25/11/2018 às 07h30min - Atualizada em 25/11/2018 às 07h30min

Alaska para além dos programas de TV

Estado considerado a última fronteira americana é conhecido por atrações naturais e vilarejos exóticos

FOLHAPRESS

Rio Kenai, o mais longo na península de mesmo nome, no centro-sul do estado do Alasca | Foto: Folhapress
Esqueça os huskies que puxam loucamente trenós pela neve ou as perigosas caçadas de veados e ursos por florestas gélidas. Visitar "a última fronteira" dos EUA não precisa ser uma jornada selvagem típica dos programas de TV locais. O Alasca é, de fato, pura natureza. A época mais popular para conhecê-lo é no verão, entre junho e setembro, longe das nevascas. No final da temporada, turistas somem e as agências realizam seus últimos passeios do ano. A folhagem amarela do outono toma conta das montanhas, colorindo o estado famoso pelas paisagens brancas.

A principal porta de entrada do estado é Anchorage, cidade com menos de 300 mil habitantes, metade da população do Alasca. Sem charme e sofrendo com grande quantidade de sem-teto, abriga um importante museu de arte e cultura, mas há quem prefira se mandar logo para a natureza.
Nesse caso, o Mount Baldy fica a 30 minutos de carro e oferece trilha de duas horas até seu topo, com vistas para montanhas geladas. Uma boa pedida é fazer um lanche no Snow City Café na ida e parar na volta na fábrica de cidras Double Shovel.

O sabor de Alasca raiz chega com a exploração de seus muitos glaciares. Estão por todas as partes, cobrindo topos de montanhas para quem pega a estrada ao sul e vai explorar a península do Kenai. A primeira parada é Whittier, "a cidade mais estranha dos EUA". Só é possível chegar via um túnel de mão única e pelo qual também passa a linha de trem. No final de setembro, parece um lugar fantasma. No mercadinho local, um museu simplório exibe fotografias e histórias dos devastadores terremoto e tsunami de 1964.

A razão de Whittier são os barcos que levam aos glaciares. Os fiordes não impressionam, ainda mais quando o tempo resolve fechar a cara, mas as paisagens finais fazem a viagem de quatro horas valer a pena: gigantescas geleiras se debruçam por montanhas negras, com icebergs flutuando ao redor. A imagem é tão exótica que bate uma febre por mais.

Logo na saída do túnel de Whittier, no lago Portage, uma trilha plana de 1,5 km leva à geleira Byron, que descansa no pé de um monte, a poucos metros de um rio. Mais imponente ainda é o Exit Glacier, a menos de duas horas de carro, na cidade de veraneio Seward. Há duas opções para vê-lo de perto: uma caminhada de 2 km ou um passeio de 8 km até seu topo. Pelo trajeto, marcações sinalizam o ano até onde a geleira chegava, uma retração quilométrica desde 1896. Certamente não estará mais aqui para as próximas gerações.

O caminho é bem sinalizado e passa por uma floresta. Mesmo com movimento de turistas no final de semana, um casal cruzou com um urso e deu meia volta. É algo raro, embora cartazes por todo o estado do Alasca avisem sobre a possibilidade e o que fazer. Sair correndo não é indicado, já fazer barulho, sim. Para quem não quiser depender da sorte (ou azar) para ver ursos de perto e outros animais selvagens, a sugestão é uma visita ao Alaska Wildlife Conservation Center, em Girdwood.

O santuário de cerca de 80 mil hectares cuida, conserva e pesquisa a fauna local, e cada residente tem uma história. O porco-espinho Sneakers foi resgatado de uma família que o colocava para dormir com as crianças, enquanto o urso Hugo foi encontrado com centenas de espinhos em suas patas. Há também alces, renas e bisões, além de uma águia-careca que perdeu uma asa.

