14/10/2018 às 06h30min - Atualizada em 14/10/2018 às 06h30min

Herança vulcânica dá tom a Torres

Relevo da cidade se destaca entre os 620km da costa gaúcha com formação geológica de rochas milenares

FOLHAPRESS - FOLHAPRESS

É bem provável que, após acompanhar a sucessão de lagoas entre morros que emoldura a paisagem à direita da BR-101, quem segue de Porto Alegre rumo ao norte gaúcho tome um choque ao entrar pela via de acesso de Torres: a avenida Rio Branco. Com placas de propaganda em letras garrafais no alto das fachadas, pontos comerciais disputam a atenção do visitante sem um mínimo respiro verde. O Mampituba ("rio de muitas curvas", em tupi-guarani) está à esquerda do viajante. Naquele trecho, porém, seu curso corre longe da vista.

Suas águas dividem o lado gaúcho de Torres, 37.564 habitantes, do lado catarinense, onde a pacata Passos de Torres acolhe 8.370 moradores, segundo dados do IBGE. Famoso pelos cenários típicos de inverno e pelas vinícolas das cidades serranas, o Rio Grande do Sul guarda uma espécie de caixinha de surpresas naquele trecho litorâneo. Quando os olhos correm em direção à praia, a primeira impressão não é – definitivamente – a que fica. À beira-mar, os encantos que dão fama ao mais concorrido dos balneários gaúchos vêm à tona. O litoral de lá tem cerca de 620 quilômetros. Praticamente tudo segue em linha reta. Em geral, suas faixas de areia são longas e contínuas. Em Torres, porém, o aspecto da costa muda completamente. Ele é mais parecido com o encontrado na vizinha Santa Catarina.

O relevo de Torres marca o início da Serra Geral, uma formação geológica de rochas magmáticas relacionadas a derramamentos de lava vulcânica que ocorreram há milhões de anos, explica a geóloga Beth Rocha. Vale lembrar que é a mesma extensão na qual estão os parques nacionais Aparados da Serra e Serra Geral, donos de corredores dos maiores cânions do Brasil. Acredita-se que, antes da separação dos continentes, a área era unida à região onde hoje está localizada a cidade de Etendeka, na Namíbia.

Torres é o único lugar do litoral rio-grandense agraciado com morros na orla. Justamente por isso, a cidade assim foi batizada, em homenagem aos rochedos de origem vulcânica que ali afloraram. A saber: Torre Norte, também conhecida como Morro do Farol; Torre do Meio, ou Morro das Furnas; Torre da Guarita (ou Guaritinha); e Torre Sul. Somente a primeira das torres situa-se fora do Parque da Guarita. Também foi a que mais sofreu interferência humana. Além do farol, há uma estrada de acesso pavimentada de paralelepípedo e banquinhos na encosta para o viajante apreciar os paredões e a imensidão do Atlântico.

De lá de cima ainda é possível visualizar, à esquerda, o refúgio de vida silvestre conhecido como Ilha dos Lobos. Entre os meses de abril e dezembro, lobos e leões marinhos aparecem naquela extensão. De maio a novembro é época das baleias, especialmente a franca –elas saem da Antártida e vêm se reproduzir em mares brasileiros. A Torre do Meio fica entre a praia da Cal e a praia da Guarita. Há uma trilha curta, de fácil acesso inclusive para crianças, que atravessa por cima do platô, oferecendo uma vista privilegiada das formações e do oceano.

No alto também dá para reconhecer como a força incessante das águas continua a abrir caminhos em forma de grutas: as cavernas conhecidas como furnas. Mas o que já é um espetáculo ainda reserva surpresa maior: entre a Torre Sul e a Torre do Meio eis que surge a praia da Guarita, que dá nome ao parque criado em 1971, numa área de convívio desenhada por enseadas e penhascos na qual está o Morrinho (outra formação vulcânica). Com 39,86 hectares, a região é banhada por águas propensas ao surfe e a esportes náuticos e em geral bem geladas.



