18/05/2018 às 05h59min - Atualizada em 18/05/2018 às 05h59min

Toronto celebra recorde de visitantes

Fluxo pode ser reflexo de resistência ao presidente dos EUA, famoso por discursos antiestrangeiros

FOLHAPRESS | SÃO PAULO

Arquitetura de Toronto tem se destacado por mesclar prédios históricos, de estilo vitoriano ou industrial, com estruturas mais modernas | Foto: Mariana Zylberkan/Folhapress
  
Turismo virou símbolo de resistência a Trump em Toronto, no Canadá. Um termo, emprestado das análises econômicas americanas, vem sendo repetido nas ruas da cidade para explicar o crescente fluxo de turistas registrado desde o ano passado.

Pendurada na fronteira com os Estados Unidos, a capital cultural canadense se assume, com certo orgulho, como uma das maiores beneficiadas pelo chamado "Trump slump", ou "baixa do Trump".

A vocação tradicionalmente liberal dos canadenses tem sido vista como um dos atrativos por turistas que deixaram de visitar o país vizinho após a posse do presidente Donald Trump.

"Temos recebido mais turistas desde o início do ano passado, enquanto os EUA têm sentido um declínio nesse setor", confirma Jessica Halliday, gerente de marketing do bureau de turismo de Toronto.

O discurso anti-imigração e as regras mais rígidas de segurança da atual administração norte-americana refletiram em queda no turismo no país, que perdeu para a Espanha, em 2017, o posto de segundo destino mais procurado no mundo (o primeiro é a França).

Em julho do ano passado, o turismo de Toronto entrou em rota de colisão com o presidente americano após um hotel da cidade retirar o nome Trump do letreiro na fachada.

O então Trump International Hotel and Tower, instalado no centro financeiro, passou a se chamar The Adelaide Hotel Toronto.

Coincidência ou não, Toronto fechou 2017 com recorde de visitantes: 43,7 milhões, 4% a mais do que em 2016.

No caso do fluxo de brasileiros, que visitaram 54% mais vezes a cidade no ano passado em comparação com os cinco anos anteriores, serviram de estímulo a alta do dólar americano, compensada pela taxa menor da moeda canadense, e a simplificação do processo para tirar o visto de turismo, em maio de 2017.

O brasileiro que vai sair de avião para o Canadá pode emitir o visto online, sem filas, burocracias e entrevistas com agentes consulares – diferentemente da praxe para obter o documento norte-americano.

Como em qualquer grande cidade do mundo, é fácil ouvir pessoas falando português pelas ruas de Toronto, em especial na Bloor Street, espécie de rua Oscar Freire local, onde há profusão de lojas de grife.

Mas não apenas. Ao menos 5 em 10 moradores de Toronto são imigrantes, a maioria de origem asiática, como coreanos, chineses e japoneses.

Dependendo do bairro, avisos em inglês nas placas de sinalização são seguidos de traduções em um desses idiomas.

A mistura fica mais evidente na vitrine dos restaurantes que se enfileiram pelas ruas do centro. Há comida coreana-mexicana, italiana-jamaicana e até tailandesa-húngara. Há também uma série de restaurantes tibetanos que competem entre si.

ARQUITETURA

Outra miscelânea, menos atraente, mas igualmente evidente, se refere à arquitetura.

Talvez por ser relativamente nova, fundada em 1793 –mais de 200 anos depois de São Paulo–, Toronto ainda busca conciliar o antigo e o novo em suas construções.

As casas em estilo vitoriano, que remetem à era industrial, têm perdido espaço para arranha-céus, vidro e concreto.

O prédio do Royal Ontario Museum, considerado o principal museu do Canadá, por exemplo, resume bem a disputa de estilos. A construção original de 1914 ganhou uma ampliação futurista em 2007, desenhada pelo arquiteto Daniel Libeskind –nem de longe uma unanimidade entre os moradores mais antigos.

Outra mudança urbanística recente e bastante criticada entre os locais é a "hipsterização" do centro.

Galpões e sobrados antes ocupados por imigrantes recém-chegados, e sem muito dinheiro, têm sido reformados na mesma velocidade do aumento dos aluguéis.

Além da proximidade com a Queen Street, conhecida por suas lojas, bares e cafés descolados, a concentração de grafites no centro atrai o público moderno para a vizinhança.

O turismo também tem se beneficiado da nova roupagem do centro e são comuns tours pelo Grafitti Alley.

Bem menor do que em metrópoles como Nova York e São Paulo, a street art canadense acaba atraindo por particularidades que confirmam o estereótipo do país.

Entre os becos grafitados do centro de Toronto, há uma parede que funciona como rascunho para grafiteiros iniciantes. O espaço de cerca de cinco metros em um estacionamento particular concentra a rebeldia em forma de grafite. Os demais desenhos, que preenchem as paredes nobres dos becos, por exemplo, retratam passarinhos amarelos jogando hóquei.

