31/01/2019 às 11h55min - Atualizada em 31/01/2019 às 11h55min

Os encantos gastronômicos de Maceió

Chefs valorizam ingredientes locais e transformam restaurantes em atrações turísticas da capital alagoana

FOLHAPRESS
Bufê do restaurante Casa de Mãinha | Foto: Divulgação
Além do mar azul-turquesa e da brisa constante, há outro bom motivo para visitar Maceió: seus restaurantes, encabeçados por uma safra de chefs que valoriza ingredientes locais tanto em pratos típicos do Nordeste quanto em novas receitas, com influência de outras partes do país. A gastronomia alagoana ganhou mais popularidade depois que alguns cozinheiros foram alçados à fama graças a aparições em reality shows.

Simone Bert, do restaurante Wanchako, e Paulo Quintella, do Aratu, por exemplo, participaram da última temporada do MasterChef Profissionais, na Band, em 2018. Juntos, eles somam mais de 90 mil seguidores no Instagram. No Aratu, que também é o nome de pequenos caranguejos vermelhos que povoam mangues, os pratos usam ingredientes da região de diversas maneiras.

Na entrada, a macaxeira é servida em forma de tortilha num taco de camarão e queijo coalho. Depois, no prato principal, o ingrediente vira um cuscuz de puba (massa feita de mandioca fermentada), acompanhamento para um filé de peixe com camarões salteados. A casa fica nas margens da lagoa Manguaba, em Marechal Deodoro, cidade a 25 minutos de carro da capital. Lá perto está o povoado de Massagueira, que, não à toa, desponta como polo de restaurantes de frutos do mar.

Com 42 km quadrados, Manguaba é a maior lagoa do estado e fonte de renda para pescadores de bagres, tilápias e siris. A pesca do crustáceo é feita com uma armadilha chamada cova ou com um cesto, a teteia. À noite, a cova é submersa na lagoa com a isca e uma pedra. Pela manhã, o pescador retorna e retira a armadilha. Em geral, são capturados de dois a quatro siris por cova.

Durante o dia, os pescadores vão até bancos de areia na lagoa, colocam teteias debaixo d'água, com isca, e esperam o siri subir no cesto para puxá-lo. Num dia bom, de vento fraco ou durante o inverno, cada pescador consegue pegar até 200 siris. Um desses pescadores é o seu Bahia, 77, que há 34 anos tem um bar aberto às margens da lagoa Manguaba. Entre os pratos servidos na casa está o siri de coral, que é vendido a R$ 3,50 a unidade.

O coral é uma massa cor de laranja, salgada naturalmente, formada pelas ovas do siri em sua fase de maturação. Os crustáceos são servidos inteiros e é preciso abri-los com a mão e uma pequena colher até encontrar o coral nas extremidades da casca. A regra do seu Bahia é clara: se ao abrir o siri o visitante não encontrar o coral, não é preciso pagar. Prontamente, o animal será substituído por outro, vindo diretamente da "geladeira de siri" – uma gaiola na qual os crustáceos são mantidos vivos na lagoa.

Em Maceió, no restaurante Sur, capitaneado pelos chefs Felipe Lancet e Sérgio Jucá, os produtos locais ganham novas apresentações em receitas contemporâneas. O siri vira recheio de coxinha, e o queijo coalho se transforma num carpaccio com molho pesto, castanha-de-caju e folhas de hortelã. Já a tapioca pode ser usada como pincel – para que o visitante faça sua própria arte, inspirada em Delson Uchôa, artista plástico alagoano, com tinturas comestíveis feitas de pimentão amarelo, pimentão verde, azeitona e cheiro-verde.

ADAPTAÇÕES

As reinvenções continuam no peruano Wanchako. A chef, Simone Bert, alerta: não espere pratos tradicionais. O cardápio é inspirado na culinária nikkei, que une as cozinhas japonesa e peruana. Em vez de pescados do Pacífico, a chef usa robalo da foz do rio São Francisco, no sul de Alagoas. A cena gastronômica de Maceió também abriga casas com criações de outros estados. O Akuaba, do chef Jonatas Moreira, nascido em Salvador, serve receitas "afro-baianas".

O restaurante surgiu dentro da casa de sua família, quando sua mãe, Vera, preparava pratos típicos como moqueca e acarajé para convidados. Hoje, funciona em outro endereço, num local amplo e arejado, mas o acarajé continua sendo responsabilidade de Vera. Além das receitas tradicionais, vale provar o polvo laqueado com shoyu, mel e mostarda dijon.

A tradição familiar também faz parte do Picuí, restaurante de origens paraibanas comandado por Wanderson Medeiros. O carro-chefe da casa é a carne de sol, produzida na família desde 1890. Até hoje, a é feita sem conservantes, usando só temperaturas frias e sal. Merecem destaque os minipastéis de carne de sol e queijo coalho, o escondidinho com macaxeira e a carne de sol à sertaneja. Para encerrar, é difícil resistir ao sorvete de rapadura, criação de Wanderson.
Outro endereço que mistura cozinhas regionais é o Divina Gula, do casal André Generoso e Cláudia Mortimer. Os dois saíram de Minas para passar as férias em Maceió, em 1987, e por lá ficaram.

Os ingredientes ainda vêm da fazenda da família, em Minas, e estão em pratos como a linguiça caseira de carneiro temperada com ervas e o queijo trancinha, servido na chapa com pão de alho. A casa também tem a própria cachaça, a Divininha, produzida em Sabinópolis (a 270 km de Belo Horizonte).
Na dúvida entre tantas opções, uma saída para provar um pouco de tudo são os bufês da Bodega do Sertão e da Casa de Mãinha, com serviço por quilo ou por pessoa, que resumem a cozinha local em pratos como sarapatel, rubacão (arroz com feijão verde, charque e queijo coalho) e carne de sol com nata.
 
MARÉ BAIXA
 Jangadas oferecem bar e passeios acessíveis


Foto: Folhapress

 
É na maré baixa que os turistas têm a chance de conhecer o mar de Maceió em seu melhor momento. Na vazante, a água é represada pelos recifes de corais, formando piscinas naturais como as de Pajuçara, a apenas dois quilômetros da costa. Para chegar lá, é preciso contratar um jangadeiro. O próprio trajeto de 20 minutos já vale o passeio – e isso não se deve apenas à água transparente e à sensação de estar em alto-mar.

Algumas das jangadas são verdadeiros bares flutuantes, e servem porções de peixe, camarão e até lagosta (R$ 60, para duas pessoas), tudo preparado na hora. Os coquetéis na fruta, como o de abacaxi, saem por R$ 18. Há ainda aluguel de óculos e snorkel por R$ 10, mas dá para admirar os peixes e corais a olho nu, tão límpida é a água.

A navegação é suave, feita apenas com o vento, que infla as velas das jangadas e lhes confere sua silhueta típica. Para saber qual é o melhor horário de visitação, consulte a tábua de marés, disponível na página da Secretaria Municipal de Turismo de Maceió. O recomendado é que a maré esteja abaixo de 0,5 metro –quanto mais próximo de zero, melhor. As semanas mais indicadas são aquelas de lua cheia e de lua nova.

Para aproveitar ao máximo, programe-se para chegar entre 60 e 90 minutos antes do horário que está indicado na tábua de marés. O passeio de jangada custa R$ 30 por pessoa, e comporta de seis a oito passageiros. Há jangadas adaptadas para cadeirantes.
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