07/01/2018 às 05h44min - Atualizada em 07/01/2018 às 05h44min

Rota revela potenciais nordestinos

De Lençóis a Jericoacoara, trajeto turístico explora belezas desconhecidas no Maranhão, Piauí e Ceará

DANTE FERRASOLI | FOLHAPRESS
Região de Tatajuba, no município cearense de Comocim, é uma das atrações da Rota das Emoções, que também passa por MA e PI / Foto: Gabriel Cabral/Folhapress

 

Esqueça a divisão climática do ano em quatro estações. Na região dos Lençóis Maranhenses, os locais só consideram duas: a chuvosa, que vai de janeiro a julho, e a seca, de agosto a dezembro. A atração turística fica dentro do Parque dos Lençóis Maranhenses, que tem 155 mil hectares e cujos principais acessos são por Barreirinhas, cidade a 255 km de São Luís, a capital do Estado.

Na estação chuvosa, cada uma das incontáveis dunas de areia branca esculpidas pelos ventos esconde uma lagoa de águas pluviais; na seca, estas desaparecem progressivamente, à exceção de algumas, que sobrevivem com um volume menor de água, mas igualmente mornas, limpas e convidativas.

Assim, o passeio vale a pena mesmo na seca. Se o viajante preferir locais sem muitos turistas, a época é até mais recomendada. As dunas, afinal, continuam lá, com suas areias frias mesmo sob o sol mais inclemente.

A impressão é que você está em um grande deserto. Para qualquer lado que se olhe, uma infinidade de dunas se apresenta. Todas parecem iguais, se perder ali é muito fácil. Por isso é importante ir à região das lagoas acompanhado por um guia local.

Vistas de cima, as montanhas de areia parecem um lençol amarrotado, e é daí que vem o nome do lugar.

Os Lençóis Maranhenses são uma das atrações mais conhecidas da Rota das Emoções, excursão criada por uma parceria entre Maranhão, Piauí e Ceará, com apoio do Sebrae (órgão de capacitação e fomento a pequenas empresas). O trajeto passa por 14 cidades e une pontos turísticos dos três Estados: além de Lençóis, delta do rio Parnaíba e Jericoacoara.

Para chegar a Barreirinhas, quem desembarca em São Luís vai ter que encarar três horas e meia de estrada em direção ao leste. A via, asfaltada, foi um dos motivos para o aumento de turistas na área. Antes de sua construção, a viagem entre as cidades durava quase um dia.

A paisagem, durante boa parte do caminho, é aquela previsível de interior do Nordeste do imaginário popular: pequenas vilas pobres com casas de barro e campinhos de futebol improvisados.

Barreirinhas, que tem cerca de 62 mil habitantes, é uma cidade pobre. Uma boa parte das casas é de tijolo aparente. Entretanto, há boa estrutura para o turismo, com muitos hotéis e pousadas.

Na avenida Beira-Rio, que margeia o rio Preguiças, há bares e restaurantes, além de galerias onde é possível encontrar artesanato feito a partir da fibra do buriti.

Uma vez na cidade, o visitante que quiser chegar aos Lençóis precisa cruzar o rio Preguiças numa balsa e depois seguir, de jardineira ou de quadriciclo, por 40 minutos por um caminho "com emoção", que passa por dunas, poças (profundas na época de chuva) e, para quem vai de jardineira, galhos passando bem perto da cabeça.

Quando se chega à área das lagoas, os veículos estacionam. A partir dali, só a pé.

 

PREGUIÇAS

Não é fácil competir com Lençóis, mas o rio Preguiças também é uma atração e tanto na parte maranhense da Rota das Emoções.

Em suas margens, a vegetação vai se transformando à medida que o mar se aproxima: de carnaúbas e buritis para manguezais.

Há também a Área de Proteção Ambiental dos Pequenos Lençóis, com dunas menores, dentro do parque.

Em passeio de barco a partir de Barreirinhas em direção ao Atlântico, vale parar no povoado de Vassouras, onde estão algumas dessas dunas.

Ainda na margem do Preguiças, há um farol alto, construído na década de 1940. Quem se aventurar a subir seus 160 degraus poderá contemplar, ao mesmo tempo, o rio, o mar e a área dos Pequenos Lençóis.

Finalmente, o forasteiro chega a Atins, povoado rústico de Barreirinhas, onde está a foz do Preguiças. As ruas são de areia e não existe sinal de celular, mas há pousadas e uma outra entrada para o Parque dos Lençóis.

 

PIAUÍ

Pouco explorada, costa é o éden do kitesurfe

"Tem gente que fala 'vai fazer o que no Piauí?'. No meu Estado há muito para conhecer. Em cada um dos nossos 224 municípios tem alguma atração turística", afirma a guia de turismo Francisca Santos Silva, 47 anos, autodenominada Chiquinha do Delta, sobre o potencial pouco explorado do Piauí.

