06/09/2018 às 08h26min - Atualizada em 06/09/2018 às 08h26min

Clássica Highway 1 é a Califórnia-raiz

Viagem de carro pela estrada deixa para trás a agitação de Los Angeles e San Francisco

FOLHAPRESS

Registro do Dream Drive na Bixby Creek Bridge, em Monterey | Foto: Folhapress
Vista do alto, a fila de carros remete ao auge do verão californiano na Costa Central, com americanos migrando em direção ao mar. O comboio mistura modelos de todas as épocas e anuncia: a Highway 1 está de volta, reaberta ao tráfego de ponta a ponta após um ano e meio de obras.

Em fevereiro de 2017, parte da estrada que liga San Francisco a Los Angeles foi fechada em Big Sur para a reconstrução da ponte Pfeiffer, que teve as estruturas abaladas pelas tempestades de inverno.
Três meses depois, a montanha quis encontrar o mar na região de Mud Creek, cidade de Monterey. O deslizamento de 1,5 milhão de toneladas de terra e pedra interditou de vez o trecho central da rodovia. O turismo local foi soterrado junto com o asfalto.

Quem narra a história recente do lugar é Kevin Enderby, dono da Ferrari F355 GTS 1997 que participa da festa de reabertura da rodovia. Seu carro é um ponto amarelo entre outros 90 automóveis nesta viagem, que começa em Monterey e segue na direção sul rumo a San Luis Obispo. A reportagem vai de carona com Kevin por 211 quilômetros espremidos entre mar, rochas e montanhas. A velocidade é limitada a uns 90 km/h em respeito às regras de trânsito e aos carros antigos que formam o comboio.

Os veículos homenageiam os anos de vida da Highway 1, que foi aberta em 1934. O representante da data de inauguração é um raro Pierce-Arrow prateado que, assim como a estrada, é símbolo de uma América que tentava se recuperar da crise de 1929. O comboio parte do autódromo de Laguna Seca às 8h30 em meio a uma densa névoa e temperatura baixa. O aplicativo do telefone indica 16 graus neste momento. Meia hora depois, o sol aparece e começa uma escalada térmica digna de deserto, em dupla perfeita com as praias que surgem à direita.

A velocidade moderada permite admirar o trajeto. A primeira cidade que surge é Carmel, um balneário de águas geladas e movimento intenso no verão. Suas ruas principais, que misturam bistrôs e lojas de grife, são o que há de mais opulento nesta rota. O resto do trajeto privilegia uma Califórnia mais raiz. O comboio passa ao largo da badalação e segue para o resort Ventana Big Sur. Dos seus 59 quartos se veem oceano Pacífico e floresta com grama rasteira nas encostas e sequoias nas partes altas. O ambiente é rústico e chique no Ventana, que tem ainda 15 tendas para os hóspedes que preferem um acampamento de luxo.

O estilo se repete do outro lado da rodovia, onde está o Post Ranch Inn, com chalés que podem ter aquecimento tanto no piso como na piscina. Em ambos os hotéis, as diárias partem de US$ 600 (cerca de R$ 2.470). São opções para quem deseja fugir do agito das grandes cidades sem abrir mão de alta gastronomia e muito conforto. Mas esse é só o começo da viagem pela Costa Central da Califórnia.
 
A praia de Mud Creek está no meio do caminho entre Monterey e San Luis Obispo. É o trecho mais isolado do percurso, e o comboio de 90 carros que celebra a reabertura da Highway 1 reduz ainda mais a velocidade ao passar por lá.
Kevin Enderby, motorista da Ferrari F355 que leva a reportagem, aponta para as pedras que deslizaram em direção ao mar e criaram um novo cenário na via. Do outro lado, paredes artificiais de contenção ressaltam a aridez do local, logo substituída pela vivacidade de San Simeon, onde está localizado o castelo Hearst.

Construída pelo magnata da comunicação Willian Hearst (1863-1951), a propriedade fica em uma colina afastada da rodovia. São mais de 160 cômodos de pura megalomania parcialmente abertos à visitação pública. Uma visita de 45 minutos custa US$ 25 para adultos (R$ 103) e US$ 12 (R$ 49) para crianças entre 5 e 12 anos. O castelo é interessante por sua característica peculiar, mas não é um lugar indispensável no roteiro. Parte da graça desse trecho central da costa californiana está em lugares que não são grandes destinos turísticos e por isso têm no jeito rústico seu charme. Esses recantos começam a surgir a partir de San Simeon, onde ranchos e vinícolas tornam-se mais frequentes.

Muitas famílias locais transformaram propriedades centenárias em negócio, tudo a menos de 15 minutos de boas praias, a exemplo das encontradas em Cambria. Bom lugar para uma noite de descanso antes de continuar a viagem em direção ao sul. Ainda não é hora de parar. Os veículos do comboio avançam para Morro Bay, ponto final da viagem pela porção central da Highway 1. A temperatura começa a cair novamente por volta de 17h, mas ainda há sol forte. Surfistas se arriscam no mar gelado enquanto os carros estacionam em círculos.

A praia fica na cidade de San Luis Obispo e é emoldurada pelas rochas vulcânicas de Morro Rock. Apesar da névoa que é comum no local, o fim da tarde vale a visita.
Os carros logo se tornam a atração do dia, e os motoristas são saudados pelos moradores no trajeto final. Morro Bay concentra pequenos restaurantes à beira-mar e sua receita principal vem da pesca. A reabertura da estrada é fundamental para a plena retomada das atividades. Parados lado a lado, os carros contam a história da estrada. Enquanto o Pierce-Arrow 1934 remete ao período de construção da Highway 1 em meio à retomada econômica dos Estados Unidos, o Chevrolet Belair 1953 lembra os anos de prosperidade.

O comboio inclui também carros atuais. O elétrico Tesla Model S azul-marinho é o preferido de duas gaivotas, que pousam em seu teto. A noite só cai às 20h, horário em que os motoristas começam a recolher seus carros após a viagem. Kevin entra na F355 amarela e retorna para sua garagem em Monterey, onde há mais duas Ferraris à sua espera. A partir daí, resta seguir no ônibus fretado pela organização da viagem.
 
BOM ROTEIRO
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Para conhecer San Luis Obispo, o primeiro passo é percorrer a rua Monterey. Lá estão as principais atrações da cidade, um local tranquilo e repleto de cervejarias. A produção começou a crescer no início da década e hoje é um dos negócios mais lucrativos da região. O setor de cervejas emprega cerca de 50 mil pessoas em toda a Califórnia. A Central Coast Brewing oferece 15 diferentes rótulos e uma tulipa de 300 ml custa US$ 4 (R$ cerca de 16,30). É o mesmo preço das opções disponíveis na Barrel, que fica no subsolo de uma barbearia.

Na Slo Brew, as comidas servidas em porções e o salão de jogos são convites para gastar tempo beliscando e brincando de pebolim além de, é claro, consumir mais bebidas. As cervejarias ficam nos arredores do pequeno centro histórico de San Luis Obispo, que tem pouco movimento no verão. O dia mais agitado é a noite de sexta, que começa com shows gratuitos na praça principal da cidade. No sábado, um telão projeta filmes infantis. O espaço é pequeno, mas suficiente para famílias estenderem cangas e toalhas na grama.


Cervejaria Slo Brew, em San Luis Obispo, Califórnia | Foto: Folhapress

O lado bizarro está materializado no beco Bubble Gum, transversal à rua Higue