06/08/2017 às 05h44min - Atualizada em 06/08/2017 às 05h44min

Maria de Maria se lança em voo solo

'Mulher de Juan' marca uma nova fase na vida e na carreira da atriz uberlandense

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Maria de Maria em ensaio de “Mulher de Juan”, que tem a segunda sessão de pré-estreia hoje e marca a primeira produção da artista por uma campanha de financiamento coletivo / Foto: Daniel Cavalcanti/Divulgação

 

Maria de Maria é um nome forte e bastante conhecido para quem frequenta a cena cultural, principalmente na área de artes cênicas de Uberlândia. Aos 36 anos, 17 deles dedicados ao teatro, ela alça seu primeiro voo solo com o espetáculo “Mulher de Juan”, que marca uma nova fase de sua carreira e sua segunda apresentação em pré-estreia nesta noite, na Escola Livre do Grupontapé de Teatro.

Para financiar este espetáculo, a atriz usa a plataforma Catarse, de financiamento coletivo. Todos que apoiarem a ideia com incentivos a partir de R$ 25 têm lugar garantido na plateia. A ação vai até o dia 19 de agosto. Muito usada por escritores e músicos para produção de seus respectivos livros e CDs, o financiamento coletivo para o teatro não é tão comum, pelo menos na região. “Em Uberlândia sou a primeira a fazer. Assim, amigos, amantes da arte, apoiadores, entusiastas culturais podem contribuir com o projeto e ajudar a colocar este trabalho de pé”, afirma.Entre as recompensas no Catarse tem até apresentação particular da artista em casa. 

“Mulher de Juan” conta a história de uma grande artista em meio a um surto de criação de sua primeira obra de arte e provavelmente a última. As inseguranças, as incertezas, as necessidades de reconhecimento, de identidade, de liberdade. A opressão explodida em obra de arte. Maria de Maria conversou com o jornal Diário do Comércio sobre a empreitada. O texto original é da escritora boliviana Claudia Eid Asbun e será apresentado pela primeira vez com uma produção brasileira.

 

ENTREVISTA

JORNAL DIÁRIO DO COMÉRCIO – Sua trajetória está repleta de trabalhos elogiados não só em Uberlândia como também pelo país.Imagino que já tenha surgido convite para alguma companhia ou até mesmo para se mudar da cidade. Pra você, o que fazer teatro em sua cidade representa?
 

MARIA DE MARIA – Desde que me formei, há 15 anos, minha trajetória esteve, em grande parte, vinculada à Trupe de Truões e outros grupos como o Todo Um de Teatro, o Grupontapé, o Grupo Mito 8, e em montagens de projetos específicos como “Era uma vez um Rio” e “Veludinho”. Também atuei como professora por 4 anos no Curso de Teatro da UFU, o que foi uma trajetória linda. Com estes trabalhos tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas, muitos lugares, muitos outros grupos e suas diferentes dinâmicas de trabalho, isso me fez perceber que não importa onde estamos se fazemos aquilo que acreditamos. O lugar de onde venho e onde me construí diz muito de quem sou como artista hoje, aqui e em qualquer lugar do mundo. Estrear “Mulher de Juan” em casa cercada do apoio dos amigos é ao mesmo tempo um privilégio e também um ato político, mostrar para meus colegas de profissão, familiares, amigos, alunos e espectadores que é possível sim viver de teatro, fazer teatro e fruir bom teatro em Uberlândia. Requer trabalho, dedicação, lutas e persistência. E qual profissão não requer isso?

 

Em “Mulher de Juan” você segue inovando e busca pelo financiamento coletivo, já bastante adotado no mercado da música, por exemplo. O que te levou a essa decisão?

