11/11/2018 às 07h00min - Atualizada em 11/11/2018 às 07h00min

Rogério Silva lança o primeiro livro

“O maravilhoso mundo de Alice e outras histórias” traz coletânea de textos do jornalista radicado em Uberlândia

ADREANA OLIVEIRA
Foto: Bruno Fernandes/Divulgação
O jornalismo pode ser cruel com quem vive por conta dele 24 horas por dia. Como jornalista ou como consumidor de notícia, às vezes fica complicado acreditar que o mundo pode ser melhor diante de algumas situações que nos chegam por meio das páginas dos jornais, pelo rádio, pela TV ou pela internet. 

“Parem! Eu quero descer. Desliga tudo. Desliga o mundo. Tem momentos em que dá vontade de não saber nada, jogar fora os telefones, os aparelhos de TV, computadores, cancelar as assinaturas de jornais, revistas”. Esse é um trecho da crônica “O mundo maravilhoso de Alice”, do qual o jornalista Rogério Silva também tirou o nome do seu primeiro livro: “O mundo maravilhoso de Alice e outras histórias (Assis Editora, 222 páginas), que será lançado na próxima terça-feira (13), em um evento para convidados em Uberlândia. 

O jornalista, também graduado em Administração, reuniu uma coletânea de textos publicados nos últimos 8 anos em jornais e revistas, entre eles o extinto “Correio de Uberlândia” e a revista “Brazilian Way Magazine” voltada para brasileiros e portugueses que vivem no Canadá. 

“O livro é um elemento de vaidade para seu autor, mas não deve ser pautado só por ela. Reuni textos que têm algo que acredito que podem somar no dia a dia das pessoas que vão se dispor a ler”, disse o autor, que teve o cuidado de colocar algumas notas de rodapé para situar os leitores a respeito de alguns assuntos mais pontuais.

O texto que dá nome ao livro, por exemplo, foi redigido diante de uma grande indignação do jornalista, em 2013. Naquele ano, em abril, um menor de 17 anos confessou a autoria de um crime bárbaro em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Ele e um comparsa assaltaram um consultório odontológico. Porém, além de levar o que lhes interessava ainda colocaram fogo na dentista Cinthya Magaly Mourtinho de Souza, de 47 anos. 

“Quando vi a notícia sobre aquele crime me veio aquela sensação de ‘para o mundo que eu quero descer’. Não conseguia pensar em mais nada”, contou Rogério, que disse ainda que “Acorda, Alice” é uma expressão muito usada por sua mulher, Núbia Carvalho.

Histórias do cotidiano, memórias da infância, cultura pop, a vida de professor, bastidores da política e telejornalismo estão entre os textos que ganharam espaço na coletânea. “Por eles eu debrucei o olhar mais humano possível”, conta Rogério. 

Ele lembra uma polêmica gerada por “Saudades de Caetano”, resenha na qual diz não reconhecer o ícone baiano durante um show em Uberlândia. Gostou de ser “bombardeado” por leitores que, entre outras coisas, diziam que ele estava ultrapassado e não Caê. Para Rogério, qualquer opinião contrária à sua estimula o debate. No rodapé do livro emenda: “Ser lido é a glória de quem escreve”.

Para ilustrar alguns dos artigos ele convidou o cartunista e chargista Maurício Ricardo. “Ele tem uma sensibilidade muito grande e conseguiu captar exatamente o que eu queria ilustrar com os artigos, principalmente os mais irônicos. Afinal, no Brasil é praticamente impossível se falar de política sem ser irônico”, comentou Rogério, que também é professor universitário. 

O autor, para chegar aos 56 textos selecionados, contou com a ajuda da editora Ivone de Assis. O prefácio traz palavras de Antônio Lopes, amigo de longa data de Rogério, que conhece bem aquele que se considerava um menino desengonçado, nascido em Itabuna (BA), filho de Orlando e Rosa, hoje saudades eternas.

Perdi meus pais muito cedo. Ela tinha 53 anos e ele 66. Meu pais era um entusiasta do rádio, comerciante apreciador do futebol amador e sempre foi um grande incentivador do meu trabalho. Muitos da geração dele se alfabetizaram lendo jornais. Em casa os periódicos estavam sempre por toda parte”, comentou Rogério.

