30/08/2018 às 09h09min - Atualizada em 30/08/2018 às 09h09min

Quatro bairros de Belém para quem não quer só comida

Passeio que começa na Cidade Velha mostra também história, arte e natureza

FOLHAPRESS

O Theatro da Paz, mais antigo de Belém
É uma associação automática, Belém e comida. Faça o teste em uma roda de amigos. Basta citar a capital paraense e surgem menções a peixes, castanhas e frutas do Mercado Ver-o-Peso e aos restaurantes e bares da Estação das Docas, ambos às margens da baía do Guajará.

Nesse papo, é provável que também venham lembranças dos sorvetes da Cairu. Alguns podem até rememorar os pratos do Remanso do Bosque, a melhor opção gastronômica da região Norte. Come-se bem na cidade, é fato, mas Belém não merece ser reduzida a um banquete ininterrupto. Um circuito de quatro bairros vizinhos reúne outros tipos de atração, lugares ligados à história, às artes, à religiosidade e às riquezas naturais. A visita à capital paraense é especialmente recomendável nos próximos meses porque as chuvas são menos frequentes – em dezembro, o tempo vira e lá vem água.

Além disso, este segundo semestre tem o Festival de Ópera (agosto e setembro) e o Círio de Nazaré (outubro). No circuito dos bairros, comece o passeio pela Cidade Velha, um casario antigo diante do Guajará. Como em quase toda a cidade, o excesso prevalece: a sujeira das ruas, as lojas com música em alto volume, a buzina das motos. Há, por outro lado, beleza em abundância na coleção de cerâmicas pré-históricas do museu instalado no Forte do Presépio, também conhecido como Forte do Castelo. São duas as linhas principais de cerâmica: a marajoara (da ilha de Marajó) e a tapajônica (da região do rio Tapajós, no oeste do Pará).

A própria construção, uma das primeiras de Belém, merece olhar atento. Fundado em 1616, o forte sofreu várias modificações ao longo dos séculos. Depois de restaurado, reabriu para o público em 2002. O forte integra o complexo Feliz Lusitânia, o pedaço mais interessante da Cidade Velha. Também nessa área está localizada a Casa das 11 Janelas, sobrado do século 18 que cumpre a função de museu de arte moderna e contemporânea. Há no local obras de menor importância de artistas como Tarsila do Amaral. Melhor é conhecer o trabalho de artistas paraenses, e entre eles está o fotógrafo Luiz Braga.
Saindo da Cidade Velha, uma caminhada de cerca de 20 minutos leva à praça da República, onde fica o Theatro da Paz, no bairro da Campina. Para quem preferir táxi ou Uber, são cinco minutos. Não existe em Belém construção tão exuberante quanto essa casa de espetáculos inaugurada em 1878. Foi a primeira do gênero na região Norte –o Teatro Amazonas, em Manaus, abriu em 1896. As fortunas obtidas com a extração da borracha bancaram uma construção inspirada no Scala, de Milão. Há outras referências europeias. No hall do teatro, a escadaria tem mármore italiano; os lustres são franceses; as pedras portuguesas formam mosaicos nos pisos.

Mas o que impressiona mesmo é o salão de espetáculos. Mais do que os balaústres folheados a ouro, destacam-se duas grandes pinturas. Uma é o pano de boca pintado pelo ateliê francês Carpezat, com referências à república. A outra está no teto, o afresco do italiano Domenico de Angelis, com elementos da mitologia greco-romana. As visitas guiadas pelo Theatro da Paz costumam acontecer de uma em uma hora. O ideal, no entanto, é conhecê-lo quando o palco e a plateia estiverem ocupados. Neste mês, Belém promove a 17ª edição do Festival de Ópera. Nos dias 8, 10 e 12 de setembro, acontecem apresentações de "Un Ballo in Maschera", de Verdi (veja a programação em theatrodapaz.com.br). Também na praça da República, a poucos metros do teatro, fica o Cine Olympia. Não se pode compará-los em suntuosidade, mas aproximam-se em importância histórica.
Inaugurado em 1912, o Olympia é um dos cinemas mais antigos do país. Abriu com ares de requinte. A sala de espera costumava receber recitais de piano –Ernesto Nazareth chegou a tocar nesse espaço. Mário de Andrade elogiou o cinema em carta ao amigo Manuel Bandeira.

Administrada pela prefeitura, a sala se dedica hoje a uma programação alternativa. A avenida Nossa Senhora de Nazaré liga os bairros de Campina, onde estão o teatro e o cinema, e de Nazaré. Vale a pena percorrer a via a pé para a contemplação dos casarões antigos.
Nem todos os edifícios antigos estão em bom estado de conservação, mas nota-se cuidado com a maior parte deles. A riqueza arquitetônica e as mangueiras pelas ruas, uma marca de Belém, fazem de Nazaré o bairro mais agradável da cidade.

Ao fim da avenida Nossa Senhora de Nazaré, fica a basílica de mesmo nome. A mais majestosa igreja de Belém começou a ser erguida em 1910 e estava parcialmente concluída 18 anos depois. É a única basílica da região amazônica.
Assim como ocorreu com o Theatro da Paz, a cultura italiana guiou as opções arquitetônicas. O templo foi projetado pelo florentino Gino Coppedè, que se inspirou na Basílica de São Paulo Extramuros, de Roma. São cinco naves, sustentadas por 36 colunas de granito italiano. A basílica é um ponto-chave da série de eventos em torno do Círio de Nazaré, que inclui missas, romaria fluvial e motorromaria. A mais importante dessas celebrações é a procissão do segundo domingo de outubro, que sai da catedral e termina na basílica.

Depois de passar por esses três bairros (Cidade Velha, Campina e Nazaré), avance para São Brás, outra região bem arborizada de Belém. A atração do bairro é o museu Emílio Goeldi.
No pavilhão conhecido como Rocinha, há exposições, como a dedicada aos índios Kayapós. Mais interessante, porém, é o que se vê no entorno. Criado em 1895, o parque zoobotânico é uma espécie de síntese da floresta amazônica, com árvores de grande porte, como a sumaúma, além de onças e do jacaré-açu, entre outros animais. O lugar merece melhor preservação, mas ainda assim a visita vale a pena. Quem mais curte o parque são as crianças. Fora desse perímetro, existem atrativos como o bosque Rodrigues Alves, no bairro do Marco, e a ilha de Combú. São locais que devem ser incluídos no roteiro se a viagem for mais extensa.
Se o tempo é curto, os quatro bairros formam uma boa síntese das belezas de Belém. Do outro lado de Alter, comunidades oferecem sossego.

SANTARÉM
No Pará, o distrito de Alter do Chão, no município de Santarém, tem se consolidado na última década como um dos melhores destinos da região Norte. Banhado pelo rio Tapajós, reúne lugares de beleza extraordinária, como a Ilha do Amor e o Lago Verde. Mas muito já se falou sobre Alter do Chão. São poucos, no entanto, aqueles que conhecem as pequenas comunidades na região, às margens de outro rio, o Arapiuns. Para visitá-las, o jeito mais prático é contratar pequenas lanchas em Alter. Depois de uma hora e meia rio adentro e 20 minutos de mototáxi, chega-se a Anã, que reúne não mais que cem famílias. É um turismo para quem busca tranquilidade e contemplação. No meio de uma bem preservada reserva de floresta amazônica, está a simpática pousada de Maria Odila. É ela quem recebe os visitantes, que dormem em redes.

Além do turismo, ainda incipiente, Anã vive da criação de peixes, especialmente o tambaqui, e a produção do mel. Em comunidades pró