Com todo o momento sócio-político pelo qual estamos passando, sinto que a arte, a cultura e a educação, de um modo geral, estão cada vez mais perdendo forças, haja visto nosso instável Ministério da Cultura e a desarticulação das Leis de Incentivo e dos Fundos de apoio à artes na relação com os patrocinadores que recuaram muito. Eram caminhos ainda imprecisos, que estavam sendo discutidos, debatidos e nos quais buscávamos aperfeiçoamento. Vislumbrávamos boas perspectivas. E isso me parece rompido. Está muito difícil seguir produzindo. Por outro lado as parcerias se fortalecem e têm grandes chances de se mostrarem uma alternativa eficaz para viabilizar projetos como este. A adesão ao financiamento ainda é tímida, tudo que se faz virtualmente gera desconfiança e requer um pouco de domínio tecnológico que nem todos têm acesso ainda, mas acredito que é uma iniciativa e que deve estimular outros artistas, de todas as áreas, a apostar nela. Esse modo de colaboração tem se mostrado potente em outros nichos e pode significar uma mudança de paradigma.

 

Fale sobre a escolha dessa peça para o monólogo, o que traz de especial para você e quais são seus principais desafios?

Tive contato com a autora na leitura dramática de um outro texto dela que fiz há uns dois anos. No início de 2017, eu me vi sozinha, saindo de uma estrutura de grupo de modo delicado e doloroso. Há tempos eu já tinha o desejo de montar um solo, de me lançar nesse desafio. Então achei, aos 36 anos de idade e 17 de teatro, que era o momento. Queria falar desse processo, dessas revoluções que se passam em mim, tanto como atriz quanto como mulher. 

 

Aliás, cada dia mais as mulheres têm mostrado coragem para lutar contra uma opressão que muitas vezes se apresenta de forma velada...

Queria fazer algo potente, algo que falasse coisas que eu tinha necessidade de dizer, que falasse dos conflitos de ser mulher hoje. Nossos questionamentos, nossas dúvidas e inseguranças, da necessidade de olhar no espelho e nos reconhecer de um outra forma, da busca pela liberdade de estigmas, das opressões a que fomos e somos há tanto tempo subjugadas, nossas paixões e formas de ser e estar no mundo. Encontrei isso neste texto latino-americano da boliviana Cláudia Eid Asbun, que toca nestes lugares, de modo muito subjetivo e poético. É um texto rico, cheio de metáforas. É como se Elena, a personagem, a mulher de Juan, se libertasse de tudo que a oprime em meio a um surto criativo para criar belezas.

 

SOBRE A MONTAGEM

A encenação propõe constantemente uma reflexão sobre as relações dicotômicas e binárias. Os duplos: dos gêneros – masculino e feminino; dos poderes – fortes e fracos; dos modos de agir – razão e sensibilidade; os limites entre a sanidade e a loucura.

A mulher de um grande artista em meio a um surto de criação de sua primeira obra de arte e muito provavelmente a última. As inseguranças, as incertezas, as necessidades de reconhecimento, de identidade, de liberdade. A opressão explodida em obra de arte. O ambiente reflete os temas apontados no texto, tais como o se tornar artista, o ser mulher e artista, as estruturas sociais patriarcais, a construção do conceito estético por uma suposta crítica, o amor imensurável de uma mulher e a impossibilidade desse amor, a admiração do discípulo pelo mestre, as relações de poder, hierarquias, opressões (abusos, pesos, cargas, mentiras).

 

SERVIÇO

O QUE: Pré-estreia do espetáculo "Mulher de Juan"

QUEM: Maria de Maria

QUANDO: Hoje, às 20h

ONDE: Escola Livre do Grupontapé de Teatro (R. Tupaciguara, 471, bairro Brasil)

INGRESSOS: online ou na bilheteria a R$ 25

 

FICHA TÉCNICA - MULHER DE JUAN

Concepção e atuação: Maria De Maria

Encenação: Adriana Capparelli

Texto: Claudia Eid Asbun

Tradução: Lucas Feres

Investigação Musical Violoncelo: Laura Millya

Pesquisa de movimento: Patricia Arantes

Iluminação: Camila Tiago

Investigação visual: Lucas Dilan

Criação de Arte: Rafael Michalichem

Revisão de textos: Fernanda Spoladore

Texto Prólogo: "Cartas apaixonadas de Frida Kahlo" (Zamora, 2006, p. 158) -(Contribuição: Bárbara Cristina)

Imagem (arte provisória): Livre Inspiração na obra original da artista

Kiki Smith

Gravação Texto Off: Fernando Prado

Produção Executiva: Bertha Ruskaia, Maria De Maria e Wagner Júnior


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