A irmã, Maria Luiza Santos, é escritora e pesquisadora e uma de suas inspirações mais fortes. “Ela tem sete livros publicados, quatro deles para o público infanto-juvenil. Encontrou seu nicho e está se dando bem, o que me deixa muito orgulhoso”, afirmou.

Pode-se dizer que o jornalismo entrou na vida de Rogério Silva por acaso, na linha “eu não escolhi o jornalismo, o jornalismo me escolheu”. Além de Jornalismo e Administração, ele também graduou-se em Direito e fazia esse curso quando uma emissora de TV procurava estagiários da área de humanas na universidade em que ele estudava. 

“Eu tinha 19 anos quando trabalhei na primeira emissora de TV como estagiário e depois trainee. E já se passaram praticamente 27 anos”, recorda.

Rogério, atualmente diretor de jornalismo da TV Paranaíba, chegou em Uberlândia em 2007 e foi aqui na cidade que começou a desenvolver o hábito da escrita. 

“Minha linguagem é de TV, fazia coisas para o impresso esporadicamente e os desafios do texto são bem maiores. Quem me ajudou muito foi o jornalista Ivan Santos, editor da coluna ‘Ponto de Vista’ do ‘Correio de Uberlândia’. Ele me ensinou a escrever o artigo com o que era necessário, não dizer nada além do que precisa. Aprendi com ele a expressão ‘deixa o texto dormir’”, disse.

É de Ivan Santos o texto da orelha de “O mundo maravilhoso de Alice e outras histórias”. 

Assim como o jornalismo diário pode nos levar a repensar nossas ações, a forma como é usado muitas vezes faz querer perder a fé no ser humano. Como um homem de TV, Rogério sabe da importância da audiência para as emissoras. Porém, orgulha-se em dizer que hoje a Record, rede da qual a Paranaíba é afiliada, já não trabalha mais no esquema de ter audiência a qualquer custo.

“Isso ficou bem claro em um workshop que fizemos recentemente, que apesar de ter sido voltado para a cobertura das eleições, acabou levando a discussões sobre outros assuntos também. O tempo de usar uma imagem só para chocar a audiência já passou”, disse.

Rogério afirma que o brasileiro, no geral, é muito conservador, muito pudico. Nesse ponto, considera que o aplicativo de troca de mensagens WhatsApp foi “um tapa na cara da sociedade brasileira.

Questionado sobre a falta do chamado filtro na hora dos compartilhamentos, ele concorda que não estamos todos preparados para receber algumas imagens que apesar de chocantes, continuamos a compartilhar sem propósito, sem considerar o mal que pode estar fazendo ao outro.

“A pessoa está ali, protegida pelo seu ambiente, fechada no quarto, recebe, compartilha imagens, as tão faladas fake news - que aliás se são fakes não são notícia - e imaginam que não fazem mal algum, será que não?, questiona o escritor.

Rogério comenta que virou “o chato” dos grupos no aplicativo. Toda vez que recebe algo sem apuração ele questiona quem enviou. “Mas as pessoas não parecem se importar, elas gostam de se iludir com a notícia falsa, que sempre gera mais repercussão”, comentou.

A falta do hábito de leitura na sociedade é outro ponto que preocupa o jornalista, administrador e agora escritor.

Apesar do peso do dia a dia, a leveza ainda tem seu espaço, por isso a leitura desses artigos é uma boa pedida para quem busca um equilíbrio e, quem sabe, um motivo para um sorriso bobo, daqueles que a gente só consegue esboçar quando ouve ou lê uma boa história.

SERVIÇO
O QUE: lançamento do livro “O Mundo Maravilhoso de Alice e outras histórias” - com sessão de autógrafos.
QUEM: Rogério Silva – Ilustrações: Maurício Ricardo
QUANDO: terça-feira (13), das 19h às 22h
ONDE: Caramel Sweet & Salt – Boulevard Fundinho
OBSERVAÇÃO: evento para convidados
INF.: Após o lançamento o livro poderá ser adquirido na livraria Pró-Século
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