18/01/2018 às 18h05min - Atualizada em 18/01/2018 às 18h05min

Minas deve seguir líder na produção de aço no Brasil

Investimentos em pesquisas colaboram com o bom resultado da indústria siderúrgica no Estado

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Minas Gerais lidera o ranking dos produtores de laminados e semi-acabados para venda / Foto: Acervo IABR

Não é por acaso que um dos personagens mais famosos e fortes dos quadrinhos tenha ganhado o apelido de Homem de Aço. Criado por Joe Shuster (1914-1992) e Jerry Siegel (1914-1996), o eterno Super-Homem representa o indestrutível, o bem, o sem fronteiras. Se, na ficção, nosso herói corre o mundo na luta contra o mal, na realidade, o aço, presente na história da humanidade há mais de 4 mil anos, segue ligado diretamente ao desenvolvimento dos países onde é produzido.

Você pode nem perceber, mas consome, em média, 88kg de produtos siderúrgicos por ano, segundo dados consolidados de 2016 do Instituto Aço Brasil (IABr), instituição criada em 1963 e com sede no Rio de Janeiro que acompanha tudo referente à indústria brasileira de aço. Entre janeiro e novembro de 2017 foram produzidos 31,5 milhões de toneladas de aço no País, 9,1% a mais do que no mesmo período do ano anterior, segundo o IABr. Minas Gerais ocupa o primeiro lugar na produção de laminados e semiacabados para venda (29,9%) e o segundo lugar na produção de aço bruto (30,8%), pouco atrás do Rio de Janeiro (30,9%[VMP1] [U2] [U3] ). Ao todo, de janeiro a novembro do ano passado, Minas produziu mais de 18,5 milhões de toneladas do metal.
 
Entre as 30 usinas em atividade no Brasil, a mineira Usiminas, fundada em 1956 em Coronel Fabriciano, hoje é líder no mercado nacional de aços planos e um dos maiores complexos siderúrgicos da América Latina. Está presente em seis estados e atua em toda a cadeia siderúrgica – da extração do minério, passando pela produção de aço até sua transformação em produtos e bens de capital customizados para o mercado. Possui, hoje, o maior e mais inovador centro de pesquisa e desenvolvimento em siderurgia latino-americana.

Ivan de Castro, gerente de pesquisa e desenvolvimento de produtos da Usiminas, afirma que a qualidade do produto é o que mais conta na hora da aplicação em qualquer setor. Além disso, é material 100% reciclável, amigo do meio ambiente. “Percebemos uma grande evolução no setor automobilístico, por exemplo, no que diz respeito à redução no consumo de combustível e poluição. Com o incremento do aço de alta resistência, diminuímos o peso dos veículos, o que está ligado diretamente à redução do consumo de combustível e da poluição”, explicou.

Castro afirma que as pesquisas são fundamentais para a disponibilização e aplicação de novos produtos cada vez mais duráveis e confiáveis. Em um país como o Brasil, com grandes reservas de petróleo, deve ser constante o aprimoramento nos tubos que são mergulhados em grandes profundidades, utilizados no transporte para as plataformas em alto-mar. “Esses tubos ficam em um ambiente agressivo e precisam ter uma resistência elevada para evitar a corrosão”, disse o gerente. O aço segue presente até a chegada do combustível às bombas nos postos espalhados pelo País.

As pesquisas como as realizadas por Castro e equipe na Usiminas chegam da mesma forma a grandes navios, pontes, linhas férreas e a toda a construção civil, como em nossas casas, nas panelas em aço inoxidável ou em um puxador de gaveta. Para os adeptos de body piercing, por exemplo, o aço cirúrgico é um dos mais procurados na hora de colocar um adorno. Resumindo: o aço faz a economia do mundo girar. E o mais importante: de forma sustentável.

Segundo informações do IABr, o aço figura entre os materiais mais recicláveis e reciclados do mundo. O setor estimula a coleta e recicla o aço contido nos produtos no fim da vida útil, empregando-o na fabricação de novos produtos siderúrgicos, sem nenhuma perda de qualidade. Sendo assim, a produção de aço a partir de sucata reduz o consumo de matérias-primas não renováveis, economiza energia e evita a necessidade de ocupação de áreas para o descarte de produtos em obsolescência. Em 2016, o setor investiu R$ 1,1 bilhão em investimentos em projetos de proteção ambiental.
 
