marketing.

Após a explicação sobre os diferentes solos da propriedade, a excursão segue para os vinhedos localizados na parte mais alta da serra. Lá há uma nova parada num mirante, onde há uma segunda degustação de espumantes e o encerramento do passeio.

A Geisse também tem um wine bar em seu jardim, onde é possível provar empanadas artesanais chilenas, receita de família do fundador e enólogo da vinícola, Mario Geisse.

Seguindo a linha aventureira, a vinícola Luiz Argenta, em Flores da Cunha, permitirá aos seus visitantes, em datas especiais, como o Dia dos Namorados, a experiência de voar em um balão. "Nosso objetivo é tocar as pessoas para que se sintam mais próximas do nosso vinho e da nossa história", diz Daiane Argenta, 33, diretora de marketing.

Para aqueles que preferem não se arriscar na aventura, o Clô Wine Bar, nos jardins da Luiz Argenta, tem deck com vista para os vinhedos.

A vinícola restaurou um casarão de 1929 da propriedade e fez um espaço que mistura antiga arquitetura e modernidade. "Queremos ampliar a experiência do visitante. Ele pode chegar de manhã e ficar até a noite. E é também um local para aqueles que só querem tomar um vinho ou um drinque", afirma Argenta.

A Miolo, no Vale dos Vinhedos, foi uma das pioneiras a abrir seus jardins para que turistas pudessem provar vinhos e petiscos em meio à natureza. O Wine Garden tem espaços aconchegantes com almofadas espalhadas, mesas e sofás.

O espaço fica ao lado da parcela do vinhedo mais famoso da marca: o Lote 43, que identifica o pedaço de terra recebido em 1897 pelo imigrante italiano Giuseppe Miolo ao se estabelecer no Brasil.

Alinhada com essa expansão do enoturismo, a vinícola Pizzato também proporciona uma harmonização de seus produtos com queijos e charcutaria regionais.

Quem não gosta de cinema no sábado à noite? E se for num cinema a céu aberto, com uma taça de espumante?

Esse é o chamariz criado pela centenária Peterlongo, responsável por elaborar o primeiro espumante brasileiro.

"Queríamos trazer o turista para dentro dos nossos jardins. E queríamos algo que fosse uma atividade para se fazer à noite, uma alternativa a ir a restaurantes", afirma Sella, sócio-diretor da Peterlongo.

O Wine Movie da Peterlongo é o único cinema da cidade, Garibaldi. As exibições acontecem um sábado por mês.

A nova administração da Peterlongo montou um museu com fotos, maquinários do início do século passado usados na fabricação dos espumantes e garrafas e rótulos antigos.

O tour termina num túnel construído no início do século passado que, conta Sella, era usado para armazenar a bebida. "Um vento frio e constante passava por ele e o tornava gelado. Era usado como câmara fria. Hoje o mantemos fechado, com um lote de espumante de 60 anos. Um acervo preservado e intocável".

Uma alternativa para quem deseja fazer imersão no mundo dos vinhos é ficar hospedado em uma vinícola. A Don Giovanni, em Pinto Bandeira, tem pousada com sete quartos em um casarão e uma cabana em meio aos vinhedos. Hóspedes têm livre acesso a caminhadas pelos parreirais e a um mirante, onde é permitido brindar ao pôr do sol.

Para variar, é bom saber que, no meio de tantas vinícolas está também o Moinho Graciema, com degustação e venda de suas cervejas artesanais.

A cerveja Wiatrak, porém, é produzida a uma distância de cerca de 100 quilômetros dali, no município de Santo Antônio do Palma, já que uma lei municipal impede que cervejas sejam fabricadas dentro do Vale dos Vinhedos.

"Além disso, a água de Santo Antônio é excelente para a fabricação da bebida", diz Leonardo Accorsi, sommelier de cerveja da empresa, que produz vários estilos, entre eles pilsen, american lager, american IPA e english stout.

Para driblar as calorias consumidas em vinho, cerveja e comida farta da Serra Gaúcha, o turista pode passear de bicicleta por vinhedos, com trilhas tanto para iniciantes quanto para os mais experientes no pedal. A iniciativa, da rede de hotéis Dall'Onder, oferece quatro roteiros com diferentes níveis de esforço.

Quem viaja com crianças deve visitar a Casa da Ovelha, em Bento Gonçalves. Ao lado da loja onde são vendidos queijos e iogurtes, há um parque em que é possível dar mamadeira a cordeirinhos e assistir a cães da raça border collie pastoreando as ovelhas.
A jornalista viajou a convite da Conceitocom Brasil

Mais farta do que diversa, mesa da região Sul é marcada pela imigração italiana
Garibaldi (RS) - A culinária da Serra Gaúcha guarda costumes dos imigrantes vindos da Itália no fim do século 19 e no início do 20. Fixaram-se, na maioria, em Garibaldi, Bento Gonçalves e Caxias do Sul.

Além do vinho, os italianos trouxeram a tradição da mesa cheia. A gastronomia local é reconhecida pela fartura, mais que pela diversidade.

"Quando os primeiros imigrantes chegaram, a característica da culinária era a sobrevivência. Cultivavam o trigo, para fazer pão e massas, e milho, para fazer a polenta e alimentar os animais. Da criação de frango, tiravam a carne e os ovos", diz Paulo Geremia, 57, sócio-fundador da rede Casa DiPaolo, de comida típica italiana da Serra Gaúcha.

