24/05/2018 às 17h54min - Atualizada em 24/05/2018 às 17h54min

Chapada Diamantina: do pantanal ao Machu Picchu baiano

Com área maior que a Suíça, local tem de cânions a áreas alagadas para turista explorar

FOLHAPRESS | SÃO PAULO

Região de serras é protegida pelo Parque Nacional da Chapada Diamantina, situada no centro da Bahia, onde nascem quase todos os rios das bacias do Paraguaçu | Foto: Folhapress
 
Cravada no interior da Bahia, a Chapada Diamantina ostenta uma beleza cênica e é considerada o berço das águas do Estado. Em uma área maior que a da Suíça, nascentes e rios abastecem dezenas de municípios, em meio a vales, cânions, quedas d'água e montanhas esculpidas há bilhões de anos pela água e pelo vento.

Há espaço tanto de curtição quanto de contemplação, com trilhas e lugares perfeitos para, é claro, um mergulho em águas cor de cobre.

Além da natureza, eventos culturais de qualidade têm levado turistas para a região. Nos dias 20 e 21 de abril, a primeira edição do Conecta Chapada reuniu gente de todas as tribos no balneário do Rio Paraguaçu para assistir, entre outros, o show de Zeca Baleiro com Targino Gondim, sanfoneiro e autor da canção "Esperando na Janela", em parceria com Manuca e Raimundinho do Acordeon.

Outros eventos, como o Festival de Jazz do Capão, o Encontro de Blues, o Festival de Chorinho e o Festival de Forró, em Mucugê, o Festival de Igatu, o Festival da Chapada, em Lençóis, e várias festas santas e tradicionais asseguram a diversidade cultural.

Com isso também fica garantida a alta taxa de ocupação em hotéis, pousadas e, ultimamente, nas casas de moradores que passaram a alugá-las para visitantes durante os períodos que compreendem os eventos. Por isso, reserve antes de ir para não dar com os burros n'água.

As distâncias entre as atrações naturais e as cidades turísticas da Chapada Diamantina são grandes. Visitar a região requer tempo e exige escolher uma cidade como base, além de um bom planejamento para fazer o deslocamento por estradas nem sempre asfaltadas.

Sem carro, ou sem ter um pacote que inclua transporte até os locais que pretende visitar, a tarefa é quase impossível para o turista. Os lugares não têm conexão com transporte público regular.

A falta de placas de sinalização indicando os caminhos até as atrações torna imprescindível a contratação de guias locais, o que contribui também para aumentar a segurança do turista.

A maior concentração de coisas interessantes na Chapada fica perto das cidades de Andaraí, Lençóis, Rio das Contas, Palmeiras, Mucugê, Ibicoara e Vale do Capão.

A reportagem ficou hospedada em Andaraí e visitou o pantanal de Marimbus, a Vila de Igatu, conhecida como a Machu Picchu baiana, e o estonteante poço Azul.

PANTANAL MARIMBUS

Na fazenda Marimbus, a seis quilômetros de Andaraí, paga-se R$ 30 por pessoa para ter uma experiência relaxante na propriedade de 486 hectares - o equivalente a 450 campos de futebol.

Após percorrer de carro uma pequena estrada de terra, que corta a caatinga, chega-se a um píer onde estão ancoradas sete canoas, cada uma com capacidade para duas pessoas, além do condutor que rema a embarcação.

Durante o passeio pela área alagada da propriedade o que impera é o silêncio, interrompido só pelos pássaros.

Com a serra do Sincorá ao fundo e refletida no espelho d'água, percebe-se a vastidão da planície alagada por águas calmas e propícias ao banho. O passeio de canoa leva em torno de duas horas. Navega-se cerca de 2 dos 27 quilômetros de extensão da área alagada, entre várias espécies de plantas aquáticas, como as ninfeias, que se abrem por volta das 8h da manhã e se fecham a partir das 14h.

A jornada é acompanhada por voos rasantes de jaçanãs, gralhas-cancãs, ariris e gaviões-carrapateiros, entre outros coloridos seres alados.

Estrangeiros ficam deslumbrados e costumam banhar-se nus. "Dia desses, um alemão saiu da água, sem sunga, e perguntou se aqui tinha cobras. Quando eu disse a palavra anaconda, ele colocou a mão na frente do 'pequeno' e disse 'Uau'", contou o condutor Fábio Silvestre, que trabalha há 16 anos no local.

Questionado sobre a existência de mosquitos, pernilongos, borrachudos ou muriçocas no local, o barqueiro perguntou como os paulistanos chamam o inseto. "Muriçoca" disse o repórter, ao que ele retrucou: "Aqui, não chamamos. Ela vem de atrevida".

Portanto, leve repelente, roupa de banho e vista um chapéu ou boné para se proteger do sol. O uso de colete salva-vidas é obrigatório, e aluguel do acessório está incluso no preço do passeio.