Girdwood é uma vila simpática, casa da principal estação de esqui do Alasca, no inverno. Foi eleita uma das melhores do mundo pela National Geographic, que elogiou sua localização incomum, ausência de multidões e aversão ao glamour. Para encerrar a viagem no melhor espírito oposto ao de "Pesca Mortal", programa de televisão sobre barcos pesqueiros e altas tempestades no mar de Bering, uma pedida é embarcar num bote pelo rio Kenai, saindo de Cooper Landing. No verão, pescadores se aglomeram em busca de salmões.

O passeio é suave e quase meditativo, pontuado por águias-carecas que sobrevoam o rio e lontras que tomam sol de barriga para cima nas águas verde-acinzentadas, obra das geleiras da região.
 
 HOMER
Cidade das estrelas de reality do Discovery
 

Homer, na ponta da península do Kenai, é a capital da pesca de halibute, tipo de linguado de carne deliciosa que atinge tamanho monstruoso.
A cidade é também casa da família Kilcher, estrela do reality show do canal Discovery "Alasca: A Última Fronteira", que está em sua sétima temporada. A propriedade está aberta a visitantes e, às vezes, membros do clã dão as caras, como os irmãos Atz e Otto. No entanto, não espere ser convocado para uma caçada de alces. No verão, o local organiza workshops sobre como fazer geleias, construir cercas ou colher cogumelos.

O patriarca, Yule Kilcher, morto em 1998 e enterrado ali mesmo, foi um suíço que imigrou para o Alasca na Segunda Guerra Mundial e criou seus oito filhos com a mulher numa cabana sem eletricidade e encanamento. Hoje, a tal cabana é um pequeno museu com fotos, camas e cozinha originais, além de artefatos curiosos criados por ele, como uma ferramenta de madeira para colher frutas.

O lugar cresceu ao longo das décadas. Hoje, alcança mais de 242 mil hectares. Há um pomar com macieiras e é possível passear pelo local e apreciar as geleiras que tomam os picos das montanhas. Uma trilha leva até a praia. Homer, a 360 km de Anchorage, tem 5 MIL habitantes. O Spit, braço de terra que adentra o mar, está repleto de restaurantes e lojas de souvenir. No centrinho, a Cosmic Kitchen prepara halibute frito com batatas ("fish and chips") e a Homer Brewing Company serve cervejas artesanais.
 
 HISTÓRIA
Vilarejos exibem ligação e influência russa



Samovar Café, na vila de Nokolaevsk, fundada por russos e descendentes | Foto: Folhapress
 
Não dá para ver a Rússia do Alasca, como brincou a ex-governadora do estado Sarah Palin (2006-2009), mas dá para ver muita influência do país de Putin na região. Afinal, os Estados Unidos compraram o território dos "vizinhos" em 1867. Em Nikolaevsk, a 30 km da cidade de Homer (sul do Alasca), a sensação é de uma viagem no tempo e no espaço. A vila de 300 habitantes foi fundada, em 1968, pelos Old Believers, grupo religioso que se separou da Igreja Ortodoxa Russa no século 17. Hoje, eles promovem antigos rituais com o uso de vestimentas tradicionais.

Um dos fundadores de Nikolaevsk foi o russo Kondraty Fefelov, que passou por vários países –incluindo uma parada de cinco anos no Brasil, onde nasceu seu filho Dennis– até se estabelecer no Alasca. A mulher de Dennis, Nina, cuida da única atração turística da vila, o Samovar Cafe. O estabelecimento é apertado e lotado de quinquilharias vendidas a preços exorbitantes, como bonecas russas.

A vila de Eklutna, a 45 km de Anchorage, também tem marcas da cultura russa e de sua fusão com hábitos dos nativos. Essa mescla fica evidente em um cemitério da região. Os locais, do povo Dena'ina, deixaram de cremar seus mortos (e passaram a enterrá-los) ao se converterem à Igreja Ortodoxa Russa. Com isso, começaram a construir casinhas de madeira e colocá-las sobre as sepulturas, para proteção dos espíritos. As "casas de espírito" têm a cruz de três barras da igreja. Algumas são bem elaboradas, outras, decoradas com coisas das quais os mortos gostavam, como garrafas de uísque.

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