Traço dessa influência é o hábito de servir vários pratos na mesma refeição, a "sequência": come-se à vontade.

Na Casa DiPaolo, fazem parte da sequência nove pratos, entre massas, polenta, saladas, sopa de capeletti e o famoso galeto na brasa, cuja carne é crocante e aromática por fora e suculenta por dentro.

"Os italianos caçavam passarinhos para a alimentação. Com a proibição da caça, passaram a criar o 'galeto al primo canto', que é o frango abatido com 30 dias de vida e 500 gramas de peso", explica Geremia.

Uma das massas mais pedidas em seu restaurante é o tortéi recheado de abóbora. E de sobremesa, o sagu com creme, que leva vinho na receita.

A mesma fartura está na Osteria Della Colombina, em Garibaldi. Segundo a fundadora, Odete Bettú Lazzari, a sequência de pratos era adotada pelas famílias em dias de festa. A sopa de capeletti era servida só no Natal, na Páscoa e em casamentos.

Na Osteria, oito pratos compõem a refeição, que inclui polenta, salada, nhoque, carnes e sopa de capeletti. Tudo é servido no porão da casa da família, num ambiente rústico.

Não é só de comida tradicional que vive a Serra Gaúcha. O Clô, dentro da vinícola Luiz Argenta, em Flores da Cunha, se inspira nas memórias da gastronomia italiana e usa técnicas mais refinadas para oferecer pratos autorais.

"A estrutura da vinícola é de estilo moderno, o restaurante tem de acompanhar", afirma o chef Wander Schonwald Bresolin, 21, que há dois anos comanda a cozinha. O tortellini de pato de seu menu é releitura do tortéi de abóbora.

Na vinícola Don Giovanni, em Pinto Bandeira, o destaque da sequência é o risoto de alcachofras, cultivadas na propriedade.

A Cantina Cabernet, no subsolo do Grande Hotel Dall'Onder, em Bento Gonçalves, é mais uma opção na Serra Gaúcha para provar a tradicional comida italiana.

Cozinheira serve receitas de família no porão da sua casa
Garibaldi (RS) - É no porão da casa da família, no chão de terra batida, que Odete Bettú Lazzari recebe seus clientes para uma imersão na culinária da imigração italiana.

Enquanto os visitantes chegam, Odete, 69, prepara no fundo do salão as suas "colombinas". São pãezinhos em formato de pomba que serão entregues para cada um ao final do almoço.

"Quando eu era pequena, ganhava colombina da minha mãe. Ela fazia os pães grandes e separava os fiapinhos para as colombinas. Era um agrado para os pequenos", conta a cozinheira. E é essa pombinha que dá nome ao negócio: Osteria Della Colombina.

A ideia de ter um restaurante veio da necessidade. Após a morte do marido, em 1997, produtor de uva e criador de gado, a vida de Odete desabou. Ela se viu com dívidas e quatro filhas para alimentar.

Um dia, diz, estava ouvindo o rádio e escutou sobre um projeto de entidades privadas e órgãos municipais para criar um roteiro de turismo rural na região. "Estavam convocando famílias de agricultores. Vi uma chance de sair da situação", conta Odete.

Em dois anos, a empreendedora se profissionalizou: fez cursos de atendimento ao turista, de aprimoramento na cozinha e de contabilidade. O restaurante foi aberto em 2001.

E por que utilizar o sistema de sequência? "Porque era assim que as famílias italianas faziam antigamente nos dias de festa. Vários pratos, servidos na mesa, um depois do outro", responde Odete, que utiliza até hoje as receitas de suas avós e bisavós.

A maior parte dos alimentos usados é cultivada na propriedade e tem certificação orgânica. "Plantamos, colhemos, transformamos. Queremos tudo o mais saudável possível."

Onde comer na região

CASA DIPAOLO
O restaurante abre para almoço e jantar quase todos os dias –é bom checar o funcionamento de cada uma das unidades no site– e opera por ordem de chegada, sem reservas. O menu-degustação custa de entre R$ 78 e R$ 81 por pessoa, dependendo da unidade visitada. Há uma, inclusive, em São Paulo. Mais informações em casadipaolo.com.br

OSTERIA DELLA COLOMBINA
Abre para almoço aos fins de semana e feriados, mediante reservas, que devem ser feitas por meio do telefone (54) 3464-7755. O menu-degustação sai por R$ 75 por pessoa e não inclui bebidas. Mais informações em estradadosabor.com.br/odete_bettu

CLÔ RESTAURANTE
A casa abre para almoço, de terça a domingo. Reservas, que são recomendadas, podem ser feitas por meio do telefone (54) 3298-4477. O menu-degustação, que inclui harmonização de vinhos, sai por R$ 109 por pessoa. Mais informações em clorestaurante.com.br

DON GIOVANNI
O restaurante, dentro da pousada da vinícola Don Giovanni, abre para o jantar aos sábados e só funciona mediante reservas, que devem ser feitas no (54) 3455-6294. O menu-degustação sai por R$ 150 por pessoa, com harmonização de vinhos. Mais informações em dongiovanni.com.br

CANTINA CABERNET
A cantina, que funciona dentro do Grande Hotel Dall'Onder, abre para o jantar todos os dias. As reservas podem ser feitas pelo telefone (54) 3455-3555. O menu-degustação sai por R$ 58 e não inclui bebidas. Mais informações em dallonder.com.br/bento-goncalves/grandehotel

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