O Estado ainda não é um destino consolidado: foram pouco mais de 535 mil desembarques domésticos em 2016, segundo o Ministério do Turismo. Seus vizinhos, Maranhão e Ceará, receberam quase o dobro e quase o sêxtuplo de gente, respectivamente.

A faixa litorânea piauiense é a menor do Brasil e, de fato, tem predicados para atrair viajantes. São 66 km de extensão distribuídos entre quatro cidades --Parnaíba, Ilha Grande, Luís Correia e Cajueiro da Praia--, todas parte da Rota das Emoções.

Um dos maiores atrativos é o delta do Parnaíba. O rio que divide Piauí e Maranhão é o maior curso d'água 100% nordestino (o São Francisco nasce em Minas).

Apanhando um barco em Ilha Grande, observa-se o rio margeado ora por pequenas dunas, que parecem uma versão menor das encontradas nos Lençóis Maranhenses, ora por manguezais. O rio tem água morna e limpa, apesar de turva. Seu delta tem cinco fozes: uma no Piauí, três no Maranhão e uma dividida entre os dois Estados, cada uma com suas ilhas e seus igarapés.

 

O DELTA DA QUESTÃO

Quem estiver do lado maranhense da fronteira e procurar por placas com indicações sobre o delta do Parnaíba não vai achá-las. No Estado, ele tem outro nome: delta das Américas.

A denominação diferente deve-se a divergências políticas. Maranhenses alegavam que o fato de o delta ser homônimo à cidade mais antiga do Piauí beneficiava o vizinho.

A cidade de Parnaíba é a segunda maior do Estado, com cerca de 150 mil habitantes. No seu centro histórico há quase 500 construções tombadas. São casarões do século 18, do auge da exploração da cera da carnaúba.

De lá, seguindo para leste chega-se a Luis Correia. No local, há atrações como a árvore penteada, um tamarindo que, por causa da força dos ventos, teve a copa deslocada, e a praia de Macapá, onde os mesmos ventos chamam praticantes de kitesurfe.

Entretanto, o 'hub' do esporte no Estado é a vizinha famosa. Praia mais 'pop' do Piauí e bem preservada, sem barracas ou guarda-sóis na faixa de areia, Barra Grande fica num distrito homônimo da cidade de Cajueiro da Praia, já perto do Ceará.

 

CEARÁ

Rota revela cidades desconhecidas do Nordeste

À exceção de Jijoca de Jericoacoara, município que abriga uma das praias mais famosas do país, são pouco conhecidas as cidades cearenses da Rota das Emoções.

Chaval, a primeira, faz fronteira com o Piauí. É produtora de sal e tem nas pedras de granito que a rodeiam sua maior atração.

Seguindo para o leste vem Barroquinha, onde fica a praia de Bitupitá, e Camocim.

Esta última tem 60 mil habitantes. É a terra natal de Euclides Pinto Martins (1892-1924), aviador que dá nome ao aeroporto de Fortaleza. Seus pontos de atração são o encontro entre o rio Coreaú e o mar, a Ilha do Amor, destino quase inexplorado, e uma sequência de balaústres na avenida que margeia o rio.

Depois vem Jijoca de Jericoacoara. Um de seus refúgios mais procurados, lotado o ano todo, é a lagoa do Paraíso, que faz jus ao nome, com água cristalina e morna e redes estrategicamente localizadas na parte rasa.

Há boa estrutura de serviços, com beach clubs e restaurantes. No Alchymist, é possível alugar um bangalô por R$ 100 e aproveitar a vista tomando um Aperol Spritz (R$ 33,90). A saída econômica é usar uma das mesas de praia: não há cobrança.

Jijoca abriga a vila de Jericoacoara, enxame de visitantes. Para entrar, paga-se taxa ambiental de R$ 5 por dia por pessoa. Se o visitante estiver de carro, pode ir ao hotel, descarregar a bagagem, voltar e deixá-lo no estacionamento --a circulação de veículos de turistas é proibida.

Destino "trendy" já há muitos anos, Jeri tem restaurantes e bares cujos preços lembram os de São Paulo. No restaurante Serafim, um gostoso prato de atum selado sai por R$ 53,88.

Não é um destino barato, mas sua noite é relativamente democrática. Há os beach clubs caros e os bares supracitados, mas nativos e turistas se misturam em uma espécie de "batidão" pé na areia, com DJ, e nos forrós.

A folia, porém, não passa das 2h, diz Ricardo Gusso, secretário de Turismo e Meio Ambiente de Jijoca.

Jijoca de Jericoacoara está a quase quatro horas de carro de Fortaleza, mas Cruz, cidade vizinha, ganhou em junho um aeroporto para facilitar o acesso à região.


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