O ponto estratégico para quem quiser ter ideia da dimensão do lugar só é alcançado depois de 124 degraus de acesso à Torre Sul. A vegetação generosa e a brisa constante ajudam o turista a encarar o desafio de atingir o cume. A menos de um quilômetro dali fica uma unidade de conservação: o Parque Estadual de Itapeva. Ele compõe um cenário decorado por dunas de encontro ao mar em meio à mata atlântica, cujo solo é encharcado. Seu ecossistema abrange da mesma forma restinga e áreas alagáveis.

Apaixonado pela região, o biólogo Rivaldo Raimundo da Silva, 47, explica que, somente no Parque Itapeva, já foram catalogadas ao menos 19 espécies de mamíferos, 29 de répteis e outras 177 de aves. Desse total, ao menos 18 delas estão na lista de animais ameaçados de extinção. Na maré cheia, correm ondas fortes na praia da Itapeva. Ela se estende por um areal de pouco mais de quatro quilômetros convidativos a longas caminhadas e contemplação. É, sobretudo, um espaço de comunhão com a natureza para enterrar de vez aquelas imagens urbanas que ameaçaram azedar o início desta viagem.
 
 CORES

Parapentes e balões se revezam no céu gaúcho

 Se agora, durante a primavera-verão, quem brilha em Torres é o parapente, o início do outono costuma deixar o céu do balneário gaúcho cravejado de cores. A cidade, considerada a capital nacional do balonismo, realiza anualmente, entre os meses de abril e maio, o Festival Internacional de Balonismo, competição com modalidades de provas que reúnem cerca de 60 pilotos, entre brasileiros e estrangeiros. Natural do balneário gaúcho, o piloto Luciano Gross Caetano, 39, participa do campeonato desde 2007. Ele explica que um dos pontos favoráveis de voar na sua cidade é a vasta quantidade de terrenos para pouso e o vento mais característico, que sopra paralelo ao mar, o que propicia, inclusive, pousos na praia da Itapeva, com 6 km de extensão.

Diz mais: "As belezas naturais fazem com que a cada voo a gente tenha uma sequência de imagens fantásticas, compostas de mar, serra, lagoas, ilha e até mesmo o Parque Estadual da Itapeva, uma reserva ecológica". Além, é claro, acrescenta, do rio Mampituba, que divide o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os balões, explica, chegam a voar a mil metros de altitude, numa velocidade que pode variar de 5 km/h, no momento do pouso, a 15 km/h, quando estão no alto.
 
 LADO CATARINENSE
Bella Torres é mais pacata que a vizinha



Passarela que dá acesso à Prainha, em Passo de Torres

 Quer curtir uma praia bem deserta? É só atravessar a ponte pênsil (dica: costuma balançar bastante) para chegar até a vizinha catarinense Passo de Torres e passar o dia na praia de Bella Torres. Gaivotas e parcos pescadores fazem companhia ao visitante, que encontrará um mar geralmente mais agitado que o da cidade gaúcha. A região é procurada por surfistas e por gente que aprecia estar só diante do mar. Outras praias que merecem menção são as dos Molhes e a Rosa do Mar.

É também de Passo de Torres que partem passeios de barco para a Ilha dos Lobos, unidade de conservação ambiental criada para proteger lobos e leões-marinhos. Uma outra área destinada à proteção é o Morro dos Macacos, reduto de macacos-prego a oito quilômetros do centro. Ali, é melhor ficar esperto. Os macacos-prego se manifestam naquilo em que são mestres: a malandragem. Guias costumam acompanhar os visitantes em caminhadas que duram cerca de uma hora e meia pelas trilhas da área. Além da macacada, o lugar reserva ruínas históricas e a lagoa do Sombrio, própria para banho. Como o caminho até lá não é quase nada sinalizado por placas, na dúvida é só parar e perguntar aos moradores sobre o melhor trajeto.

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