Helder Madeira, proprietário do local há 20 anos, conta que nunca houve um acidente nesse passeio que, segundo ele, é acessível para idosos e pessoas com necessidades especiais. "Recebemos cerca de 200 visitantes por mês. Já levamos cadeirantes, deficientes visuais e pessoas da terceira idade, além de crianças de colo e até quem não sabe nadar."

Os passeios ocorrem mesmo no meio do ano, quando o nível da água costuma abaixar.

POÇO AZUL
 
A cerca de uma hora de Andaraí fica o poço Azul, na cidade de Nova Redenção. São R$ 30 reais para entrar e ter acesso ao poço de água cristalina em tonalidade azul, que brota dentro de uma caverna.

No preço do ingresso estão inclusos colete, máscara e snorkel para flutuar -mergulhar e nadar são proibidos- e admirar o fundo, que varia de 4 a 21 metros de profundidade.

O incrível tom azul da água deve-se à presença de calcário, magnésio e carbonato de cálcio no fundo do poço. O bagre cego, de quatro centímetros, e o camarão pitu de água doce são algumas espécies que povoam o local.

A água, com temperatura em torno de 24°C, embora pareça parada, é corrente, oriunda de um lençol freático subterrâneo que, de quatro em quatro horas, é renovado. O local descoberto em 1920 por garimpeiros remete a um "gate" de jogo hiper-realista. O turismo foi aberto apenas em 1994.

Cerca de 700 metros do poço já foram explorados, mas o acesso a algumas partes é restrito. Em 2005, foram achados, a 20 metros de profundidade, o esqueleto completo de uma preguiça, além de ossadas incompletas de um hipopótamo, um mamute, um tigre dente de sabre, e de dois humanos. Todos encontram-se atualmente no museu da PUC de Minas Gerais.

Segundo o guia Giovani, a chegada ao poço é acessível a pessoas com mobilidade reduzida. "Atendemos cadeirantes, idosos ou qualquer tipo de pessoa que precise de nossa ajuda, pois temos treinamento de salva-vidas."

Antes de trocar de roupa e tomar um banho para flutuar -sim, o banho é obrigatório, assim como lavar os cabelos e não passar nenhum tipo de creme ou protetor-, reserve um almoço caseiro no restaurante da Dona Alice, que fica na propriedade e resgata com sua comida a força de quem desceu até o fundo do poço.

O período considerado melhor para este passeio é de julho a setembro. Nessa época, o poço não é invadido pelo rio Paraguaçu, fenômeno que torna a água turva.

VILA IGATU

Considerada a Machu Picchu brasileira, a Vila de Igatu, antes alcunhada de Xique-Xique de Igatu, fica a 14 quilômetros de Andaraí. Metade do caminho é feito por uma estrada de pedras. Também é de pedra o casario histórico do vilarejo construído por garimpeiros no século 19, época do Ciclo do Diamante na região da
Chapada Diamantina.

O diamante rareou e a vila, que chegou a ter mais de 9.000 habitantes, registra hoje apenas 394 moradores. Parte do local tornou-se um vilarejo fantasma, com ruínas das casas de pedra. Um silêncio emana da arquitetura desmoronada e, curiosamente, bonita de ver.

Entretanto, não se deixe levar pela atmosfera bucólica do local. É preciso estar atento, especialmente com relação ao dinheiro.

Como a maioria dos ingressos para os passeios é cobrada em dinheiro vivo, é comum turistas levarem consigo boas quantias, o que atrai a cobiça de eventuais gatunos.

Há quem ainda se aventure na garimpagem atrás da mais valiosa das gemas no local, embora encontrá-la seja cada vez mais raro.

Agnaldo Leite dos Santos, o seu Guina, também dono do bar Igatu, ponto turístico da vila, foi um dos que encontrou, mas não garimpa mais. "Já peguei muito diamante. Em 1980, cheguei a pegar 30, 40 cabeças [pedras] de uma vez. Mas quando a gente descobre um garimpo desses, o dono da serra toma."

Quando a reportagem perguntou se ele ainda tinha diamantes para vender, seu Guina respondeu que sim, mas só uns "mosquitinhos" (diamantes pequenos). Mostrou-nos um lote com dez "mosquitos", à venda por R$ 500. Segundo ele, os turistas que passam por ali acabam comprando tudo.

A vila -com 24 ruas, 12 pousadas, seis restaurantes, 55 pontos comercias, 46 veículos, 33 motos, 154 famílias, 36 adolescentes de 12 a 17 anos, 285 adultos, 35 aposentados, 80 casais, 74 crianças de 0 a 11 anos, 225 eleitores, sete estrangeiros, 95 mães, 84 pais, 18 viúvos- tem personagens que valem a pena conhecer, como Amarildo dos Santos, tido como um dos maiores fãs de Xuxa; é ele quem realiza todo ano esse "censo" e o vende por R$ 25.

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