Evite, porém, fazer o passeio no inverno. Os becos formam um vento encanado que espanta qualquer um.
 
NAMASTÊ

Leve o tapetinho de ioga para pontos turísticos

Em cada um dos principais pontos turísticos da cidade, é possível participar de sessões de ioga.

Na Niagara Falls, aulas de ioga com duração de 45 minutos acontecem em um dos deques de observação bem ao lado das quedas d'água. A programação Namaste Niagara, porém, só está disponível durante o verão.

Mais flexíveis são as práticas organizadas pela vinícolas que ficam no entorno da atração. As aulas, geralmente, acontecem em meio aos parreirais e quase sempre são seguidas de um brunch.

Até no Ripley's Aquarium of Canada dá para ir com o tapetinho de ioga debaixo do braço. Os corredores que passam em meio a aquários gigantescos, onde nadam diversos tipos de espécies, ficam tomados de praticantes da modalidade todas as terças-feiras pela manhã.

Se você achar que o vai e vem dos peixes coloridos podem tirar a sua concentração para se fixar nas posições, há também a opção de praticar ioga em uma cervejaria.

A Steam Whistle fica no centro de Toronto e fabrica apenas um tipo da bebida, a pilsen, que é considerada patrimônio nacional. Além de tours pelas várias etapas de fabricação, o endereço oferece aulas de ioga em meio aos tanques de fermentação.

Na Art Gallery of Ontario, que imita o formato de um navio e reúne acervo contemporâneo, dá para participar de sessões da modalidade conhecida como ioga do riso.

Mas quase nenhuma dessas opções supera a disputada prática em ritmo de hip hop que homenageia o rapper Drake, nascido em Toronto.

As sessões de Drake Yoga acontecem em clima de balada, com luzes estroboscópicas, no subsolo do hotel que também leva o nome do rapper, na animada Queens Street, na região central.

NIÁGARA

Cataratas e vilazinha romântica destoam na região

Chegar a Niagara Falls, ou Cataratas do Niágara, se assemelha bastante a se aproximar de um dos parques da Disney. A infraestrutura turística em volta da atração é proporcional à fama do local e impressiona: inclui hotéis luxuosos de grandes redes mundiais e até um cassino.

Os prédios monumentais no entorno destoam um pouco da proposta de contemplação da natureza, como sugere o destino, mas ficam a uma distância relativamente grande, no outro lado da rua, onde os ônibus de turismo despejam os visitantes, o que ajuda na abstração.

O passeio se resume a se debruçar sobre as grades de ferro e observar a força da água, que é realmente impressionante. Algumas gaivotas habituadas a serem alimentadas pelos turistas compõem o cenário e, muitas vezes, se confundem com o branco da névoa formada pelas quedas d'água. Em épocas mais frias, como neste início de primavera, as pedras em volta das cataratas ficam cobertas de neve – é divertido prestar atenção nas formas diferentes de gelo que os respingos de água desenham.

Nos períodos de frio, o tradicional passeio de barco fica inoperante, mas, mesmo assim, é possível chegar bem perto das águas.

Um túnel, localizado no subsolo do prédio onde funciona um café e a loja de souvenires, deixa os turistas de frente para as cataratas.

Pequenas janelas de madeira e uma sacada são disputados para as poses de selfie. Pedaços de gelo que se acumulam acabam emoldurando os registros.

O barulho das águas se faz presente durante todo o passeio pelo túnel, e você até se distrai das explicações dos guias. Eles usam painéis distribuídos pelo caminho para explicar sobre a origem geológica das cataratas e como a força das águas é transformada em energia que alimenta cidades no Canadá e nos Estados Unidos.

O lado americano é visível no passeio panorâmico de helicóptero. De cima é possível ver que o volume de água é bem maior do lado canadense. A parte americana das quedas fica ao lado da Rainbow Bridge, que liga as duas cidades de mesmo nome: Niagara Falls, em Ontario, Canadá, e no estado de Nova York (EUA).

Tudo indica, porém, que as cataratas no lado americano serviram de inspiração para o episódio do desenho animado em que Pica-Pau desce a corredeira dentro de um barril.

Os visitantes costumam vestir capas de chuva amarelas e acenar para o alto, como fazem os turistas na animação.

Os postos avançados de observação, porém, só abrem durante o verão.

As Cataratas do Niágara ficam em uma região para onde os moradores de Toronto vão passar finais de semana e feriados. A pequena Niagara-on-the-lake, a cerca de meia hora de distância, está às margens do lago Ontario. Suas ruas parecem cenário de um filme água-com-açúcar de Nora Ephron. De dentro das casinhas charmosas, muitas transformadas em hospedagem do tipo bed and breakfast, poderiam muito bem sair a qualquer momento personagens doces em busca da felicidade conjugal.

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