ENTRE BISTURIS E GUITARRAS

Outro setor no qual a presença do aço é constante é o hospitalar. O cirurgião plástico uberlandense Francisco Naves utiliza diariamente materiais cirúrgicos confeccionados em aço, como pinças, tesouras e bisturis. “Ele também faz parte da constituição de mesas cirúrgicas, focos e fios cirúrgicos usados na amarra óssea”, comentou o cirurgião. Para ele, o que faz do aço algo tão confiável é a durabilidade aliada à economia. “Também não é demasiadamente pesado e pode ser esterilizado com facilidade. Mas, talvez, a grande vantagem seria o preço, pois outros materiais, como o ouro e o titânio, são mais caros”, afirmou.

A destreza necessária com as mãos no trabalho como cirurgião, no caso de Naves, se junta a um outro talento: o musical. Guitarrista e admirador do bom e velho rock and roll, mesmo nos momentos de lazer, o aço está inserido em outro patamar: nas cordas das guitarras. E o aço é um dos grandes condutores da música, por sua presença em dezenas de instrumentos, em equipamentos que a fazem chegar aos nossos ouvidos e em tudo que envolve uma turnê.

INTERNACIONAL

Há 60 anos, japoneses enxergaram o potencial do mercado mineiro

O Japão é o segundo maior produtor de aço do mundo, perdendo apenas para a China. E um pouco do país nipônico está em Minas Gerais há 60 anos, colaborando com a Usiminas e o Vale do Aço. Trata-se de uma das maiores acionistas da siderúrgica mineira. Fundada em outubro de 2012 por meio da fusão entre Nippon Steel Corporation e Sumitomo Metal Industries, Ltd., a Nippon Steel & Sumitomo Metal Corporation (NSSMC) é líder mundial em produção integrada de aço e está presente em mais de 15 países e em 13 usinas japonesas.

O grupo emprega aproximadamente 92 mil funcionários e registrou, no último ano fiscal (encerrado em 31 de março de 2017), lucro de R$ 174,5 bilhões de ienes, algo em torno de US$ 1,6 bilhão. Em entrevista ao jornal Diário de Uberlândia, Kazuhiro Egawa, diretor para as Américas da NSSMC, vê com bons olhos a parceria firmada com o estado mineiro.

“A história da Nippon Steel & Sumitomo Metal Corporation data de 161 anos. Desde lá, foram várias fusões e aquisições que moldaram a empresa, a última delas de 2012. Os japoneses participaram da criação da Usiminas há mais de 60 anos. Uma solicitação do governo brasileiro, na figura do então presidente Juscelino Kubitschek, foi feita ao governo do Japão para a construção de uma siderúrgica no País. Na época, o Japão estava saindo da Segunda Guerra Mundial e buscava uma maneira de se incorporar novamente à economia global”, recordou o executivo.

Foi no navio Kasatu Maru, em 1908, que chegaram os primeiros japoneses em solo verde e amarelo. “A acolhedora recepção dos brasileiros ao nosso povo foi um dos motivos que trouxeram a Nippon Steel ao Brasil. Essa colaboração dos governos japonês e brasileiro foi sustentada pelo bom relacionamento entre os povos imigrantes. E trazer a tecnologia japonesa para a construção do 1° Alto Forno do país era uma maneira de agradecer por essa recepção e contribuir para o desenvolvimento econômico do Brasil”, disse Egawa.

Ele comenta ainda que, na época, a Nippon Steel não tinha nenhum negócio na América Latina, e a qualidade do minério de ferro brasileiro garantiu o grande investimento feito. Isso não seria possível, porém, se a holding já não tivesse uma longa história de intercâmbio cultural e um fundamental entendimento com os brasileiros.

“Em Minas Gerais, ao olhar o passado, foram vários fatores que contribuíram para a instalação da usina no Estado. O presidente JK havia sugerido que a obra fosse feita em outros locais, mas o sólido e forte terreno capaz de sustentar a estrutura da siderúrgica, além do minério de ferro disponível em Itabira e os extensos cursos de rio, contribuiu para a escolha do local”, comentou o japonês.

Quando olha para o futuro, ele vê o Brasil como um país que ainda tem grande potencial no consumo de aço. A aparente demanda doméstica de 2017 aponta para o consumo de cerca de 90 kg de aço per capita (total de cerca de 19 milhões de toneladas). “Países desenvolvidos, como o Japão e a China, consomem cerca de 500 kg per capita ao ano. Isso demonstra que a capacidade de consumo de aço no Brasil pode aumentar em até cinco vezes. Muitas indústrias têm se instalado em Minas Gerais. A natureza dos mineiros é de um povo muito industrial e trabalhador, e com a mente aberta para negócios. Essas características dos mineiros é algo com que os japoneses se identificam. Juntos, podemos desenvolver uma nova era de crescimento para o Estado”, afirmou.

PROJETOS SOCIAIS

Só quem já visitou o Japão entende o quanto o povo por lá é comprometido com o trabalho coletivo, com a ética e com uma organização impecável –a NSSMC promove tudo isso nos países onde atua. “Desde sempre o japonês trabalhou com ética nos negócios. Isso significa trabalho duro e uma visão de comunidade, não individualista. Sempre fizemos o melhor para a empresa e não para o indivíduo. Os japoneses chegaram à região do Vale do Aço há mais de 60 anos e foram parte essencial da construção da cidade de Ipatinga e do senso de comunidade”, comentou o diretor Kazhiro Egawa.

Segundo ele, isso se reflete até hoje nos programas sociais que a companhia apoia e patrocina na cidade. Os investimentos passam pelo esporte. Afinal, Tóquio sediará a Olimpíada de 2020 e, se tudo correr bem, com a presença de muitos brasileiros. Egawa destaca os patrocínios da empresa ao Ipatinga Futebol Clube (IFC), que, em 2018, disputa o Modulo II da Segunda Divisão; à jovem atleta do judô da Usipa (clube em Ipatinga) Ramoni Toledo, que neste momento realiza um intercâmbio em uma universidade japonesa especializada no esporte; à Liga de Desportos de Ipatinga, que oferece esporte ao grupos infantojuvenis; e ao programa de intercâmbio tecnológico para os alunos de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

INTERCÂMBIO

O trabalho de conscientização na área de segurança também é algo importante para os japoneses, que trabalham com simulação para evitar acidentes, promovendo a atualização do maquinário e treinando a capacidade de previsão de perigo. Na área ambiental, o Japão é o país com o melhor índice de eficiência energética do mundo. “Os estudantes da UFMG puderam conhecer nas usinas da Nippon no Japão as boas práticas de reciclagem e limpeza dos ambientes industriais. Trabalhamos muito com o intercâmbio de tecnologia e know-how entre os países. Mas toda essa troca foi em prol de desenvolver brasileiros para operar a Usiminas. Afinal, essa é uma empresa brasileira, criada por brasileiros e dirigida por brasileiros. Entendemos que a convivência mútua é prosperidade mútua”, disse o especialista.

 
SAIBA MAIS

Setores que mais usam o aço no Brasil

Construção Civil
Automotivo
Bens de capital
Máquinas e equipamentos (incluindo Agrícolas)
Utilidades Domésticas e Comerciais

TIPOS DE AÇO*

Há um número grande de formas e tipos de produtos de aço. A variedade dos aços disponíveis no mercado deve-se ao fato de cada uma de suas aplicações demandar alterações na composição e forma.

Em relação à composição química do aço, ao processamento, controles e ensaios (visando atender especificações dos clientes), além de sua utilização final, os aços podem ser classificados da seguinte forma:

Aços Carbono: aço ao carbono ou com baixo teor de liga, de composição química definida em faixas amplas.
Aços Ligados/Especiais: aço ligado ou de alto carbono, de composição química definida em estreitas faixas para todos os elementos e especificações rígidas.
Aços construção mecânica: aço ao carbono e de baixa liga para forjaria, rolamentos, molas, eixos, peças usinadas, etc.
Aços ferramenta: aço de alto carbono ou de alta liga, destinados à fabricação de ferramentas e matrizes, para trabalho a quente e a frio, inclusive aços rápidos.
 
SCORE*

Parque Produtor do Aço no Brasil
30 usinas administradas por 11 grupos empresariais
9º produtor no ranking mundial
Produção Aço Bruto
31,3 milhões de t
Produtos Siderúrgicos
30,2 milhões de t
88 kg consumo per-capita em produtos por habitante
98 kg com sumo per-capita em aço bruto por habitante
8,3 milhões de toneladas de sucata de aço recicladas
R$ 1,1 bilhão de investimentos do setor em projetos de proteção ambiental
*Dados consolidados do setor, referentes ao ano de 2016, divulgados pelo Instituto Aço Brasil

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